Os estragos da última temporada de “Game of Thrones” ainda podem ser sentidos. Enquanto alguns abandonaram o mundo das séries sem data para retorno, outros se tornaram céticos em relação ao destino de suas produções queridas. Esse último posicionamento desperta alertas quando os caminhos de novas temporadas se desvinculam das propostas já estabelecidas. Afinal, é como se houvesse um contrato entre a série e o público, e, arriscar mostrar facetas pouco conhecidas nem sempre é uma boa saída. “Game of Thrones” passou por isso desde a quinta temporada, e, agora, o receio é que Westworld siga o mesmo caminho.

Desde seu lançamento, a série assinada por Jonathan Nolan e Lisa Joy atrai audiência devido às inovações em sua narrativa, o design de produção e as atuações. Mas sair dos parques da Delos mostrou ser uma escolha arriscada e talvez este não fosse o momento ideal.  Claro, que a ideia de abordar o mundo real e suas semelhanças com o mundo criado por Ford e Arnold começa a amarrar pontas e nos preparar para um ápice, entretanto, a redução do número de episódios da temporada e as motivações pouco claras de seus combatentes principais deixa um gosto agridoce – que já foi sentido em outra grande série que, também, encurtou a quantidade de episódios e teve a qualidade narrativa afetada.

LEIA TAMBÉM: Crítica da Primeira Temporada de “Westworld”

O terceiro ano da produção nos transpõe para a vida real. Humanos convivem em um mundo pré-definido por uma inteligência artificial, o Rehoboam, coordenado pela Incite. Curiosamente, no primeiro episódio, um diálogo em que Dolores (Evan Rachel Wood) e Liam Dempsey Jr (John Gallagher Jr) estão presentes supõe simulações da realidade. O que é o suficiente para introduzir o tema e alinhá-lo com questões referentes ao livre-arbítrio e sobrevivência da espécie.

Dessa vez, a trama é linear e acompanhamos o plano de libertação de Dolores para a humanidade. Tendo como apoio Caleb (o sempre excelente Aaron Paul) e ela mesma no corpo de outros anfitriões: Charlotte (Tessa Thompson), Martin (Tommy Flanagan), Musashi (Hiroyuki Sanada) e Lawrence (Clifton Collins Jr); o time Dolores mostrou ser uma pedra no sapato de Serac (Vincent Cassel), então visto como o lado mais sombrio da temporada, bem articulado e preparado para enfrentar o mundo humano e alterar as variáveis tidas como constantes do Rehoboam.

AÇÃO NO LUGAR DA FILOSOFIA

Enquanto Dolores adentrou em seu lado frio, autocentrado e disposto a tudo por seus objetivos, coube a Charlotte ser o coração da temporada. Seus conflitos internos em aceitar o corpo e a realidade a qual foi imposta, o ápice de sua jornada no episódio 6 (“Decoherence”) e sua participação no episódio final (“Crisis Theory”) consagraram a personagem e sua intérprete como os destaques da temporada.  Enquanto isso, Bernard (Jeffrey Wright) e Stubbs (Luke Hemsworth) vivem sua própria aventura para deter Dolores. O anfitrião inspirado em Arnold encaminha-se para ser a chave central da narrativa, como já indicava nas temporadas anteriores. Para finalizar os núcleos, tem-se Maeve (Thandie Newton), lutando ao lado de Serac, e William (Ed Harris) protagonizando uma das cenas do ano em sua sessão de terapia, descobrindo sua missão de vida e dando-nos o gancho para a próxima temporada.

LEIA TAMBÉM: Crítica da Segunda Temporada de “Westworld”

Para esse ano, infelizmente, o roteiro não soa tão intrigante quanto nos anos anteriores. Fora a linearidade da trama, muitas respostas são mais rasas do que o mistério em torno de seus questionamentos. Há uma preocupação maior em evidenciar cenas de ação, que ao fim se desenrolam nelas mesmas, sem aumentar o escopo filosófico da produção. Até mesmo o passeio em meio aos gêneros do cinema norte-americano, no episódio 4, não abre espaço para novas discussões. Em parte, isso se deve a diminuição de episódios, que, de certa forma, influencia para que as tramas sejam mais curtas e seu desenvolvimento mais acelerado. Mesmo assim, isso não justifica a quebra do ritmo filosófico que envolvia a produção. A sensação que fica é que alguns episódios são rasos e não oferecem a complexidade que a série havia imposto.

Entre altos e baixos, a terceira temporada de Westworld parece ser um aquecimento para os próximos acontecimentos. Libertando sua personagem principal e fazendo uma leve homenagem a “Clube da Luta” (David Fincher, 1999), a cena final consegue relembrar as primeiras temporadas e nos fazer ansiar pelo que está por vir. Entretanto, se Westworld era a aposta da HBO para substituir Game of Thrones, Nolan e Joy precisam tomar cuidado para não seguirem os caminhos tortuosos de D&D (David Benioff and D. B. Weiss).

‘Você Nem Imagina’: agradável e irregular romance adolescente

Há dois pontos que ficam claros em Você Nem Imagina, novo romance adolescente da Netflix: o primeiro é que a sua realizadora Alice Wu foge do feijão com arroz tradicional dos coming of age (filmes de amadurecimento) lançados pela plataforma. Existe uma preocupação...

‘O Caminho de Volta’: Ben Affleck se destaca em filme médio

Ben Affleck é um caso interessante. Seu início de carreira como ator em filmes como Procura-se Amy (1997), Armageddon (1998), Dogma (1999) o indicavam como um rosto bonito eficiente – sem ofensa – para estrelar blockbusters sem muito a dizer, mas com enorme alcance de...

‘Wendy’: no limbo da indecisão entre o infantil e o adulto

Quando falamos de diferentes produções sobre uma história no cinema sempre buscamos uma versão definitiva, a mais completa ou melhor idealizada. Assim, um personagem tão famoso como Peter Pan logo ganhou destaque em diferentes filmes e, desta vez, o...

‘Capone’: a esquisitice brilhante de Tom Hardy vale o filme

Alguma coisa está acontecendo com Tom Hardy. Sempre foi um bom ator – daqueles discípulos do método Stanislavski, se imerge no personagem e não sai dele – e especializado em tipos intensos, às vezes atormentados, às vezes até vilanescos. Mas aí em 2018 o cara fez o...

‘Emma’: adaptação irritante com Anya Taylor-Joy robótica

Jane Austen construiu um dos romances mais reais, plausíveis e icônicos de todos os tempos. Afinal de contas, quem não admira a história de amor de “Orgulho e Preconceito”? É de sua autoria também, no entanto, uma das protagonistas mais fúteis e egoístas da...

‘Ilha da Fantasia’: candidato a episódio dos piores de ‘Lost’

“O avião! O avião!”. Essa fala e o anão Tattoo são os elementos mais lembrados do seriado da TV Ilha da Fantasia dos anos 1970. Esses elementos são suficientes para garantir a produção de uma nova versão, destinada ao grande público de cinema de hoje? Bem, alguém...

‘Sete Dias Sem Fim’: filme certo para relaxar na quarentena

 Sete Dias Sem Fim é o típico filme que você passa diversas vezes por ele no catálogo da Netflix, lê a sinopse sem dá qualquer bola para ela e decide escolher outra produção para ver no final das contas. É verdade que o resumo disponibilizado pela plataforma não ajuda...

‘Never Rarely Sometimes Always’: sororidade na angústia do aborto

Particularmente assistir produções que tenham como temáticas ou subtextos o aborto é emocionalmente desgastante. Mesmo quando elas têm um tom mais leve como “Aprendendo com a Vovó”, por exemplo, a carga emocional e unilateral que esse tipo de jornada narra me deixam...

‘A Assistente’: o retrato dos abusos na indústria do cinema

Como todo grande acontecimento no mundo hollywoodiano, o movimento #MeToo não demorou muito para se tornar uma fonte de inspiração para muitas produções no cinema. Seguindo essa proposta, a diretora e roteirista Kitty Green (‘Quem é JonBenet?’) apresenta ‘A...

‘Devorar’: senhoras e senhores, conheçam Haley Bennet

O título nacional do filme Devorar é impreciso e sensacionalista, como muitas vezes acontece. O original em inglês é “Swallow”, que significa literalmente “engolir”, e esse é o drama na vida na protagonista da história. É um filme que combina um olhar sobre um...