Após a morte da mãe, Sócrates deve ajustar-se à nova realidade: menor de idade, pouco dinheiro, um pai que não aceita sua orientação sexual e um mundo duro que se esconde atrás de um sorriso condescendente. Todos esses elementos se desdobram em econômicos 71 minutos, nos quais a maior parte da ação é guiada por Sócrates perambulando pela cidade em busca de um lar. 

O filme é dirigido pelo estreante em longas Alexandre Moratto e produzido pela Querô Produções. A produtora é um braço da ONG Instituto Querô, de Santos (SP), que utiliza o audiovisual na educação de crianças e jovens periféricos. Assim, compreende-se o visual cru da produção e das atuações. E isso não é algo ruim, uma vez que a direção de Moratto atenta para essas características, adotando-as em seu favor. 

A obra mergulha em uma pegada neorrealista italiana, com bastante uso de câmera na mão e um roteiro bem direto. O choque com que o espectador é lançado na trama – um corte seco com o protagonista tentando acordar sua mãe – permite despir quem assiste e aceitar que a próxima hora será de um completo martírio pessoal em busca de uma saída que satisfaça os desejos de Sócrates. 

Afetivo e inconsequente 

Por estrutura e estilo, lembra o recente “Arábia” (2017), mas, se este conseguia trazer uma bela sintonia entre o vazio do cotidiano e o caráter ambulante do protagonista, o mesmo não ocorre em “Sócrates”. Ainda que se entenda que o jovem vai passar por dificuldades na vida, as mesmas se concretizam em momentos que buscam somente o dramalhão, e não uma reflexão profunda em torno do personagem.  

Christian Malheiros dá vida a Sócrates, e é, talvez, um dos maiores destaques do filme. Apesar de ser visível sua falta de tato na atuação em alguns segmentos, isso não prejudica o todo. Sua presença em tela é essencial para dar o gás necessário para as explosões emocionais do protagonista, seja um beijo romântico com um desconhecido ou uma espiral de autodestruição, bêbado, em um quarto de hotel. Seu rosto ingênuo e carismático consegue dar vez a esse caráter afetivo e inconsequente de Sócrates. 

Ao final, “Sócrates” termina sendo o retrato de uma juventude cada vez mais lançada à própria sorte. Uma realidade na qual família e Estado não parecem ter mais empatia para ajudar e compreender as necessidades da sociedade. 

‘Destruição Final: O Último Refúgio’: feijão com arroz do cinema catástrofe

O ator escocês Gerard Butler parece ser boa gente, alguém com quem poderia ser legal tomar uma cerveja e bater papo. E também parece ser um sujeito que realmente gosta de trabalhar com cinema. Mas... o cara só faz filme ruim, não há como relevar isso. Sério,...

‘Babenco – Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou’: Bárbara Paz faz retrato honesto de um dos grandes

Em um dos momentos mais íntimos de “Babenco - Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou”, ele e Bárbara Paz, sua companheira (e diretora deste documentário), discutem sobre o uso da expressão “baseado em fatos”. Ele defende, ela refuta e diz que um filme...

‘Bill & Ted – Encare a Música’: nostalgia pura em diversão despretensiosa

Lembram-se do Bill e do Ted? No passado, eles viveram duas divertidas e malucas aventuras cinematográficas que tinham tudo para dar errado, mas acabaram funcionando e se tornando inesperados sucessos graças a roteiros que aliavam besteirol e criatividade, e à química...

‘Rosa e Momo’: Sophia Loren desvia de clichês para brilhar na Netflix

Sophia Loren, um ícone da história do cinema, retorna as telas depois de seis anos. A última aparição havia sido em “Voce umana”, produção dirigida por Edoardo Ponti, seu filho e também diretor de “Rosa e Momo”, longa-metragem disponível na Netflix que traz a estrela...

‘O Que Ficou Para Trás’: terror inteligente sobre fantasmas internos

O filme de terror O Que Ficou para Trás, do diretor estreante Remi Weekes e lançado na Netflix, é um exemplar do gênero que usa os sustos e elementos sobrenaturais para tecer um hábil comentário social sobre o problema mundial da imigração. Isso não é algo novo:...

‘Cicada’: delicado romance marcado por traumas masculinos

Com uma poderosa abordagem sobre traumas masculinos, "Cicada" é um corajoso drama que aponta Matthew Fifer como uma nova voz do cinema queer dos EUA. O filme de Fifer e Kieran Mulcare, que estreou no Festival Outfest em Los Angeles e foi exibido no Festival de Londres...

‘Ammonite’: um cansativo sub-‘Retrato de uma Jovem em Chamas’

Depois do sucesso de seu primeiro longa, "O Reino de Deus", Francis Lee torna a apostar em um romance LGBT em sua nova produção, "Ammonite". No entanto, as semelhanças entre os filmes acabam por aí. Mesmo contando com performances poderosas de Kate Winslet e Saoirse...

‘A Voz Humana’: Tilda Swinton hipnotiza em Almodóvar menor

Unindo dois titãs do cinema, "A Voz Humana" é um filme cuja primeira foto de bastidor já foi suficiente para quebrar a internet cinéfila. A visão do diretor espanhol Pedro Almodóvar ao lado da atriz britânica Tilda Swinton veio cheia de promessa e o curta - que...

‘A Metamorfose dos Pássaros’: carta de amor e libertação dos ancestrais

Falar de “A Metamorfose dos Pássaros” é abordar questões particulares que, ao mesmo tempo, são universais. Primeiro longa da carreira de Carolina Vasconcelos, este filme-ensaio, entre a ficção, o documentário e o experimental, conta uma história de amor por meio de...

‘About Endlessness’: Roy Andersson convida público a admirar a vida

Pode parecer absurdo que um filme vigoroso de 76 minutos ouse ser intitulado "About Endlessness" (“Sobre o Infinito”, em tradução literal). Sendo este um filme de Roy Andersson (“Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência”), alguém poderia ser perdoado...