A carreira da poetisa norte-americana Elizabeth Bishop estava parada quando ela resolveu tomar aquele proverbial “último recurso” para se reinventar como artista: deixou seu país e foi viajar. Seu destino: o Rio de Janeiro, no Brasil, aquele lugar de gente tão exótica, clima quente e vegetação exuberante.

No Rio, Elizabeth acabou conhecendo o grande amor da sua vida, a arquiteta Lota de Macedo Soares. Na verdade, Elizabeth foi visitar sua amiga Mary, que era companheira de Lota na época (as duas eram abertamente homossexuais, mas isso não parecia levantar muitas sobrancelhas no contexto da alta sociedade carioca do início da década de 1950). Porém, o sentimento entre Elizabeth e Lota era forte demais para se ignorar. E foi durante este período que a poesia da autora realmente desabrochou e se livrou de todas as amarras, chegando a alcançar repercussão internacional.

O relacionamento dessas duas mulheres tão interessantes é o tema de Flores Raras, do cineasta Bruno Barreto. Ao longo da sua carreira irregular Barreto comandou trabalhos tanto dentro como fora do país, portanto não é de se estranhar sua direção nessa história que se alterna entre Brasil e Estados Unidos, falada tanto em português quanto em inglês. No entanto, seu trabalho preciso e a delicadeza com a qual ele conta esta história não são estranhos para quem viu seu eficiente drama Atos de Amor (1996). O diretor consegue extrair das suas duas atrizes principais desempenhos soberbos, que acabam sendo as maiores qualidades do filme.

Glória Pires vive Lota de forma expansiva – afinal, a personagem é muito “brasileira”, passional e emotiva. Já Miranda Otto, que interpreta Elizabeth, é toda contenção, atua para dentro e deixa apenas entrever toda a vida interior da sua personagem. As duas se complementam perfeitamente, e é fácil para o espectador perceber porque essas mulheres tão diferentes entre si se interessaram uma pela outra. Cada uma forneceu à outra algo de que precisavam, embora o amor entre elas tenha surgido com o tempo, pois a princípio o “choque cultural” entre elas parecia intransponível.

Outra qualidade do inteligente roteiro de Matthew Chapman e Julie Sayres (baseado no livro Flores raras e banalíssimas de Carmen L. Oliveira) é o fato de interligar esse choque cultural ao relacionamento das duas mulheres. Elizabeth a princípio se choca com a espontaneidade das pessoas, com a comida e com o lugar, mas o que mais lhe causa estranhamento é atitude dos brasileiros. Lota, por exemplo, não deseja magoar Mary (Tracy Middendorf, outro desempenho sólido), mas também não quer desistir de Elizabeth, então o que ela faz? Propõe um arranjo para as três ficarem juntas, porque afinal a arquiteta “quer tudo que possa ter”.

A poetisa norte-americana acaba descobrindo que muitos brasileiros são dominados pelas suas emoções, a ponto de ocasionalmente beirarem a inconsequência, e a personagem tem dificuldade de lidar com esses aspectos do seu novo país. Afinal, ela veio de uma cultura bem mais repressora, onde as emoções são reservadas. Lá, seria difícil imaginar uma cena como aquela envolvendo um bebê, uma realidade tão brasileira e praticamente alienígena para um estrangeiro.

Mas é curioso observar como sua estadia no nosso país fez com que ela realmente se encontrasse como artista. Existem vários filmes na história do cinema nos quais personagens americanos ou europeus vão para outros países para se “descobrirem”. São obras que ressaltam os aspectos exóticos dos países visitados. Aqui, ocorre o contrário: é um filme no qual o olhar americano colide com o brasileiro, mas sem perder de vista as qualidades e os problemas de ambas as sociedades. É possível que Elizabeth Bishop nunca tivesse florescido como poeta se não tivesse vindo morar no Brasil. Ela precisou se “abrasileirar” um pouco para criar. Mas a própria “brasilidade” do país a faz ir embora, pois como ela mesma afirma numa cena, a personagem é uma daquelas pessoas que “sempre se sentiu sem um lar”.

A visão inteligente de Bruno Barreto, aliadas às fortes interpretações de Glória Pires e Miranda Otto, fazem de Flores Raras uma obra delicada e de valor. Tão delicada que em determinados momentos o espectador apenas acompanha a história, sem se envolver tanto quanto poderia. Mas essa delicadeza está de acordo com os versos da poetisa que, no fim das contas, não era nem americana nem brasileira. Como muitos artistas, Elizabeth Bishop parecia viver num mundo à parte.

Nota: 7,0

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