“A minha história daria um filme”. Quantas vezes essa frase já não foi dita ao longo dos mais de 120 anos em que o cinema existe e retrata os mais diversos tipos de comportamento humano? Por isso, a iniciativa do comediante Kumail Nanjiani de se colocar no front e contar sua história de amor com a esposa, Emily, não é tão diferentona assim. Mas, por mais que “Doentes de Amor” não sobreviva ao hype de obra-prima, instalado desde a sua estreia nos Estados Unidos, o filme dirigido por Michael Showalter e roteirizado pelo casal Kumail e Emily transborda humanidade.

No filme, Kumail interpreta a si próprio (ou uma versão de si próprio) quando ainda era um comediante de stand up em início de carreira. É durante uma apresentação que o paquistanês radicado em Chicago conhece a universitária Emily Gardner (vivida por Zoe Kazan). Os dois começam um romance e Kumail se vê em uma encruzilhada, já que seus pais estão sempre tentando juntá-lo com alguma jovem paquistanesa e nunca aceitariam ver o filho casado com uma mulher branca.

O namoro de Emily e Kumail termina e, pouco tempo depois, a jovem é internada com uma doença misteriosa. E aí que a narrativa engata de vez, porque os melhores momentos e o mote de “Doentes de Amor” não é exatamente o romance do casal protagonista, e sim como Kumail se vira perante as diferenças entre os dois, representadas pela família dele e, principalmente, pelos pais dela.

O casting inspirado de Ray Romano e Holly Hunter como os pais de Emily é um dos pontos positivos do filme. Ele é a figura paterna de cabeça e coração abertos para o ex-futuro-genro atrapalhado. E aqui, a escolha de Romano foi certeira. Assim como Kumail, o ator também começou a carreira no circuito de stand up, mas ganhou fama mesmo e até hoje é lembrado como um “paizão”, graças à série “Everybody Loves Raymond”, sucesso no início dos anos 2000. E aí reside a genialidade do casting, ao mostrar uma faceta mais complexa de Romano.

O filme, no entanto, é de Holly Hunter. Atriz que há tempos merecia mais um bom papel em uma filmografia que tem petardos como “O Piano” e “Broadcast News – Nos Bastidores da Notícia”, Hunter se contrapõe ao estilo bonachão de Romano e é uma miríade de sentimentos negativos: dúvida, medo, indignação, raiva, infelicidade… Tudo entregue de forma econômica, de forma que o momento em que finalmente se começa a compreender a personagem é justamente pelas palavras de terceiros, seja Emily ou Terry. Por esse trabalho, Hunter já é figura certa nas previsões para o Oscar de atriz coadjuvante.

A produção, todavia, padece do problema que é comum a outros exemplares do gênero: na ânsia de fugir dos clichês e se revelar como um trabalho reflexivo, o filme perde o charme e a singeleza que são tão caras à comédia romântica (ou à dramédia, como preferirem). Não que ele precise: como já foi dito há alguns parágrafos, é uma história real roteirizada e protagonizada por quem a viveu.

O ritmo irregular e o desfecho apressado para algumas situações que depois, nos créditos, aparecem milagrosamente solucionadas, são tropeços de um roteiro que vem sendo celebrado como “o grande filme indie do ano”.

O tratamento das personagens femininas é outro porém. Ainda que Kumail não quisesse um casamento arranjado, as aparições das noivas em potencial conferem a elas um tom descartável que poderia ser evitado. E ainda que Emily surja como uma pós-manic pixie dreamgirl, sem as características desse tipo de personagem tão celebrada nos filmes independentes roteirizados e dirigidos por homens, o fato de só passarmos a conhecê-la a partir do momento em que ela entra em coma é problemático (e, vale dizer, diferente do retrato da Beth de Holly Hunter, que é uma mulher que transparece suas emoções, ainda que não as especifique).

“Doentes de Amor” é um daqueles filmes cujos créditos iniciais já dão um certo spoiler. O roteiro assinado pelo casal – junto até hoje, diga-se de passagem – se perde na tradução para a telona, por motivos que expliquei acima, mas ainda é um retrato ácido e humano de um romance interracial em uma América que jorra preconceito quando olha para qualquer filho do Oriente Médio.

Em dado momento do filme, Emily questiona Kumail se ele consegue imaginar um mundo onde os dois terminam juntos. Em outro, o protagonista explica que luta contra uma cultura enquanto os problemas da namorada (e aqui ele se refere não só a ela, mas aos brancos no geral) são referentes a “ter sido feia na escola”. Ainda que “Doentes…” não seja o filme que o hype tenta vender, o drama real vivido por Emily e Kumail resulta em uma produção que aquece o coração em tempos tão incertos.

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