Joan Crawford acreditou que seria sempre jovem, sempre linda, sempre uma deusa do âmbar. Ela não contava com os mais cruéis dos juízes: o tempo, que lhe tirou a juventude; e a indústria, que não teve paciência para deixá-la envelhecer sem a culpa de perder papéis. ‘Feud’, que teve seu último episódio nesta semana, prometia nos levar ao âmago da briga entre Crawford e Bette Davis. No entanto, o que vimos foi o que o tempo e a indústria podem fazer com uma atriz que sempre foi considerada ‘a mais linda’ dentre as mais lindas. No fim das contas, foi uma série sobre Joan e sobre como esses fatores contribuíram para que ela não visse que, caso ela e Bette andassem juntas em vez se renderam às fofocas, sua angústia pessoal teria sido limada pelo calor de uma amizade, a despeito do que qualquer cabeça de estúdio pudesse pensar.

Hoje se fala muito da importância do feminismo para conquistas como a ‘geladeira’ de um ator acusado de assédio em uma grande emissora, ou para que relacionamentos abusivos sejam escancarados (e isso é apenas a ponta do iceberg), mas é inevitável pensar no que poderia ter sido de Joan em outros tempos. ‘Feud’ fez esse exercício em doses homeopáticas, mas eficientes, como a corajosa Pauline (que teve um desfecho à altura, amém!) e até a própria Bette Davis, que não tinha medo de não abaixar a cabeça.

Tudo isso preparou o espectador para esse episódio final, que nos levou a um período onde a Era de Ouro dos estúdios já era defunta. O episódio anuncia o novo tempo de Hollywood. As melancólicas ‘Everybody’s Talking’, de Harry Nilsson, e ‘The End’, do The Doors, ilustraram com pungência os anos finais de uma Joan. A escolha das músicas foi certeira: além do casamento perfeito com a montagem de uma atriz cada vez mais reclusa, sao o contraponto perfeito em relação à Hollywood colorida e otimista de Crawford, já que as duas fazem parte das trilhas de dois filmes que não poderiam ser mais dissonantes dos ‘Mildred Pierce’ e ‘Grand Hotel’ da vida – ‘Everybody’s Talking’ embalou as aventuras dos protagonistas de ‘Perdidos na Noite’, enquanto ‘The End’ é o símbolo da catarse que foi ‘Apocalypse Now’.

Assim como foi durante toda a série, o derradeiro episódio também foi recheado de  surpresinhas para quem conhece a história das duas atrizes. Ryan Murphy já havia deixado claro que não iria fazer um novo ‘Mamãezinha Querida’ e aqui o roteiro da série é brilhante, porque não deixa passar o livro de Christina Crawford e nem o infame filme. A mea culpa chega com a economia necessária para que a série não repita os erros do filme estrelado por Faye Dunaway.

Bette Davis também tem muito espaço no episódio. Mas, ficou claro, que, assim como foi em toda a série, ‘Feud’ é uma história sobre Joan Crawford. Por isso, as melhores aparições da estrela de ‘Vitória Amarga’ e ‘A Malvada’ foram, em sua maioria, junto a Crawford.

A química entre Susan Sarandon e Jessica Lange (que pode abocanhar mais um Emmy por este papel) é inegável, e se faz ainda mais mágica na cena em que as duas personagens finalmente se perdoam. O time de Murphy fugiu da solução fácil de fazer Davis visitar Crawford em seu leito de morte e criar um momento choroso. A escolha de fazer um acerto de contas, digamos, onírico, entre as duas e os algozes Jack Warner e Hedda Hopper, rendeu à série o seu momento mais belo e emocionante. A fotografia, o design de produção e os figurinos da série estiveram sempre impecáveis, mas a junção desses três aspectos nesse último momento é sensacional: o vermelho predominante remete ao glamour que elas desfrutaram no auge ao mesmo tempo que pontua a culpa mútua e até mesmo o amor que transborda naqueles minutos.

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‘Feud’ encerra sua primeira temporada com um saldo mais que positivo. Foram oito episódios que nos levaram a entender como uma rivalidade pode ser construída para lucro de terceiros, e como as mulheres ainda tem tanto a conquistar no mundo do cinema. Em uma época que vemos atrizes como Jessica Chastain e Natalie Portman falarem sobre a disparidade de salários em relação aos homens, é importante entender que, antes delas, muitas mulheres foram humilhadas, diminuídas e ridicularizadas por terem exigências às vezes nem absurdas (vejam a diferença de tratamento em relação a Frank Sinatra no quarto episódio), ou por, simplesmente, cometerem o ato ‘criminoso’ de envelhecer. A estrada é longa, mas muito já foi percorrido. Por Bette, por Joan, por Olivia, por Katharine, por Dorothy e por tantas outras que perderam seus sonhos na ‘cidade dos sonhos’.

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