O exército imperial japonês invadiu a Manchúria, na China, em 1937. Lá, por seis semanas, ele orquestrou o Massacre de Nanking, onde mais de duzentos mil chineses foram mortos com crueldade igual ou superior a dos nazistas.

O incidente causa tensões diplomáticas entre os dois países até hoje. Elas se devem, em boa parte, ao questionamento de autoridades e estudiosos do Japão a respeito da escala das atrocidades.

Para complicar ainda mais a situação, japoneses estupraram centenas de milhares de chinesas. E é por esse lado da tragédia que se desenvolve Flores do Oriente. O drama feito nos moldes de Hollywood defende que humanidade tem um lado bom, presente inclusive em situações e indivíduos dos mais improváveis.

Dirigido por Zhang Yimou, de O Clã das Adagas Voadoras e Herói, o filme conta como o agente funerário John Miller (Christian Bale), beberrão e arrogante, ajudou as crianças da igreja católica administrada pelo padre a quem iria enterrar. A morte e a destruição ainda não tinham alcançado o lugar por ser sagrado e por abrigar ocidentais.

Mesmo assim, as circunstâncias fizeram soldados japoneses entrarem lá e, então, tentarem estuprar as pré-adolescentes que moravam no local.

Miller começou a proteger as meninas, assumindo o papel de padre, por conta da situação desumana que se encontravam. Depois, ele lidará com ameaças indiretas de oficiais do exército imperial, que são bem piores que a invasão dos pracinhas.

Na primeira parte da história, um grupo de prostitutas resolve se abrigar na igreja. Miller gostou da presença delas logo de cara. As pré-adolescentes, ao contrário, entraram em conflito verbal com as novas companheiras, que lhes são, aparentemente, estranhas e amorais.

Christian Bale mais uma vez nos apresenta um protagonista atormentado, cheio de frustrações e mecanismos de defesa. O galês não transforma em cacoetes e fórmulas as abordagens usadas em Batman e em Dicky Ecklund, de O Vencedor, que lhe garantiu o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante do Oscar do ano passado.

O ator adapta o personagem ao tormento que vive, e não se baseia numa noção geral de tormento e molda sua criação baseado nela.

Além disso, vemos em Miller como uma situação trágica, antes de fatores religiosos, podem transformar, redimir, um indivíduo.

Graças a essas sutilezas, vemos que o Oscar dele foi uma escolha correta da Academia.

Zhang Xinyi (Shu), Tianyuan Huang (George) e Ni Ni (Yu Mo) crescem na presença de Bale em vez de serem “engolidos” por ele. Há cenas, como a decisão final de George, em que os jovens comandam.

Enquanto isso, o astro aparenta se divertir com a situação.

A fotografia, assinada por Xiaoding Zhao, tem simbolismos e ângulos inusitados, tal como o seu trabalho anterior. As cenas em que os buracos de bala dos vitrais são usados como moldura expressam uma quebra na crueldade das situações.

A explosão na papelaria significa o mesmo. Nela, há uma câmera lenta ao estilo do “Clã”. Esse recurso é usado em momentos pontuais e, tal como no filme com artes marciais, potencializa a beleza e a poesia da cena, mesmo que ela seja a do corpo de um soldado recebendo uma rajada de tiros.

O roteiro segue o padrão hollywoodiano. Nele, vemos, com um ritmo bem mais lento que o americano, o herói (Bale), o chamado da aventura, a negação deste, a superação, o par romântico, os vilões.

Neste último ponto, abre-se motivo para discussão. Faz-se presente um claro maniqueísmo no filme: enquanto os chineses aparecem como bravos e solidários, os japoneses agem como monstros cruéis e desumanos, mesmo quando não são rústicos.

Apesar disso, “Flores” não perde força graças ao desenvolvimento dos seus personagens e, também, por conta da temática com que lida. Para o que ele queria alcançar, o maniqueísmo se fez coerente.

“Flores do Oriente” alcança seus objetivos de contar bem uma história e emocionar o espectador. Seu happy ending aberto é capaz de nos fazer sentir, ao mesmo tempo, tristeza e esperança pela humanidade.

O preparo dos atores também se destaca, principalmente por manter a força de atores jovens e inexperientes em pé de igualdade com a de Christian Bale.

O filme também mostra como o modelo americano inspira realizadores mundo afora. Ao mesmo tempo, mostra que este estilo recebe influências das culturas a que é adaptado. O cadenciamento do ritmo e do desenvolvimento dos personagens exemplificaria esta relação de troca.

Além disso, “Flores” pode reiniciar a discussão sobre a abordagem dos lados em conflito num filme de guerra. Depois de A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima, as possibilidades do gênero se expandiram.

Nesses filmes do velho Clint, os “vilões” e os “mocinhos” são mostrados como indivíduos com valores, anseios e sofrimento, não como simples modelos de comportamento ou monstros cruéis.

Por isso, deixo a pergunta: o que você achou do maniqueísmo do filme?

NOTA: 8,5

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