Para muitos, o ano só começa depois do carnaval. A realidade cinéfila, por sinal, não fica atrás quando se trata dos blockbusters e 2016 começa exatamente com Deadpool, a primeira grande produção relacionada ao gênero, o primeiro “filhote” de filmes de super-herói a estrear nos cinemas mundiais em um ano que promete ser de grandes duelos e emoções.

Mesmo longe da pompa de outras produções que serão lançadas este ano, o modesto trabalho (custou “apenas” 40 milhões, uma bagatela perto dos seus concorrentes) assinado pelo marinheiro de primeira viagem Tim Miller funciona como um ótimo remédio para “curar” a ressaca de carnaval, após quarta-feira de cinzas: é politicamente incorreto, repleto de situações cretinas, piadas sexistas e anarquia pura. Em outras palavras um filme tão imprevisível e insano quanto qualquer carnaval surreal que você já tenha vivenciado durante a vida.

Vale citar que esta adaptação dos quadrinhos para o cinema só ocorreu graças à perseverança e dedicação do diretor e o ator Ryan Reynolds. Insatisfeitos com o resultado da participação do personagem no tenebroso X-Men Origens: Wolverine (2009), a dupla bateu na porta do Estúdio Fox detentor dos direitos do herói para vender uma proposta que incluía uma sequência-teste muito louca envolvendo o mercenário tagarela. Com aval do estúdio e total liberdade artística, o que se vê na tela é um dos trabalhos mais fiéis baseados em uma HQ. Brinda o público com uma jornada de herói espalhafatosa, vulgar e despretensiosa, marcada pelo humor negro corrosivo durante os seus 107 minutos.

“Deadpool” tem motivos de sobra para ser analisado sob um prisma espirituoso de um bloco carnavalesco divertido. Cada categoria do filme tem pontos de destaques como destrinchado abaixo. Por mais que todo carnaval tem o seu fim, Deadpool e sua zoeira consegue estender essa diversão por mais um tempo:

new-deadpool-promo-images-offer-hints-on-movie-s-unconventional-tone-492440Rei Momo e a Rainha

Momo na mitologia grega é conhecido como o deus da zombaria e do sarcasmo. Reza a lenda de carnaval que quando ele samba, todos devem fazer o mesmo. Estas características caem como uma luva para um personagem como Deadpool. Não tem como tirar os olhos da tela para um personagem tão cínico e gracioso, dotado de um humor ácido ferino que zomba de todos ao redor, inclusive dele próprio. Por sua vez, a rainha é conhecida no carnaval pelos atributos físicos e pelo “Espírito do Carnaval”. A musa do rei mercenário é Vanessa, interpretada com sensualidade pela brasileira Morena Baccarin. Ela é responsável em mostrar o citado “Espírito” carnavalesco ao herói em um apimentado jogo sexual – os que assistiram ao filme vão identificar nesta cena uma das melhores piadas hardcore do longa-metragem. 

Deadpool-Reading-Screenshot-Movie-2016-WallpaperCarnavalesco e Alas

Como responsável pela direção artística do desfile da escola, o marujo carnavalesco Tim Miller mostra uma boa competência, alinhando gêneros sem esquecer a estética visual. Isso reflete em dois momentos ótimos no filme: os créditos iniciais – uma das sequências mais inventivas dentro do universo cinematográfico – e o interessante plano-sequência de ação na rodovia. Ainda que exagere um pouco nos planos de Slow Motion (uma empolgação de iniciante), Miller é responsável por conciliar de forma orgânica a metalinguagem do filme ao uso dinâmico da quebra da quarta parede, gerando uma aproximação deliciosa de cumplicidade do público com o filme.

Os blocos e estilos encontrados em Deadpool são sem dúvida o verdadeiro frescor que ajudam o filme funcionar. A comédia é marcada por diálogos criativos e pelo texto ágil que encontra como sustentação a ação dinâmica. Fecha esta essência uma subtrama romântica hardcore com uma teatralidade espirituosa que foge do estilo serio e carrancudo dos filmes de heróis. O filme resgata aquele adolescente imaturo e infantilizado perdido dentro de nós, apenas para rirmos das situações bestas que ele oferece.

colossus-deadpool-movie-imageComissão de Frente e Mestre Sala e Porta Bandeira 

 O que puxa uma escola é sua comissão de frente. Por isso nada melhor que uma narrativa dinâmica para empurrar o filme rumo ao gosto do público. Miller e companhia fazem um show à parte neste quesito, pois utilizam com eficiência uma narrativa não linear que faz bom uso dos flashbacks para apresentar a origem do herói. 

A dupla de roteiristas Rhett Rheese e Paul Wernick não apenas é o símbolo da escola como os responsáveis pelas gags divertidas. É da mente fértil de ambos que brota a comédia escrachada, uma velada autoparódia sobre o mundo dos super-heróis. Neste quesito eles acertam na vibe espirituosa que também funcionava em dois filmes que pouco se esperava: Guardiões da Galáxia (2014) e Homem-Formiga (2015).

DeadpoolBateria e Puxador de Samba

Como coração pulsante do filme, os diálogos repletos de referências à cultura pop da década de 80 e 90, além das easter eggs mais inspiradas que um filme de herói pode oferecer. De citações irônicas aos filmes de heróis – as melhores piadas envolvem os X-Men que pertence também a Fox – até a ordinária canção Careless Whisper do Wham! que te perseguirá mesmo após a sessão terminar. Sem contar a cereja do bolo: a ótima cena pós-crédito uma verdadeira homenagem a um dos grandes ícones da década de 80 e seu autor. 

Ryan Reynolds está para Deadpool como Robert Downey Jr está para Tony Stark, Sua expressão corporal, o tom de voz e o estilo espontâneo como ele despeja as piadas o tornam a alma do filme. É sem dúvida uma divertida e ótima interpretação cômica, a sua redenção depois de fracassar como o próprio personagem em Origens e como Lanterna Verde (2011).

deadpool-movie-reveals-sidekicks-tarantino-style-script-negasonic-teen-warhead-and-dea-494183Harmonia

Aqui é onde o filme mais perde ponto. Se ele funciona como uma divertida comédia de ação, repleta de boas piadas, a estrutura narrativa da jornada do herói é bem convencional, pouco inspirada. Os vilões são todos caricatos e inexpressivos e de certa forma há um desperdício em aproveitar melhor Colossus dentro do enredo. Sobra ousadia nos diálogos e piadas, mas falta imaginação na trama.

No geral, Deadpool é uma obra feita com bastante carinho para quem é fã. Miller e Reynolds reproduziram para tela grande aquilo que nos quadrinhos parecia impossível de filmar: a própria anarquia. Pode não ser o melhor filme dentro do gênero, mas é o mais honesto e irreverente já realizado. Coloca os outros filmes de super-herói deste ano em uma cobrança elevada para atingirem os mesmos resultados de entretenimento do mercenário falastrão que por sua vez, ficará de camarote vendo o circo (ou avenida) pegar fogo.