Na última cinebiografia que resenhei para o Cine Set, destaquei que aquele filme não era um exemplar inofensivo do gênero. Este novo projeto do diretor inglês Stephen Frears, horrendamente intitulado no Brasil como “Florence – Quem É Essa Mulher?”, infelizmente, não tem a mesma sorte.

No entanto, essa é uma das zonas em que pessoas que assistem muitos filmes e se debruçam sobre seus detalhes e pessoas que só veem cinema como entretenimento ocasional divergem. Afinal de contas, se determinado filme tem a pretensão de contar uma história e o faz de maneira convincente e eficiente, o que há de errado com ele?

Boa pergunta. Essa comédia estrelada por Meryl Streep e Hugh Grant capricha no humor estilo vergonha alheia, com Streep dando vida a Florence Foster Jenkins, socialite nova-iorquina da década de 1940 que, após uma vida inteira sendo mecenas de clubes e concertos musicais, decide se aventurar se apresentando como uma cantora de ópera, a despeito de ter uma voz horrível.

A premissa vira um longa formulaico, que se segue a estrutura que já conhecemos: introdução, conflito, resolução apoteótica e emocionante. A história deveria gerar uma “opera buffa”, mas a pegada experiente de Frears mantém o filme no chão, nunca pendendo para um clima novela das sete. Para quem conhece o trabalho do inglês, no entanto, fica a impressão de que ele já explorou temáticas similares no fantástico (e superior) “Sra. Henderson Apresenta” (2004).

FlorenceEm termos de elenco, Streep é aquela atriz que não consegue se negar a vestir completamente a carapuça de um papel mesmo quando o mesmo pede quase nada de sua capacidade – “Mamma Mia!” (2008) não me deixa mentir. A atriz faz a plateia rir muito da incapacidade de canto de sua protagonista, mas as surpresas realmente vêm por cortesia de Grant, que entrega uma das melhores atuações da carreira como o marido de Florence, St. Clair, e Simon Helberg (o Howard, de Big Bang Theory), como Cosme McMoon, pianista contratado pelo casal para acompanhar a socialite nas performances.

É digno de nota que, ainda que potencialmente sem querer, este singelo filme consiga tocar em pontos tão importantes para o mundo de 2016. Um deles é a preciosidade guardada nos contos envolvendo a velhice. É fato que o cinema comercial se aventura pouco nas histórias da terceira idade, então não deixa de ser um alívio e um contraste vermos um longa desse estilo com tantos protagonistas acima dos 60 anos.

Outro o poder da música em tempos de obscuridade. Para Florence, a música é o antídoto para uma sociedade angustiada e, quando ela resolve oferecer ingressos para um de seus concertos para soldados que lutaram na Segunda Guerra Mundial, ela o faz com certo senso de dever diante do horror das batalhas e do horror do ideário nazista.

E um terceiro é a liberdade das pessoas de estabelecerem núcleos familiares da maneira como acharem melhor. Em uma cena, St. Clair e Florence discutem a sua vida, que envolve um casamento não sexual e uma amante presumida, mas não conhecida, pela esposa. Florence reclama de não poder dar um filho a St. Clair e ele a consola perguntando: “Nós não somos felizes?”.

meryl-streep-Florence-Foster-Jenkins-billboard-650-740x400Em menos de quatro minutos, o filme legitima todas as formas de se conectar e se relacionar (há relacionamentos poligâmicos, exclusivos e gays para servir de exemplo na trama), mesmo sem que isso seja parte intrínseca de sua trama. Nesses momentos, você até esquece que ele segue todas as fórmulas do livrinho da cinebiografia padrão e inofensiva. Nos demais, você apenas ri das situações constrangedoras vividas pela protagonista – e tudo bem.

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