Serei curto e direto sobre este remake, assim como o Paul Kersey de Charles Bronson exterminava os marginais no filme original: o novo Desejo de Matar é relevante para comprovar três pontos 1) serve para mostrar que as carreiras de Eli Roth e Bruce Willis realmente estão em decomposição e ambas atingiram o fundo do poço; 2)  Não há qualquer motivo ou finalidade no seu escopo narrativo que justifique revisitar o belo (e polêmico) clássico homônimo de 74 dirigido pelo reacionário madmen Michael Winner; 3)De instigar o público mais jovem, a conhecer o filmaço que é o original, uma verdadeira escola no gênero de filmes vigilantes que tornou Kersey, o icônico justiceiro ao lado de Dirty Harry, Braddock, Marion Cobretti e tanto outros.

Diferente do original, a narrativa é transportada de Nova York para Chicago dos dias atuais. Paul Kersey (Bruce Willis) não é mais um arquiteto renomado e sim um cirurgião de sucesso que vive feliz com sua família de propaganda de margarina, a esposa Lucy (Elisabeth Sue, eterna musa do cinema dos anos 80 e hoje sumidíssima) e a filha Jordan (Camila Morrone). Esse cenário muda quando criminosos invadem sua residência e atacam a família do médico. Frustrado com a investigação policial, Kersey resolve ele próprio orquestrar sua vingança.

Independente das polêmicas e críticas a sua visão reacionária, o original adaptado do livro cult de Brian Garfield, é um belíssimo drama policial, que tratava com seriedade o retrato da violência urbana através de um questionamento perigosíssimo: realizar justiça com as próprias mãos. Winner através de uma narrativa lenta, se atinha mais ao estudo de personagem do que ao filme de ação, evitando assim, soluções fáceis. A transformação de Kersey, de uma pessoa civilizada (contra o armamento) para um psicopata sangue-frio (um anti-herói selvagem), sedento por vingança – Paul se torna um dependente da violência e o seu desejo de matar é a droga que o alimenta– é uma das fortalezas do filme, por nunca glorificar as ações do personagem e por infligir reflexões morais e sociais: afinal neste mundo torto e violento, qual é o melhor papel a ser desempenhado, o do civilizado ou do selvagem?

Por isso, o remake de Desejo de Matar poderia muito bem atualizar estes questionamentos que o homônimo fez na década de 70 nestes tempos raivosos que clamam por “bandido bom é bandido morto”, enquanto o outro lado da moeda se indigna com as ações que tolhem os direitos humanos. Infelizmente o novo longa carece de profundidades e em nenhum momento parece ter voz própria daquilo que busca oferecer ao público ou que pelo menos justifique as razões da sua realização, afinal se a intenção de Roth era atualizar as ideias do drama policial de 74, ele praticamente aniquila qualquer desejo ou intenção de atingir este propósito.

O fato é que o novo filme peca por ser um pastiche cinematográfico sem fim, em conflito geral com sua própria identidade, como se a cada momento a narrativa precisasse se auto-afirmar para justificar o conflito interno do seu “herói” em abraçar a violência, sem nunca sair da zona da superficialidade. A parte destes problemas recaem também nas mãos do roteiro preguiçoso de Joe Carnahan, outro diretor que assim como Roth, começou bem no cinema, mas a cada trabalho se revela um grande engodo.

Seu roteiro é até eficiente em um primeiro momento ao traçar um panorama da vida comum de Kersey e a felicidade que ronda aquela família. Descrever aquele ambiente, copiando as ideias do original, são o que há de melhor nesta nova adaptação, ainda que no mundo de Roth-Carnahan neste ato inicial, tudo é visto de forma genérica e artificial. Agora, quando o texto necessita criar asas para voar e assim desgarrar-se do seu “pai”, aí que tudo desanda.

A dupla busca falar sério sobre um tema pesado como a violência e a vingança, mas pouco investem nele. Limam os questionamentos morais sobre os vigilantismo e pouco trabalham a dimensão psicológica de Kersey – sua escalada dramática para ações de vigilante é capenga e desprovida de substância. A vingança do protagonista é transformada em  uma espécie de catarse de redenção e não como a própria representação da loucura que deixaria a discussão mais interessante e ambígua. Na verdade, todo o debate do longa é pobre, o roteiro revela-se covarde em questionar o armamento, com Roth destruindo os poucos momentos sérios no assunto, por meio de piadinhas que envolvem a visão machista da loira gostosa e sexualizada.  Neste ponto, a visão racista alegada ao novo filme é bem mais aceitável do que em relação ao clássico devido o sensacionalismo barato que oferece.

É claro que algumas inovações feitas por Roth-Carnahan são interessantes: a pouca intimidade de Kersey com as armas é interessante por dar um maior realismo as suas ações, sem deixá-lo um exímio matador profissional. Por sua vez, o trabalho da montagem em Splitscreen (tela dividida) no processo de transformação do médico no vigilante ao som de um clássico do AC/DC, estabelece uma dinâmica adequada para que o público assimile visualmente esta mudança dentro do longa, juntamente com a trilha sonora de tons macabros e na fotografia que usa em bom tom, as cores vermelhas nos momentos violentos.

Pena que estes momentos são temperados com “os clichês preguiçosos de roteiro” que colocam Kersey recebendo “ajuda do acaso” para se livrar de situações perigosas, e do texto inserir sem qualquer lógica, de uma hora para outra, o médico como um grande estrategista militar. Para completar a equação problemática, Eli Roth apresenta seus eternos vícios irritantes de misturar o gore com o humor pastelão, que jamais criam uma sinergia adequada dentro do longa-metragem. Cada cena violenta é seguida por uma fala ou situação engraçadinha, que praticamente destroça a experiência catártica que podemos ter daquele momento. Isso funcionou muito nos seus trabalhos iniciais como Cabana do Inferno e os Albergues, ainda que essa repetição excessiva, sem variações, de querer ser sério e avacalhado ao mesmo tempo, cansa em demasia. Isso deixa essa releitura, uma versão teen extremamente imatura, filmada e discutida sob a ótica ou perspectiva de um Jackass da vida.

E se existia qualquer esperança para Willis sair da letargia digna do upside down que se encontra nas últimas duas décadas ao retornar a uma figura melancólica digna de seus melhores trabalhos com M.Night Shyamalan, o ator continua preso aos vícios e maneirismos apáticos dos últimos trabalhos. Em nenhum momento, ele convence de que é mesmo um cirurgião ou um homem em luto. A impressão é que a alma e o carisma de Bruce, abandonaram de vez Hollywood e estão vagando em outra dimensão.

É claro que Desejo de Matar 2018 não é ofensivo como Bata Antes de Entrar, último trabalho de Roth. Só representa o total desperdício de um filme com potencial, que poderia reerguer as carreiras de Roth e Willis e retirá-las do limbo cinematográfico da qual se encontram – o ator já foi um dos grandes astros do cinema e o diretor uma das grandes promessas do cinema de horror.

Na sua essência, não oferece nenhuma novidade, jamais explora seus personagens (o irmão de Paul, vivido pelo ótimo Vincent D´Onofrio, entra e termina sem função alguma na trama) e os aspectos dramáticos são executados de modo irresponsável, pois são alimentados com os piores clichês possíveis. Nem mesmo transformar objetivamente seu filme num entretenimento descompromissado, repleto de tiros, perseguições e violência, totalmente descerebrado como é o caso de Desejo de Matar 3, Roth consegue. Na verdade, mesmo que o trabalho não tivesse qualquer associação com a franquia estrelada por Bronson, seria ainda assim, um filme policial de ação ruim.

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