Após uma carreira bem-sucedida em festivais com o documentário performático “Maria”, a diretora Elen Linth apostou num projeto de temática igualmente relevante, mas com uma pegada mais diferente. Trata-se de “Travessia”, longa-metragem de não-ficção dirigido em parceria com Riane Nascimento, numa co-produção Brasil-Haiti.

Nele, acompanhamos a família de Gloriane Aimable, haitiana que vive no Brasil há cerca de seis anos com marido e filhos, e que agora busca uma maneira de trazer pai e irmão ao país, enfrentando muitos percalços. Sua rotina se divide entre o pequeno lanche da família, as vendas como ambulante em um terminal de ônibus e a burocracia exasperante na busca pelo sonhado passaporte.

O indócil ir e vir

A câmera das documentaristas tenta trazer naturalidade à presença no lar da família, nem sempre bem-sucedida. Escolhas como filmá-los acordando, por exemplo, soam um tanto encenadas, assim como um ou outro take no qual se discute, nas entrelinhas, o direito de ir e vir para além de fronteiras – debate que acaba se infiltrando por todo o filme. A tentativa de criar uma linha discursiva audiovisual também não funciona no diálogo entre Gloriane e a mãe, Jacqueline, quando a primeira expressa o alívio que seria o pai estar por perto porque “mesmo que [comêssemos] um pão seco, ele também comeria”, e na cena seguinte, ela aparece comendo, contemplativa.

Porém, pequenos deslizes são rapidamente eclipsados por outros momentos de maior fluidez do tom observacional que as diretoras buscam emular. No fim das contas, os aspectos positivos do roteiro acabam pesando mais ao espectador.

Temos, por exemplo, a reação de Gloriane ao atraso na entrega de seu passaporte – item essencial que ela anseia para poder ir ao Haiti e auxiliar o restante da família do processo de conseguir seus próprios documentos para a vinda ao Brasil. Em sua indignação, quebra-se um estereótipo comum, pelo menos, em Manaus (cidade que recebe grande fluxo desses estrangeiros): o do negro dócil, passivo, disposto a passar por quaisquer percalços no Brasil porque “o nosso pior ainda é melhor que o pior deles”.

Não há como escapar dos problemas nessa terra

Tal quebra é um dos elementos que mais chama a atenção em “Travessia”, posto que ele consegue dialogar com outras questões macro próprias do Brasil. A burocracia excessiva enfrentada por Gloriane aqui e seus parentes no Haiti dialogam pelo fato de que são demarcadas por claras questões de classe, na qual tais personagens, pessoas de origem humilde, são suscetíveis a golpes e/ou enrolação generalizada nesse processo. A crise em ambos os países intensifica tal estado, como eles bem pontuam em ambos os países.

Assim, o dinheiro se torna a tônica para a resolução de todos os problemas, não importando o quanto desumaniza a condição das pessoas. A longa espera pelo passaporte (produzido nos EUA), os problemas de contato com embaixada em Brasília e altos custos do documento todos são solucionáveis (ou, pelo menos, reduzíveis) através de muitos reais.

Como bem conclui Gloriane quando analisa seu contexto, “a gente [haitianos] é vendido”, na medida em que seus direitos como seres humanos não deveriam ser implorados como esmola, mas considerados básicos, óbvios. Isso tudo só fortalece uma das aparentes asserções do longa-metragem: a de que o direito de ir e vir deveria ser amplificado, e não cerceado.

A ligação gerada entre esses tópicos é um dos pontos positivos do roteiro de Linth e da direção dela e de Nascimento como um todo: nunca soam gratuitas e desconexas, sendo um elemento digno de nota no salto da produção de curtas para um longa-metragem. De maneira geral, “Travessia” permite diferentes camadas de leitura, de forma macro ou não; exemplo simples disso é quando um dos personagens declara que “não há como escapar dos problemas nessa terra”; como espectadores, não sabemos se ele se refere ao Brasil ou à esse plano de existência, e nem importa gerar certezas, pois a riqueza do momento captado está justamente nessa lacuna.

Outro ponto de destaque é a atenção dada às músicas cantadas por Gloriane, especialmente a que fecha o documentário. Enquanto espectador, alguém de fora do que vemos em cena, o drama dos imigrantes nos atinge de maneira única ali, inesperadamente, nas letras reflexivas e melodia melancólica, cantadas em creole. É o que nos faz ir além da imagem de negros gentis, agradecidos por serem explorados no Brasil e dispostos a trabalhar em quaisquer condições. Sem imagens “pesadas”, que facilmente poderiam explorar a pobreza dos Aimable no Brasil e no Haiti, as diretoras escolheram dimensionar sua dor através da poesia, numa solução que acaba criando um laço entre “Travessia” e “Maria”.

Talvez como um média-metragem, “Travessia” poderia apresentar um pouco mais de dinamicidade. Tecnicamente, é um filme bem produzido, do cuidado com o trabalho de sim à fotografia (que, se não é muito original em seus tons desbotados, pelo menos é correta). O saldo geral é positivo nessa experiência, demarcando Linth como uma diretora atuante no Amazonas cujos projetos vale conferir, mesmo quando não ousa tanto.

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