AVISO: Esta matéria conterá SPOILERS da série, inclusive do novo filme (Covenant). Recomenda-se ler após assistir aos filmes.

Pode-se dizer que Alien – O Oitavo Passageiro (1979), de Ridley Scott, é uma espécie de Tubarão (1976) no espaço.  Se a criatura de Spielberg saia do escuro das imagens para devorar seus incautos banhistas, o alienígena de Scott utiliza o mesmo espaço para violentar e destruir através de uma força avassaladora, seus companheiros e passageiros de viagem. 37 anos depois, o filme continua um clássico do cinema como também um referencial ao cinema de gênero, o sci-fi horror. Sua fórmula serviu de base para levar o horror as fronteiras do espaço, onde ninguém escutaria o grito como bem exposto pela tagline do filme no seu pôster.

 Logo, é compreensível entender o grande sucesso de mais de 3 décadas da saga Alien, pois, além de assustar e causar calafrios no imaginário cinéfilo, provou ter grande capacidade de confrontar nossas expectativas com um tipo raro de horror – principalmente naquela época –  de encontrar no cinema: o terror fisiológico. A cânone imagem do filme original, onde o Alien irrompe o peito de um astronauta (Kane), representa na prática a força de inquietar o público, ao mexer com nossas angústias mais primitivas, o perturbador medo biológico do corpo humano ser incubado ou contaminado por um organismo estranho, onde humano e não humano se fundem diante da confrontação.

É como se a criatura reativasse o nosso medo do “bicho-papão ou homem do saco”, porém, no filme, ele é associado ao temor orgânico que apresentamos em certas circunstâncias da vida: 1) a angústia do parto, onde o nascimento do alien sinaliza o medo inconsciente da deformidade do feto; 2) o sentimento de possessão, de uma criatura que vive dentro de você e não tem como controlá-la; 3) sensações hipocondríacas de algo dentro do corpo (semelhante a uma doença) e não saber o que ela é; 4) o medo do desconhecido em que uma criatura Xenomorfa representa o estranho que existe dentro de nós, como as emoções que não conseguimos lidar.

Estes elementos, estão ligados a linha narrativa da série e quando alinhados ao conceito da ficção-científica que sempre teve como base refletir sobre as ansiedades da sociedade – a pedra triangular entre tecnologia, sujeito e ciência e o binômio da identidade que expõe o hibridismo resultante entre o humano e não humano – ajudaram a criar o fascínio que a série cultiva até hoje. Na semana de estreia de Alien Covenant, nada mais justo que um artigo sobre a série cinematográfica do alienígena mais mortífero do espaço sideral. Serão abordados: uma análise dos filmes, sua importância e principais temáticas.  Ao todo a saga Alien teve 4 produções oficiais com a tenente Ellen Ripley, dois spin-off (os malfadados Alien X Predador) e o prequel  Prometeus, sendo o novo filme sua continuação direta.


‘Alien – O Oitavo Passageiro’: O Pesadelo Espacial e um passageiro indigesto

Em 2001 – Uma Odisseia no Espaço (1969) de Stanley Kubrick abordou a ficção científica de forma séria e reflexiva, credibilizando o gênero cinematográfico, Alien, O Oitavo Passageiro (1979) teve outra importância fundamental ao dimensionar o gênero a abraçar o terror claustrofóbico e físico. Uma tripulação espacial é tirada do seu cronograma de viagem para atender um chamado de emergência, oriundo de um planeta inóspito. Nele, um dos seus tripulantes é infectado por um parasita, trazendo o horror para espaçonave.  A principal virtude do filme é de possuir no seu escopo central, o enredo do cinema B por excelência, misturando com eficiência a ficção-científica, o horror e o suspense na sua bagagem narrativa. Contava com atores do segundo escalão de Hollywood ou que faziam parte da esfera cult como são os casos de Tom Skerrit e John Hurt, além de apostar em revelações como Sigourney Weaver.

No seu comando um diretor novato e desconhecido da grande indústria, chamado de Ridley Scott que tinha se destacado no ótimo Os Duelistas (1977) e em razão disso recebeu o sinal verde dos Estúdios Fox para comandar Alien. É interessante observar que entre os filmes da série, o primeiro alien é o que apresenta a melhor fluidez de trabalho em equipe: Dan O´Bannon é o roteirista responsável pelo argumento principal, indicando os primeiros designers de concepção do planeta (o LV-426), da criatura e da nave (Nostromo). O estabelecimento de Ripley como heroína foi ideia de Scott (ela morria no primeiro escopo do roteiro), o personagem Ash (Ian Holm), o androide, surgiu da mente dos produtores e co-roteiristas Walter Hill e David Giller. O design do Alien e grande parte dos cenários veio da mente insana de H.R. Giger e a Nave Nostromo foi elaborada por Ron Cobb. Desta forma, múltiplas visões deram o toque altamente autoral ao filme.

Alien, O Oitavo Passageiro é, sem dúvida, um pesadelo filmado no espaço que homenageia os filmes de terror da década de 70 e a literatura de H.P.Lovecraft.  O seu primeiro ato é de ritmo cadenciado, que valoriza a atmosfera de suspense e estranheza, praticamente deixando o espectador com uma sensação apreensiva e desconfortante, preparando-o para algo assustador que surgirá. A nave funciona como uma casa assombrada, onde seu interior reforça o sentimento de desamparo e falta de humanidade. Lembra nossos pesadelos que começam simples, porém, estranhos a medida que se desenvolvem e vão instalando os elementos terroríficos em nossos sonhos, culminando na enorme vontade de despertarmos daquela experiência. Neste primeiro ato, Scott manipula nossas emoções por meio dos personagens introduzindo Kane (John Hurt) como o primeiro a aparecer para o espectador, indicado a nós, que ele terá importância vital para trama, entretanto é o primeiro a morrer, de forma trágica. Ao mesmo tempo induz sutilmente mensagens de cunho feminista nas ações de Ripley (Sigourney Weaver) na primeira hora de filme e que serão importantes para sua adaptação e sobrevivência a bordo da nave.

Toda a construção de atmosfera intimista e às vezes poéticas de ficção-científica deste primeiro ato, se transforma na citada cena cânone do nascimento do Alien (o chestburster na mitologia) em que praticamente o filme assume a sua veia de horror, vertente que não abandonara até o seu final. O texto de O´Bannon utiliza o corpo como vítima do campo de batalha, onde a tecnologia, civilização e relações são corrompidos pelo instinto primitivo da sua criatura. Os desenhos e designs de Giger incrementam ao terror orgânico, elementos sexuais que vão desde naves alienígenas que se assemelham a ovários, vaginas e úteros a criatura cujo formato do crânio fálico indica uma reprodução nada consensual entre humano e alienígena na citada cena da morte de Lambert, onde a cauda fálica do alien sobe entre suas pernas sugerindo o ato sexual.

 São estas considerações que tornam Alien tão relevante: um filme que subjuga a sua indústria de entretenimento com situações e temas tão subversivos como o niilismo do capitalismo e seus interesses econômicos; a amoralidade da prática científica vista na figura do personagem de Ash e a ameaça violadora sexual, que ganha sua força no destaque da figura feminina como única sobrevivente, situação rara de se encontrar nos filmes hollywoodianos da época. No fundo, O Oitavo Passageiro se sustenta pelas suas imagens e climas tão bem construídos, mostrando que o formalismo técnico de tempo e espaço funciona muito bem dentro da sua narrativa e representações. Faturou mais de US$ 100 milhões nas bilheterias no mundo todo, dados extremamente expressivos para uma produção modesta, recebendo ainda duas indicações ao Oscar, conquistando a estatueta na categoria de Melhores Efeitos Especiais.


‘Aliens – O Resgate’ – O Terror em seus mais variados gêneros cinematográficos

Com Scott fora da parada, os Estúdios Fox enxergaram em James Cameron, o sucessor ideal. Porém, os engravatados só deixaram o futuro Rei do Mundo dirigir a sequência, depois do resultado de bilheteria de O Exterminador do Futuro (1984) que ele tinha feito para os estúdios. O sucesso permitiu a continuação de Alien e 7 anos depois do original, Aliens – O Resgate estreava revelando-se uma ótima lição de casa ao mundo dos blockbusters de como fazer uma continuação decente.

Praticamente Cameron (diretor e único roteirista) expandiu o conceito da fonte original (sem trair a essência da série) adicionando diversas camadas de gêneros cinematográficos que deixaram a narrativa tanto dinâmica quanto envolvente. Se o primeiro filme era simples na sua ambientação e diálogos, o segundo é mais grandioso com o cineasta desenhando os dois lados da equação, heróis e vilões. Não se pode negar que a série Alien sempre seguiu as tendências do cinema da época: o primeiro era uma homenagem aos filmes de scifi-horror da década de 70. Aliens – O Resgate abraça o cinema de ação em voga nos anos 80, responsável pelas grandes bilheterias do período como Comando para Matar (1985) e Rambo II – A Missão (1985), filme que Cameron ajudou a roteirizar.

Depois de 57 anos vagando pelo espaço, Ripley (Weaver, indicada ao Oscar de melhor atriz no ano) é resgata pela companhia e levada de volta ao planeta do primeiro filme (LV426), que virou uma colônia e perdeu o contato com sua matriz. Juntamente com um grupamento de marinheiros que portam o melhor aparato militar e tecnológico que se pode ter em um futuro distópico, Ripley confrontará seus antigos medos e “amigos”. Aliens apresenta como qualidade principal, o seu senso raro de dialogar com várias vertentes de gêneros cinematográficos e se sai tão bem na apresentação de todos. É uma obra que costura muito bem a ação com o filme de guerra, o suspense com o terror e o drama emocional na construção de personagens.

Você tem uma ação que tritura os nervos junto com o suspense e ainda encontra um fluxo orgânico de cenas para se emocionar. Sem contar, os diversos personagens secundários (o elenco é ótimo) que você se identifica, recebendo tratamento adequado do roteiro dentro das suas caracterizações. Não faltam momentos épicos no filme: a chegada do grupo dos marinheiros no ninho dos Aliens, a sequência de Ripley e Newt no laboratório contra os face-huggers, a primeira imagem da Rainha-Alien, são tantas que é até difícil enumerar. Vale ressaltar, o ótimo trabalho de efeitos especiais do mago Stan Winston na concepção dos aliens (a mamãe Alien é uma pintura de encher os olhos) e a épica e tensa trilha sonora de James Horner, acertando nos acordes de guerra e dramáticos.

O texto de Cameron valoriza o aprofundamento dramático que inexistia no anterior: a relação maternal de Ripley com Newt e a briga de bitch mães entre a heroína e a rainha alien, dão um interessante caráter feminino e dramático a continuação. Há também a crítica social ácida ao capitalismo sob a ótica das corporações Wyland-Yutani e ao militarismo. É curioso que Cameron constrói um filme de macho alfa no primeiro ato, para depois da metade dele inserir a força do protagonismo feminino como (ótimo) apelo emocional, encerrando o combate com uma briga entre dois seres femininos, se enfrentando para manter a prole, de um lado a mãe racional e do outro a monstruosa e instintiva. Aqui, Cameron deixa claro a força do feminismo: sua Ripley pode ser tão guerreira carregando armas para combater monstros como ser afetiva e maternal na sua relação com Newt, uma ótima materialização do papel da mulher na década de 80, conciliando sua carreira profissional e pessoal.

Aliens – O Resgate é uma criatura um tanto rara no cinema comercial de hoje: um filme de ação-guerra com vários elementos narrativos de outros gêneros. Segue a estrutura narrativa da obra de Scott (inclusive com uma revelação no ato final), porém, alterando situações que ajudam a dar significado a trama, justificando sua continuação. Sem dúvida, o filme montanha-russa de emoções dentro da série.


‘Alien 3’ – O Terror espacial introspectivo: O bastardo da série

Alien 3 é aquele tipo de sequência que come o pão que o diabo amassou: diversos problemas na produção como mudança de diretor durante a pré-produção, inícios das filmagens sem um roteiro pronto, orçamento estourado, interferência do estúdio no material final e a comparação/pressão com os dois filmes anteriores espetaculares. Com tudo isso envolvido, o terceiro capítulo da barata gigante alienígena que chegou aos cinemas tinha tudo para ser uma bomba correto? Mesmo apresentando uma narrativa repleta de problemas narrativos, Alien 3 ainda apresenta boas qualidades sendo fiel à atmosfera e no desenvolvimento da sua heroína na saga.

É um filme que abraça a melancolia e a angústia, com David Fincher (sua estreia no cinema) resgatando a atmosfera claustrofóbica e opressora de Alien, porém, a revestindo em tom potente de niilismo e depressão. Dentro da série, é o episódio mais sombrio, introspectivo e voltado ao estudo de personagem (Ripley) que precisa lidar com o luto da perda das pessoas amadas (Newt e Hicks) e seu cansaço frente a luta que travou por anos com sua nêmese alienígena, acarretando perdas inestimáveis na sua vida pessoal. Neste aspecto, é um drama intimista semelhantes aqueles filmes terminais, onde a pessoa precisa encarar sua doença e potencial morte, aqui representado pela descoberta de Ripley que está gerando uma rainha-mãe, levando-a questionar sua própria existência. Como se vê, o filme parece uma versão do mito da caverna de Platão regada a muita melancolia e discussões sobre Eutanásia, aborto e suicídio.

O contexto cultural da época pode ser também observado no terceiro filme: a década de 90 e a ameaça da AIDS, onde a sexualidade é limada por representar o risco. Não é à toa que Ripley no longa é caracterizada com a cabeça raspada em um ambiente assexuado (uma prisão), sendo sua feminilidade castrada, pois é uma ameaça a harmonia da população carcerária do local, habitada apenas por homens. Há uma forte conotação em Alien 3 a sexualidade não apenas enferma como também repressora da força feminina.

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O estilo experimental da produção é decorrente do roteiro do cineasta maluco francês Vincent Ward (responsável por Amor Além da Vida e  Navigator: Uma Odisseia no Tempo) que trouxe toda uma bagagem europeia intimista, pouco convencional ao cinema narrativo americano. Por diferenças criativas, ele saiu do projeto na pré-produção, com Fincher oriundo do mundo dos videoclipes (Madonna e Rolling Stone), assumindo o abacaxi, sem ter participado das concepções iniciais do filme e sem ter um roteiro finalizado. É um milagre a carreira do diretor não ter ficada abalada pelo fracasso comercial do filme, permitindo hoje ser um dos diretores mais respeitáveis do cinema americano. Inclusive, ele não gosta de comentar sobre filme nas entrevistas e se negou a fazer sua versão do diretor que foi batizada de Assembly Cut, montada pelo produtor Charles de Lazurika, com a duração de 145minutos e várias cenas extras em relação a versão do cinema – ela pode ser encontrada facilmente na internet para quem tiver a curiosidade de assistir.

Parte do argumento de Ward foi aproveitada por Fincher no primeiro ato do filme, sendo o restante reescrito por David Giller e Walter Hill durante as gravações. Por isso o filme é um verdadeiro Frankenstein cinematográfico com o primeiro ato lento e introspectivo e o segundo agitado, deixando a narrativa descompassada. Outros pontos negativos são o desperdício do argumento sobre a religião e fé – a força motriz do texto original de Ward – e os diversos personagens sem carisma algum, o que é lastimável principalmente quando comparamos a Aliens – O Resgate.

A volta de H.R. Giger a produção ajudou no resgate claustrofóbico dos cenários do filme original, pena que em virtude da evolução dos efeitos especiais, os produtores tomaram decisão de criarem um alien digital, cagando toda concepção da criatura, perdendo o encanto da magia do cinema. No fundo, Alien 3 mesmo irregular, é um filme sombrio, grosseiro e pessimista que respeita em grande parte da sua duração, a essência da série. Tentou inovar a saga através de um formato anticlimático abraçando o cinema europeu introspectivo centrado no estudo de personagem de Ripley e sua relação com o Alien. Pena que estes elementos se perdem ao serem misturados ao cinema comercial de clichês, deixando o filme uma concha de retalhos, ainda que seu final – a cena de sacrifício de Ripley é poética e bela, uma das melhores da série – encerre satisfatoriamente (até aquele momento) a saga.


Alien: A Ressurreição – O Terror espacial excêntrico – Um Estranho no Ninho

O insucesso do terceiro filme deixou sequelas consideráveis na Fox e, talvez isso, explique o fato dela ter “aprovado” algo tão diferente e fora da curva como é o caso de Alien: A Ressureição, o estranho no ninho, o mais excêntrico dentro da saga da baratona alienígena espacial.  A grande pergunta em relação ao quarto filme da série era a seguinte: Como ressuscitá-la depois que sua principal heroína (tenente Ripley) morreu ao final do terceiro filme? Em Hollywood tudo é possível quando se envolve dinheiro.

Um cachê de 20 milhões foi oferecido para Sigourney Weaver retornar como a personagem e ela aceitou, colocando-a na época, como a atriz mais bem paga do cinema. Faltava apenas a ideia e como a série sempre se apoiou na tendência cultural de sua época, a clonagem era o assunto que bombava da mídia, graças a ovelha Dolly. Logo, o enredo principal do filme focou em algo do tipo: 200 anos após os acontecimentos do filme anterior, Ripley foi clonada pelos militares para dar vida a novas espécies de aliens, sendo que ela própria era um híbrido entre humano e alien.

Alien: A Ressureição foge do visual dos anteriores, ainda que empreste o tom minimalista do original e o ritmo de ação do segundo. A direção ficou a cargo do francês meio maluco Jean-Pierre Jeunet que tinha no currículo obras visualmente impecáveis como a comédia de ficção científica Delicatessen (1991). O roteiro sob a responsabilidade de Joss Whedon que na época vinha do sucesso das séries Buffy e Angel. Enquanto Jeunet disse em entrevistas que Ressureição foi um comercial americano longo que ele dirigiu antes do seu próximo trabalho, o aclamado O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001), Whedon disse que não gosta do filme, já que o resultado final do roteiro ficou bem diferente do que escrito originalmente por ele.

Com os responsáveis fazendo pouco caso da sua obra e apresentando os mesmos problemas de roteiro do longa anterior, Ressureição dentro da saga, é o filhote mais exótico, próximo da avacalhação. Jeunet cria o visual mais clean e surreal da série, o que permite encenar belos momentos do ponto de vista das imagens, fotografia e designs. Há o toque autoral que deixa este quarto capítulo diferenciado dos anteriores que eram extremamente sombrios. A ideia de explorar uma nova Ripley que agora tem no seu DNA, o do inimigo que tanto lutou para aniquilar é interessante, contudo, esbarra em vários problemas narrativos.

O inicio é promissor e atinge até um bom momento dramático quando Ripley encontra seus clones em uma sala de clonagem. Infelizmente, o final atabalhoado, os personagens ruins e a falta de definição da trama, deixam o capítulo próximo do bizarro. Ainda assim, o trabalho de Jeunet, um bom contador de história, seduz no apuro estético visual, dando a cara de filme europeu – aquilo que o terceiro tentou, mas não conseguiu – como o aproxima do visual das HQs de ficção científica da década de 60.

No quesito de debates, o texto deste capítulo, mantém sua postura de reflexões em relação à sociedade futurista, questionando o papel da bioética nas pesquisas científicas, onde a personagem de Ellen Ripley é o exemplo disso, um clone, ficando na fronteira do que é autêntico e do que é humano. Aqui, o olhar sobre o papel feminino da reprodução assume debates sobre a fertilização in vitro e os avanços da biotecnologia na gestação de um novo ser.

Infelizmente, vários destes potenciais de Alien: A Ressureição se perdem por completo no seu roteiro amalucado. Tenta enveredar pelo humor negro, só que ele destoa do restante da série. Há muito estilo, porém, há pouca sustância. Esta quarta parte parece um ser híbrido saído da mente insana de Terry Gilliam, só que sem a intensidade de suas obras. Não é a toa que o filme conseguiu a pior bilheteria e recebeu as piores críticas da saga em comparação ao anterior.


‘Prometheus’ : Aliens Begins e o terror criacionista

O pai da criatura, Ridley Scott sempre afirmou nas entrevistas que nunca gostou das continuações da série. Aproveitando que a série estava no limbo cinematográfico desde o fracasso de A Ressureição – nem vale citar os horríveis crossovers Alien x Predador – o cineasta resolveu retornar a mitologia que ajudou a criar, numa espécie de Alien begins, o prequel que serviria para contar a origem de baratona alienigena e dos eventos do filme original de 79 como o famoso Space Jockey encontrado pelos tripulantes da Nostromo no planeta LV-426.

O roteiro do estreante Jon Spaihts seria a ponte de conexão com O Oitavo Passageiro com a nova mitologia misturando no liquidificador, uma trama com muita filosofia criacionista sobre o surgimento da vida e aquela famosa dúvida: Seriam os Deuses Astronautas? O ótimo roteiro de Spaihts (quem puder procurar na internet e ler, vai perceber isso) foi praticamente mutilado por Scott que começou a interferir nas ideias porque imaginava um filme grandioso. A pá de cal se deu quando Damon Lindelof (um dos Showrunners do seriado Lost) resolveu reescrevê-lo, alterando as ideias para transformar em uma nova franquia comercial, imaginando que ela poderia gerar altos lucros.

Logo, os mesmos problemas de Alien 3 e Alien: A Ressureição, no caso mutilar, alterar e mexer nos roteiros, ressurgem em Prometheus (2012), capitulo responsável em ressuscitar o xenomorfo mais querido do cinema. Em 2089, uma equipe de exploradores científicos da corporação Weyland-Mutani comandada pela pesquisadora Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) descobre indícios do que pode ser a origem da humanidade. Eles embarcam numa expedição na nave Prometheus e seguem as pistas até um planeta distante, onde encontrarão uma verdade assustadora.

Prometheus no seu primeiro ato é quase perfeito. Scott cria uma obra que se mostra bem mais filosófica do que o próprio Alien (1979). Ele abandona o estilo experimental e opressor do original, para se inspirar nas ficções científicas mais clássicas e reflexivas como 2001 – Uma Odisséia no Espaço (1968) de Kubrick e Solaris (1972), de Tarkovsky. Alinhado a isto, temos uma grande produção visual, de clima épico, com imagens e concepções fantásticas como o visual dos engenheiros e dos diversos alienígenas. Há pelo menos duas grandes cenas filmadas por Scott, uma delas de tirar o fôlego, na qual a Dra. Shaw resolve fazer uma “cesariana” em si mesmo. Neste primeiro ato, se destaca a bela ficção-científica bem filmada por Scott, cheia de referências a mitologia de Alien e com um potencial crítico e reflexivo enorme. O texto cria ótimos questionamentos centrados na figura do sintético David (Michael Fassbender, o melhor personagem do filme) criado por Peter Weyland, (Guy Pearce),o androide dotado de sentimentos de superioridade e desejo de criação, responsável pelo argumento existencial do filme sobre a ética e moralidade da criação, temática principal do filme.

Por isso é uma tristeza constatar que Prometheus não se mostre tão filosófico quanto prometido neste primeiro ato, se tornando um thriller de ação no segundo, onde por mais que seja bem encenado por Scott, decepciona pelo roteiro que jamais se completa nas respostas das perguntas que se propõe, deixando várias lacunas e furos no seu enredo. Soma-se isso, os cientistas mais estúpidos do cinema (o que é aquela cena em que dois tripulantes patetas brincam com o hammerpende, a criatura meio cobra, meio centopeia?) e o enredo indeciso por qual linha narrativa seguir. Parodiando o seu título, Prometheus promete mais do que cumpre, ainda que se torne um exemplar de entretenimento eficiente, mesmo descartável quando comparada aos dois filmes iniciais.


‘Alien: Covenant’ – O Terror Sem Propósito

A impressão é que as diversas reclamações em torno de Prometheus mexeram no ego de Ridley Scott que em Covenant resolveu trocar o roteirista Lindelof pelo amigo John Logan, responsável por um dos maiores sucessos do diretor: Gladiador (2000). Cinco anos depois, a expectativa é que o novo filme se aproximasse do longa original.  Covenant  é mais Alien ou Prometheus, você deve estar se perguntando? Eu diria que nem um, nem outro, ele segue um rumo totalmente diferente, só que pior, ampliando os diversos problemas do filme de 2012.

Em suas duas horas de duração, a sequência tenta negar por inteiro as diversas tramas e situações ocorridas em Prometheus, as encerrando abruptamente e costurando os questionamentos de forma pobre. Scott resiste em voltar ao básico do terror de enclausuramento espacial para se focar no plot existencial da origem da vida, o que não seria problema se esta discussão não fosse digna da filosofia de botequim.

Scott e Logan preferem descartar vários elementos do anterior, logo a situação dos engenheiros e da Dra Shaw ganham resoluções pífias e o novo universo em Covenant é iniciado quase do zero, só que dotado de problemas narrativos graves na construção de personagens (a maioria rasos na concepção) e da mitologia. Os primeiros 30 minutos do filme não apresentam qualquer finalidade narrativa e poderiam ter ficado na sala de edição, até porque o plot dramático relacionado aos personagens de Katherine Waterson (a nova Ripley) e James Franco é tosco que dói.

Não tem como não fazer comparações com o primeiro Alien. Scott utiliza o mesmo esqueleto narrativo do original, contudo sem construir uma atmosfera envolvente ou tensa, evidenciando o roteiro banal e diminuindo a experiência visual – o grande diferencial de Prometheus. A questão moral voltada ao sintético David (Fassbender mais uma vez, um dos bons atrativos do filme) deixa de lado a dubiedade vista no anterior, para mostrar seu real caráter e pontuando no texto os limites da humanidade sobre a própria espécie.

O grande porém, reside no desperdício do enredo filosófico interessantíssimo sobre criador e criatura – existe o esforço de utilizar a metáfora de Frankenstein de Mary Shelley, só que ela vai para o espaço – que fica de escanteio para abraçar os clichês de gênero. Scott até cria um grande momento: o primeiro “parto” do alien consegue ser tenso em virtude do eficiente trabalho de montagem junto ao som. É a partir desta cena que Covenant vira um slasher movie de milhões de dólares, com direito a cena do casal transando e morrendo no banheiro– Jason ficaria puto da vida em saber que o copiaram-, o sujeito que diz que vai ao banheiro e os personagens mais rasos que um pires de leite, semelhantes a maioria dos slashers básicos da década de 80, com direito a sangue jorrando na tela.

 Covenant é uma sequência que praticamente não faz a roda da mitologia girar. É ausente de um bom terror espacial claustrofóbico, com direito a um heroína sem sal, cenas de ação e violência gráfica dirigidas no piloto automático. Quando você percebe que nem o próprio criador sabe o que fazer com a criatura é porque a situação ficou preta. Serve para ilustrar a velha maldição que ronda Hollywood, dos seus criadores retornarem as suas criações, para cometerem besteiras: Spielberg e seu Indiana Jones e A Caveira de Cristal; Peter Jackson com a saga do Hobbit; George Lucas e a segunda trilogia de Star Wars e na TV, Chris Carter com seu Arquivo X. A exceção à regra foi George Miller e seu Mad Max. Sabe aquela máxima, desligue a TV e vá ler um livro? Ela funciona aqui. Esqueça Prometheus e Covenant de Scott e assista seu Alien – O Oitavo Passageiro.

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