Noah Baumbach é um desses diretores que parece se sentir confortável dirigindo um subgênero bastante específico de filmes: dramédias “indie”. Fica a cargo do público gostar ou não de suas películas com cota para personagens “hipsters”, mas é inegável que ele faz um trabalho cuidadoso de direção e traz um pouco mais de seriedade e aprofundamento que outros diretores adorados pelos espectadores mais “cult”. Com “Frances Ha”, ele abre espaço para cativar um público mais variado sem perder a identidade como realizador.

Em “Frances Ha”, acompanhamos a personagem-título, interpretada magistralmente por Greta Gerwig, que também assina o roteiro. Com 27 anos, Frances ainda é aprendiz em uma academia de dança e divide um apartamento com a melhor amiga dos tempos de faculdade, Sophie, levando um estilo de vida não exatamente desregrado, mas longe de assumir grandes responsabilidades. Com a partida de Sophie, uma série de mudanças é desencadeada para a atrapalhada Frances, e ela tem dificuldades de partir para um novo estágio da vida.

Não fosse a naturalidade impressa por Gerwig, em nível de interpretação, e Baumbach, na direção, “Frances Ha” teria tudo para ser absolutamente insuportável para um espectador com mais de 17 anos de idade. Sua imaturidade é clara, e vai desde a bagunça que deixa no quarto até a inocência de achar que as coisas vão se resolver sem grandes esforços. Reflexo de uma geração que sonha com ou é cobrada a ter um futuro excepcional, Frances resiste em mudar sua rotina e seu modo dependente e adolescente de ver o mundo, mas nada disso é jogado na cara do espectador, o que mantém o filme longe do tom caricatural, que fica apenas para os personagens secundários Lev (Adam Driver) e Benji (Michael Zegen), jogados para escanteio de vez na segunda metade do filme.

Greta Gerwig em cena de Frances Ha, de Noah Baumbach

Com uma bela fotografia em preto-e-branco, Baumbach constrói a história de Frances a partir de pequenos detalhes. O inusitado close-up nos pés de Frances após Sophie partir do dormitório em que ela mora temporariamente, por exemplo, é extremamente tocante e sintetiza muito do percurso da personagem até ali. A atenção que Frances dá aos momentos em que dança também é igualmente adorável, mostrando que há algo que dá prazer e, ao mesmo tempo, um senso de profundidade e vontade de amadurecer para a personagem. Com uma trama não complexa, Baumbach consegue trazer ao público algo que lhe chama a atenção a partir de fragmentos simples e sutis. Em tempos de megalomanias como uma trilogia de “O Hobbit”, a singeleza de “Frances Ha” é um necessário presente para o público.

Outro ponto importante a se destacar em “Frances Ha” é o respeito que tem para com as personagens femininas. Ainda que Frances tenha praticamente toda a atenção do filme, a construção de Sophie é também muito bem trabalhada. Interpretada por Mickey Summer, ela se apresenta num estágio de maturidade muito diferente do de sua melhor amiga, sendo mais organizada e se adequando melhor às demandas da vida adulta. Ainda assim, algo do que a uniu a Frances permanece, mostrando ao espectador mais jovem que a maturidade pode transformar o indivíduo, e não apenas deforma-lo de sua essência.

Greta Gerwig em cena de Frances Ha, de Noah Baumbach

Ao contrastar Sophie, e mesmo as outras mulheres mais coadjuvantes ainda em “Frances Ha”, aos personagens masculinos como Lev e Benji, fica curioso perceber que são os homens dali que soam mais “femininos” (dentro do padrão hollywoodiano). São eles que se mostram mais focados com a própria aparência, que decoram meticulosamente um apartamento com todos os itens “hipsters” da moda e que (aparentemente) não ganham o próprio dinheiro trabalhando, ao passo que as personagens femininas apresentam personalidades mais dinâmicas.

Para emoldurar o interessante quadro que Baumbach apresenta em “Frances Ha”, impossível não citar a trilha sonora. É certo que filmes “indie” sempre investem bastante nesse setor, mas o equilíbrio entre a trilha sonora instrumental e as músicas mais pop utilizadas encaixa muito bem no filme. Melhor ainda, Baumbach não submerge seu filme em referências musicais, erro comum entre diretores “indie” para tentar deixar dar um ar “maior que a vida” a sequências sem grandes atrativos estéticos ou de conteúdo.

Uma pena “Frances Ha” não ter chegado aos cinemas de Manaus. O filme seria uma lufada de frescor em meio às grandes produções e obras de apelo popular que não necessariamente investiram em qualidade, trazendo um muito bem dosado potencial de agradar tanto ao cinéfilo quanto ao espectador que busca apenas um filme divertido (mas nem por isso idiota).

Greta Gerwig em cena de Frances Ha, de Noah Baumbach

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