Tonya Harding é um nome que ainda hoje mexe com os brios dos fãs de esporte. Uma das atletas mais promissoras já nascidas nos Estados Unidos, ela poderia ter alcançado a glória na patinação olímpica. Mas, por uma combinação de eventos tão ridículos quanto trágicos, ela não alcançou – e sua vida vem sendo um longo e torturante anticlímax, desde que esses mesmos eventos a baniram para sempre da modalidade, com a provecta idade de 23 anos.

A história dessa queda, motivada por preconceitos de classe, uma vida de abusos físicos e emocionais, atos de inacreditável estupidez, e, principalmente, pelo infame ataque à sua colega de patinação Nancy Kerrigan – à revelia de Tonya, segundo o filme – é o tema de Eu, Tonya, um tour de force da atriz Margot Robbie (Esquadrão Suicida, O Lobo de Wall Street), que também produz a obra, e pela qual foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz. Tivesse Robbie encontrado um diretor – ou possivelmente uma diretora – com o mesmo fervor e convicção na busca pelos tons mais profundos e ressonantes dessa história, exemplarmente americana no que ela tem de sublime e crassa, e teríamos um grande filme, o Malcolm X ou o JFK: A Pergunta que Não Quer Calar da intérprete.

Mas, mesmo sem chegar a essas alturas, Eu, Tonya é divertido, dinâmico e ferino o suficiente para levantar questões inquietantes no espectador – e para refletir, em retrospecto, sobre o quanto o circo armado em torno da agressão a Nancy, um evento explorado até a última gota de tragicomédia por uma mídia sensacionalista, então nos primórdios dos canais de notícias 24 horas (e pouco antes de um episódio ainda mais mesmerizante e dissecado, o caso O. J. Simpson), foi uma forma difusa e prolongada de abuso sobre a esportista.

Nascida em 1970, no estado do Oregon, Nancy pertencia àquela denominação particularmente cruel da gíria americana chamada white trash (“lixo branco”), as pessoas brancas nascidas na pobreza. Abandonada pelo pai na infância e criada por uma mãe monstruosamente abusiva, LaVona Golden (em um show de Allison Janney, da série Mom, merecidamente indicada ao  Oscar), Tonya tinha tudo contra si quando começou a se dedicar à patinação, aos 4 anos. No entanto, seu óbvio e abundante talento a elevou a níveis mundiais quando, em 1991, aos 20 anos, ela se tornou a primeira patinadora na história a realizar dois saltos triple axel bem-sucedidos numa mesma competição (no triple axel, a atleta precisa completar três giros e meio no ar antes de voltar à pista, um feito cuja dificuldade é dissecada no filme).

Mas os problemas de classe voltaram a pesar: seu jeito agressivo e desbocado, seus figurinos nada luxuosos (de confecção própria), sua origem pobre, o evidente tumulto de sua vida pessoal – depois de uma vida agüentando explosões de raiva e espancamentos da mãe, Tonya se casou com o primeiro namorado, um sujeito medíocre chamado Jeff Gillooly (o histriônico Sebastian Stan, de Capitão América: O Soldado Invernal), também dado a agredi-la dia sim, dia também –, tudo fazia com que a Associação Americana de Patinação relutasse em escalá-la para a equipe olímpica. Essa ligação perene a pessoas medíocres, estúpidas e violentas seria o poço no qual a atleta enfim afundaria, nos eventos de 1994.

Construído como um mockumentary, uma emulação fictícia de documentário, Eu, Tonya bebe ostensivamente dos truques criados por Martin Scorsese em sua trilogia de ascensão e queda de criminosos (a saber, Os Bons Companheiros, Cassino e O Lobo de Wall Street, o filme que lançou Robbie). E, a meu ver, sem precisar de tanto: a câmera que se movimenta sem parar, a ênfase humorística nas situações e no trabalho do elenco masculino, exacerbando lances que já são patéticos e hilários por si mesmos, o excesso de momentos de quebra da quarta parede (quando o ator ou atriz se dirige diretamente ao espectador), que acabam por distrair mais do que qualquer outra coisa, são muitos os julgamentos equivocados do diretor Craig Gillespie (do remake de A Hora do Espanto [2011]) que acabam enfraquecendo a narrativa.

Também soa desnecessário e mal-aproveitado o personagem de Martin Maddox (Bobby Cannavale), repórter do tablóide Hard Copy, que iniciou o frenesi em torno de Tonya, e que deveria funcionar como o comentário mais contundente do filme, sobre a sanha indiscriminada da imprensa de fabricar heróis e vilões para vender jornais.

Mas há qualidades também: a ótima trilha sonora, usada não só para pontuar as diferentes épocas da história, mas também para comentar e ecoar as sucessivas desventuras de Tonya, é um ponto alto. A decisão do filme de assumir a complexidade e as contradições de seus muitos envolvidos também respeita a dimensão pantanosa dos fatos originais.

E, há, claro, as duas atrizes: Robbie, como Tonya, é uma construção caleidoscópica e inebriante, dona absoluta e destemida da tela, redimindo todas as ideias mal-formadas do filme. Já elogiei Janney lá em cima, mas não custa lembrar o quanto ela deixa entrever, em suas expressões e linguagem corporal, a complexa relação com a filha, muito além da sanguessuga implacável criada pelo roteiro.

Graças a elas, Eu, Tonya é uma experiência memorável e contundente, um intrigante estudo sobre violência emocional e opressão feminina. Elas, e mais a inacreditável e triste história de Tonya Harding, mais do que valem o preço do ingresso.

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