“Em Chamas” é uma adaptação cinematográfica de um conto do renomado escritor japonês Haruki Murakami. O fato do diretor sul-coreano Lee Chang-Dong ser o responsável pelo filme se mostra a primeira das várias escolhas acertadas para a obra, uma vez que ele consegue expressar com maestria os aspectos da escrita de Murakami que o tornaram mundialmente famoso.

O filme inicia junto com a paixão fadada ao fracasso entre o escritor Jong-Su Lee (Yoo Ah-In) e a dançarina Hae-Mi Shin (Jeon Jong-seo), seguindo para o encontro destes com o insensível milionário Ben (Steven Yeun, da série The Walking Dead). O triângulo formado aponta para uma espiral de frustrações, coincidências e morte, e Chang-Dong tem total domínio de como inspirar tais sentimentos no espectador.

A direção de atores é digna de nota nesse sentido. Yoo Ah-In é a epítome do protagonista de qualquer livro de Murakami: um homem sensível, porém um tanto desligado do mundo ao redor, que é mais levado pelos acontecimentos que responsável por eles, até que as circunstâncias o levam ao extremo. Por sua vez, Jeon Jong-Seo também se encaixa com luva ao padrão de protagonista feminina do universo do escritor: doce, mas misteriosa e complexa. Steve Yeun tem o papel mais desafiador, uma vez que Ben é, a princípio, um personagem incapaz de sentir qualquer coisa, e cujo hobby de usar as pessoas e subjuga-las a sua vontade sequer parece lhe dar prazer.

Em meio ao intrincado jogo entre os três personagens, há ainda espaço para momentos de grande poesia. Vê-se isso na cena em que um raio mínimo de luz entra no apartamento de Hae-Mi Shin enquanto ela e Jong-Su fazem amor, ou quando ela dança em transe no quintal dele. A tônica do longa é, porém, mostrar o máximo com o mínimo, e a resolução do último ato abraça essa proposta com vigor, num final de grande impacto ao espectador. “Em Chamas” é mais um filme que reforça o lugar cativo de Lee Chang-Dong no grupo de grandes diretores sul-coreanos.

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