Thiago Morais (“A Estranha Velha que Enforcava Cachorros“), 43 anos, produtor audiovisual e desde 1995 dedicando sua vida por trás das câmeras. Com o currículo cheio e envolvimento em diversas produções aqui no Amazonas, o produtor desenvolveu a segunda etapa do ‘OPA – Oficina de Produção Audiovisual’. A atividade movimentou o tradicional Museu Amazônico da Universidade Federal do Amazonas, localizado na Rua Ramos Ferreira em uma casa antiga no coração do Centro Histórico de nossa capital.

Durante as seis oficinas gratuitas realizadas neste ano, mais de 120 alunos aprenderam técnicas de audiovisual e puderam ter a oportunidade de realizar curtas-metragens. O resultado foi a primeira edição da ‘OPA! Mostra de Curtas’ com a exibição destes projetos em uma sessão ocorrida no início de novembro.  Mais de 200 pessoas estiveram presentes.

Aproveitando a oportunidade, o Cine Set bateu um bom papo com Thiago Morais sobre a oficina, o impacto da atividade no cotidiano do Museu e a carência de cursos e especializações de audiovisual aqui no estado. Ao final, deixo um breve relato da minha experiência em uma das turmas.

Cine Set: De onde surgiu a ideia de fazer uma Oficina de Audiovisual aqui no Museu Amazônico?

Thiago Morais: Desde 2007, eu desenvolvo essa oficina. Trabalhei 15 anos na Secretaria de Cultura e já oferecia esse curso em outros estados e municípios. Quando vim para o Museu Amazônico, eu enxerguei esse potencial para voltar a fazer essa oficina. A primeira turma começou em 2018 usando a estrutura do Centro de Artes da Ufam (Caua), porém, neste ano, acabei fazendo no próprio Museu Amazônico.

Cine Set: De que modo funciona a oficina e quantos alunos vocês já formaram?

Thiago Morais: A OPA participa do PAREC, Programa de Apoio à Realização de Eventos e Cursos da UFAM. Não temos recursos financeiros, mas acaba sendo uma forma de institucionalizar a oficina. Então, eu submeti ao PAREC esse projeto de três turmas ao ano, sendo 60 horas cada, o que dá uma média de 45 dias. Porém, isso é irreal, afinal, a turma acaba ficando mais de 60 horas por conta das produções e esse é o real objetivo da oficina.

Quando eu desenvolvia essa oficina no CAUA, eu tinha uma limitação de 20 alunos, por conta da capacidade da sala. Foram três turmas na primeira etapa em 2018 e, no total, foram 60 alunos. Já a segunda etapa em 2019, feita no Museu, 40 alunos de cada turma, sendo assim 120.

Cine Set: Thiago, como tem sido a relação dos alunos tanto durante quanto após a realização das oficinas?

Thiago Morais: Além das técnicas ensinadas, a proposta da oficina é fazer com que os participantes sigam frequentando o Museu Amazônico, formando grupos de audiovisual capazes de seguirem produzindo. Porém, em vez de alunos, agora, eles serão produtores independentes que poderão contar com o apoio do Museu e da equipe técnica do local. Temos um equipamento básico – câmeras, iluminação, microfone -, mas que serve de pontapé inicial para quem gosta de cinema.

Cine Set: E como a oficina ajudou na visitação e descoberta do Museu Amazônico pelos participantes?

Thiago Morais: Isso é bem curioso, porque, quando tem alguma matéria sobre a oficina, chamando o público, a gente também atrai estas pessoas para o Museu. A minha proposta para a direção do espaço era isso também, ou seja, atrair um público mais jovem que podia ainda não conhecer o local.

Eu ofereço 40 vagas, mas, em média, são 300 inscrições. Então, essas 300 pessoas visualizam nas redes sociais o que é o Museu, visualizam nossas redes sociais, porque é onde a gente divulga a oficina, a inscrição, os selecionados. E entre uma oficina e outra, realizamos outros eventos de audiovisual.

Cine Set: O ‘Cine Calabouço’, cineclube comandado pelo Walter Fernandes, produtor audiovisual e professor universitário, é uma dessas atividades, certo?  

Thiago Morais: Exato. O ‘Cine Calabouço’ acontece toda sexta-feira de tarde com mediação do Walter Fernandes e a presença de um convidado para conversar sobre filmes clássicos. Também desenvolvemos o Cine Museu Amazônico, o Programa Museu Amazônico, Mais Audiovisual, entre outras atividades.

Cine Set: Para celebrar todas as oficinas, vocês realizaram uma sessão especial. Como foi a repercussão e de que modo ele foi representativa para o Museu?

Thiago Morais: A primeira edição da ‘OPA! Mostra de Curtas” foi realizada em 5 de novembro, uma data significativa por ser o Dia do Cinema Brasileiro e o Dia Nacional da Cultura nacional.

Em média, cada turma fez 3 curtas, algumas mais, outras menos, outras continuam produzindo, e vamos ter uma segunda edição no dia 19 de junho do ano que vem. Quanto ao público, foi uma surpresa: veio mais gente do que eu esperava, pessoas de cinema, do audiovisual, atores, poetas, políticos. O resultado foi muito bom de público quanto de qualidade das produções.

Falo para os alunos que as oficinas são ensaios audiovisuais. Digo sempre: ‘não é o filme da vida de vocês, faça o melhor, não é para competir com o colega, não é para você fazer o melhor filme que o colega, é para fazer o seu melhor’. O resultado foi muito bom porque os filmes têm uma qualidade, pelo tempo curto que a gente teve.

Os alunos se empenharam, trouxeram o público com grande divulgação nas redes sociais. Tanto que lotou o Museu Amazônico para um dia da semana, competindo com outros eventos na cidade. Espero que venha muito mais.

Cine Set: Já que estamos falando de cursos de audiovisual, como você analisa a situação do setor na nossa região a partir da experiência de quem se formou no curso técnico da UEA?

Thiago Morais: Não temos hoje em dia um curso regular de audiovisual. Quando tem, é algo pontual, particular, pago. Infelizmente, perdemos o curso de produção audiovisual da UEA após a segunda turma ser formada. Cheguei até a ser convidado como professor, mas, eu disse não: queria ser aluno, sentar no banco e trocar esse experiência com os mais novos.

O curioso é porque a proposta era justamente qualificar quem já estava em atividade na área, só que aconteceu o contrário: quem estava no setor não foi para universidade, enquanto uma nova geração se apossou da ideia. Isso foi bom, pois, formou uma nova geração de profissionais. A demanda era grande demais para um curso novo, sem tradição.

Infelizmente, o curso acabou e, então, o surgimento de atividades como o Museu Amazônico e seus cursos é uma forma de suprir esta carência.

Experiência na OPA

Como disse no início do texto, tive a oportunidade de participar da 5ª Turma do projeto, conhecida carinhosamente como ‘OPA T5’. Se eu não disser que foi uma experiência enriquecedora, estarei mentindo.

Primeiro porque pude observar como temos tantos talentos e gente apaixonada por cinema aqui em Manaus. Segundo que tive, na prática, noções de como funciona uma produção de cinema e, inclusive, pude dirigir e participar ativamente de algumas – e podem ter certeza me ajudaram demais na minha percepção de crítico também.

Por isso só tenho que deixar aqui público o meu agradecimento ao Thiago e a direção do Museu Amazônico – um espaço que merece uma visita – e também deixar o meu abraço à turma da Oficina.

Mesmo com esse triste momento que a nossa produção audiovisual vive – apesar do grande nível das produções em contrapartida a sabotagem do governo – projetos como o da Oficina e iniciativas como a do Museu, ajudam a manter a nossa esperança de que dias melhores virão.

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