Goste-se ou não dos filmes do cineasta Darren Aronofsky, uma coisa se pode dizer com certeza sobre eles: O espectador não sai deles indiferente, Aronofsky ainda não fez um trabalho ruim ou um daqueles filmes que é facilmente esquecido dez minutos depois do fim da sessão. De minha parte, sou admirador, embora reconheça que este cineasta se mantém num eterno cabo de guerra entre o brilhantismo da sua visão e a pretensão vazia. Na maior parte da carreira, o brilhantismo levou a melhor, mas houve instantes em que a pretensão puxou a corda com mais força. Agora que o cineasta voltou com o seu trabalho mais divisivo até o momento, mãe!, é interessante olhar a sua carreira em retrospecto e fazer algumas considerações. Então, sem mais demoras, aí vai, leitor: Os filmes de Darren Aronofsky, do melhor ao pior, em minha opinião.


1. O Lutador (2008)

Curiosamente, para um cineasta conhecido por provocar o público e criar narrativas desafiadoras, o melhor filme de Aronofsky, a meu ver, ainda é o mais “sóbrio” da sua carreira, digamos assim. Também é, até hoje, a única vez na qual ele filmou o roteiro de outrem (Robert Siegel). O Lutador não tem uma montagem que chama a atenção, nem efeitos visuais nem sequências que se passam em tempos remotos, outros mundos ou exploram o subconsciente dos seus personagens. Mas é um filme 100% Aronofsky ao retratar a decadência física e a personalidade de Randy “The Ram” Robinson, outrora um grande nome da abobada luta livre norte-americana, transformado numa sombra do seu antigo eu. E o tema quase religioso, da possibilidade de transcendência, tão caro ao diretor, aparece aqui de maneira poderosa. Além da condução de Aronofsky, a outra grande força do filme é a atuação sobrenatural de Mickey Rourke, um intérprete que sabe uma coisa ou outra sobre perda e decadência. Se Rourke não te emocionar, sinceramente, você não tem coração – olha aí a referência a mãe!


2. Cisne Negro (2010)

O suspense psicológico de Aronofsky, que rendeu o merecidíssimo Oscar de Melhor Atriz a Natalie Portman, é quase uma expansão de temas discutidos em O Lutador – destruição física, desespero e obsessão, transcendência pela arte – acompanhada agora de uma pegada de terror, repressão sexual e trocando a luta livre pelo balé. Com Cisne Negro, Aronofsky conseguiu a proeza de criar uma narrativa ao mesmo tempo perturbadora e muito pessoal, e surpreendentemente popular – é o seu maior sucesso, e o desempenho de Portman ajuda muito nesse sentido.  E é curioso como o cineasta nos conduz por ambas as jornadas e deixa cada espectador possuir a sua própria interpretação a respeito dos seus protagonistas. Em minha opinião, os finais de ambos os filmes são… felizes!


3. mãe! (2017)

Ainda sob o impacto da sessão de mãe!, resolvi coloca-lo em terceiro lugar no meu ranking. O novo trabalho de Aronofsky consegue ser muitas coisas ao mesmo tempo: Uma alegoria sobre a Criação e o Divino, uma visão sobre a força feminina, uma comédia de costumes de humor negro na primeira metade, um filme de terror ocasional… Um filme que desafia e incomoda o público, numa época em que entregar tudo mastigadinho é a norma no cinema, merece elogios. Aqui e ali uma metáfora visual de Aronofsky parece rasa – olha a pretensão de novo. Porém mãe! é mais uma sessão do diretor à qual não se sai incólume.


4. Réquiem para um Sonho (2000)

O filme que botou Aronofsky no mapa, o seu Pulp Fiction, outro filme estranhamente popular e querido apesar do tema e da experiência pesadas. Ao enfocar a vida (quase morte) e os sonhos (destroçados) de quatro viciados em drogas, Aronofsky acaba tocando numa ferida mais forte da humanidade: a necessidade de ser viciado em alguma coisa, qualquer coisa, para conseguir suportar a vida. As atuações irrepreensíveis do elenco, o design de som e a montagem criam uma das maiores viagens para o inferno que o cinema já concebeu. Talvez você só assista a Réquiem uma vez na sua vida, mas ele nunca sairá da sua memória.


5. Noé (2014)

O filme subestimado do diretor. É verdade que Noé é uma experiência desigual, marcada por momentos brilhantes (a visão) e uma discussão interessantíssima sobre a fé, e que ocasionalmente se torna um filme com elementos muito bobos (os gigantes de pedra, algumas das atuações). Mas é um longa que vale a pena ser revisado, nem que seja para constatar a loucura e a “viagem” do seu diretor, um filme “bíblico” capaz de questionar Deus e encontrar alguma paz com a ideia de sua própria divindade – um tema que também aparece em mãe!


6. Pi (1998)

O primeiro longa de Aronofsky, feito com baixíssimo orçamento e muitas ideias malucas na cabeça, já prenuncia que seu realizador pensa fora da caixa. Afinal, um sujeito cuja história mistura matemática, Wall Street, judaísmo, conspiração e o sentido do Universo, não funciona como a maioria dos outros diretores. Pi às vezes é esquisito demais para seu próprio bem, mas foi um trabalho importante dentro do cinema independente americano e até hoje mantém o seu estranho fascínio. O interesse de Aronofsky em Deus e religião e o lado psicológico dos seus personagens já aparecem com força no seu primeiro trabalho.


7. A Fonte da Vida (2006)

Aqui é onde pode residir uma polêmica. Reconheço que A Fonte da Vida tem seus defensores, e admiro muitos aspectos do longa, mas na minha visão é o filme no qual a pretensão levou a melhor naquele cabo de guerra a que me referi lá em cima. Apesar dos defensores, ainda não existe um verdadeiro culto a A Fonte da Vida, o filme ainda não foi realmente reavaliado e reabilitado, não é mesmo? Embora a conexão dos três períodos históricos dentro da narrativa seja interessante, e a concepção visual seja impressionante, falta a A Fonte da Vida, para mim, um gancho emocional forte para servir de âncora para o público, o filme nunca emociona como deveria. Por isso, a certa altura do filme nos limitamos a ver imagens bonitas e a ouvir boa música, sem realmente termos um contexto forte para esses elementos. Talvez por ter sido o terceiro longa do cineasta, e devido às mudanças na produção – o filme foi adiado várias vezes, Brad Pitt ia estrelar, mas pulou fora –este é o trabalho do diretor no qual a execução não correspondeu à sua ambição. E aqui, Aronofsky ambicionou demais.

Mas não é essa uma das marcas de um cineasta, no mínimo, interessante? A capacidade de pensar grande e de embarcar na sua própria viagem?