O cineasta britânico Edgar Wright é um filho da cultura pop e, até o momento, só fez filmes sobre isso. Seja zumbis, com Todo Mundo Quase Morto (2004); filmes de ação com Chumbo Grosso (2007); quadrinhos e comédias românticas adolescentes com Scott Pilgrim Contra o Mundo (2010); ou a ficção-científica com Heróis de Ressaca (2013), todos os seus filmes têm esses ganchos com elementos da cultura pop e de outros filmes. Em Em Ritmo de Fuga, seu assunto é a música, e também a sua conexão com o cinema.

É provavelmente o único filme da história do cinema que se inicia com um assalto no qual a equipe de assaltantes entra no banco para executar o serviço e o motorista fica esperando no carro, cantando e dublando uma música no seu iPod. Esse motorista se chama Baby – isso mesmo, Baby, aliás a questão dos nomes dos personagens vira uma piada recorrente ao longo do filme. Ah, e Baby, interpretado por Ansel Elgort, é um ás do volante, capaz de fazer coisas incríveis no comando de um carro, o que o torna motorista ideal para fugas. Ele vive para dirigir e ouvir música: devido a um acidente na infância, um zumbido constante no seu ouvido só consegue ser abafado por uma seleção quase ininterrupta nos seus iPods.

Como cria de Edgar Wright, Baby é um achado, o filho adolescente do Driver de Ryan O’Neal em Caçada de Morte (1978) com o Driver de Ryan Gosling em Drive (2011) – o diretor Walter Hill, de Caçada, até aparece em Em Ritmo de Fuga numa ponta! Mas, enquanto o filme de Hill era apenas um exercício de estilo, apesar de impressionante, Em Ritmo de Fuga tem um coração na figura de Elgort, que consegue cativar o espectador com um personagem inocente, apesar de envolvido em crimes, e que habita seu próprio mundo, um onde a música (e a arte) domina.

Baby também se envolve com a jovem garçonete Debora (Lily James), a quem ele descobre quando ela está verdadeiramente cantando “baby… baby”… “Todas as músicas são sobre você”, ela diz a ele, deixando claro o papel da música nas vidas dos personagens, e nas nossas também, porque a seleção de canções de Wright para o filme deixa qualquer um batendo os pés no chão do cinema.

Em si, o enredo é meio clichê: O herói quer realizar “um último trabalho” para conseguir dinheiro suficiente e deixar a vida do crime, mas é claro que as coisas não acontecem assim. Mas são os personagens, e o relacionamento adorável entre Elgort e James, que tornam o filme mais do que um exercício de estilo, mais do que somente um filme “cool”. Graças ao roteiro e às atuações, ambos parecem humanos, transcendendo um pouco os estereótipos cinematográficos em que se baseiam. E a história é construída em cima desses estereótipos. Afinal, podemos praticamente ouvir o pigarro da plateia quando Baby diz que “este será meu último trabalho”, assim como as equipes de assaltantes lembram grupos semelhantes de outros filmes de assalto.

No caso de Edgar Wright, o diretor tempera esses clichês com a sua inventividade especial. Há uma referência a Todo Mundo Quase Louco no espetacular plano-sequência dos créditos de abertura de Em Ritmo de Fuga; os primeiros minutos do novo filme são só ação, sem diálogos; e a confusão entre ícones pop – no caso, o assassino do terror Halloween (1978) e o comediante que interpretou o personagem Austin Powers – rende um dos momentos mais engraçados do longa. Wright é um mestre em mesclar essa sensibilidade pop dentro dos seus enredos, seja para criar humor ou injetar drama, ou às vezes ambos ao mesmo tempo. É também um cineasta de criatividade visual ímpar. As transições criadas na montagem são sempre impressionantes, o som do filme é muito efetivo com direito a brincadeiras com volume e mixagem, e as cenas de ação com carros são intensas e feitas sem o auxílio de trucagens de computador.

Porém, é uma pena que do meio para o fim Em Ritmo de Fuga perca um pouco do seu coração e comece a parecer realmente um exercício, com direito a uma super-coincidência de roteiro que chega a prejudicar a última meia hora da narrativa. Wright retoma o controle perto do final, mas ao contrário do seu protagonista, ele dá sim algumas derrapadas, apesar da sua confiança e da mão eficiente no trabalho com o elenco. Afinal, Kevin Spacey, Jon Bernthal, Jon Hamm e Jamie Foxx estão no elenco e se divertindo a valer.

Quando Wright segura o filme, fica claro também que, apesar de todos os artefatos pop, seu filme é, assim como os outros da sua carreira, sobre a infância e o fim dela, sobre crescimento e perda da inocência. Em Ritmo de Fuga parece um conto de fadas para meninos, feito por um cineasta meninão no melhor sentido do termo, e cheio de estilo. É um filme que até comete alguns erros, mas é repleto de energia e audácia quase infantil que merecem ser vistas. E no volume alto.

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