Cuidado: o texto é escuro e cheio de spoilers

Muitas discussões surgem entre os fãs quando suas obras favoritas passam da literatura para o cinema ou qualquer outra produção ligada ao audiovisual. Quem lê o livro logo faz projeções de como essa relação entre palavras e imaginação poderia funcionar nas telas. E isso cria expectativas, que nem sempre serão supridas.

Adaptar requer transformar, moldar, partir da troca de formas e isso nem sempre é uma tarefa fácil. Já imaginou transpor uma música de mais de nove minutos para um filme de 108 minutos? Ou então, tomar mais de mil páginas e ajustá-la para caber em pouco mais de 120 minutos? Imagina então pegar uma peça teatral e colocá-la em um filme mudo coreografado com dança flamenca? Não me soa um exercício de fácil desenvolvimento.

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Parecer com a obra anterior ou não, eis a questão

Alguns fatos são necessários de se compreender durante o processo de adaptação e eles recaem justamente na questão da separação entre as obras. O livro, o jogo de videogame, a HQ, o filme, todos são produtos distintos e precisam ser vistos como tal. Eles possuem autores diferentes, que por sua vez, possuem pensamentos, motivações e intenções que podem até alinhar-se, mas jamais serão as mesmas.

O processo de adaptação implica uma nova leitura do que já existe, uma configuração nova para um produto já existente e em uso. Claro, que como leitores apaixonados pela obra, queremos ver em tela o que nos atrai e foi serpenteado pela nossa imaginação. Mesmo assim, é preciso lembrar que a pessoa que adapta tem a liberdade de conduzir a obra como melhor lhe convir, porque em suas mãos está a criação de uma obra nova, a qual o adaptador torna-se autor e responsável. Devido a essa diferença entre o autor do produto original e o produto adaptado, as distinções entre um filme e um livro, que é o nosso foco, se tornam proeminentes e sem a necessidade de um ser fiel ao outro.

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Insubmissos, Não Curvados e não fiéis à obra original

A fidelidade do filme ao livro não é um item obrigatório. Já que o processo de adaptação funciona como o processo de criação, e como tal possui suas próprias características, o que pode levar ao corte de personagens, de cenas, um olhar diversificado na cinematografia. Apesar de não haver/tornar uma cópia fidedigna do produto original, tanto filme quanto livro não seriam assimilados da mesma forma sem a existência de um e do outro. Pense o quanto a venda dos livros aumenta depois que se torna filme. Isso evidencia o complemento entre as obras artísticas e resigna novas formas de visualizar a narrativa.

Entretanto, para acalmar o coração do leitor, a nova obra não é tão nova assim. Há a constante comparação com o que já existia, ao mesmo tempo em que lembra-se de que já não é mais o que foi um dia. A adaptação altera o original. Forma um novo olhar. Passamos a enxergar os personagens de forma diferente, emprestando-lhes o rosto que o ator lhe designou, entre outras coisas. Surge uma nova perspectiva, em que a percepção e o repertório conferem o tom.
game of thrones dragon GIFPra que falar de tudo isso?

Por um motivo que tem me feito consumir livros, canais de Youtube e teorias que ora fazem sentido e ora me deixam rindo de tão ridículas que soam. Sim, estou falando de Game of Thrones ou de As Crônicas de Gelo e Fogo. É impossível falar da série ou do livro sem citar/associá-los. Mas é preciso lembrar que os autores são diferentes e por isso existe uma diferença incômoda entre a série e os livros. E eu não estou falando do fato de que a série ultrapassou os livros e que George R..R Martin nos deve duas publicações, que nem sabemos se realmente serão publicados. Gosto muito do modo de escrita dele, mas convenhamos que Martin já não está tão jovem e seu processo artístico envolve um bom tempo.

(Mesmo que esse não seja o foco do texto, quero deixar claro meu anseio por “Ventos do Inverno”).

O fato da série ter se adiantado é um indicativo positivo e falo isso porque podemos observar o que se passa na mente dos produtores e como eles têm se virado sem a influência de Martin que não escreve um roteiro para a série a algumas temporadas e apenas forneceu o destino de alguns personagens sem prescrever sua trajetória. Isso nos permite contemplar até onde vai o universo de George R.R. Martin e começa a visão de Westeros de David Benioff e D.B. Weiss, carinhosamente chamados de David Benioff e D.B. Weiss, os showrunners de GOT. Lembrem-se que parte da adaptação está alicerçada sob percepção e repertório e destes fluem o abismo incômodo entre as duas obras seriadas.

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Eu poderia citar várias coisas que são diferentes nos dois produtos indo desde a concepção de lugares (sim, estou falando de Dorne) até alterações mínimas de personagens (como Asha virar Yara) que configuram o abismo que há entre os autores. Mas quero chamar a atenção para um elemento que me causa particularmente muito mal-estar na maneira como foi adaptado: a questão do estupro.

Que GOT é uma série que tem muitas cenas passadas em bordéis é incontestável, parte delas para justificar a demasia de nudez feminina desnecessária, mas que,de alguma forma, contribui para a cenografia. A violência é outro fator preponderante nesse universo em que a maior diversão dos homens quando distante do bordel são as lutas e duelos de corpo. Veja que não posso desassociar que a série (livros e TV) se passa em um momento de guerra nos Sete Reinos, assim parece “natural” que a violência seja intrínseca aos acontecimentos e a violência sexual incluída nesse processo.


O Inverno está Chegando: O estupro na Westeros de George R.R. Martin

Nos capítulos de ponto de vista de Arya, os quais possibilitam ter noção de como a guerra afeta o povo em Westeros, há menções do tratamento dado pelos soldados a mulheres consideradas agradáveis a vista. Durante o período em que Theon sitiou Winterfell, também aborda a forma como os Homens de Ferro tratavam Palla, a moça dos canis.

Esses são dois exemplos de como George R.R. Martin trata a questão nos livros, colocando-os, infelizmente, como elementos que pertenciam ao momento de Westeros, a Guerra dos Cinco Reis. É importante observar como não são motores condutores da história, mas que não deixam de ser temores dos personagens, como Yoren ao por Arya disfarçada de menino e de deixar marcas na vida de quem sofre tal violência (por exemplo, a filha da senhora Tanda que cai numa depressão profunda ao ser violentada, engravidar e ter tudo minimizado pela corte em Porto Rea)l.

Gostaria de lembrar que Martin é um dos autores de Mulheres Perigosas e em um dos contos, “A Princesa e a Rainha”, ele aborda o grande divisor na história real dos Targaryen: o episódio conhecido como A Dança dos Dragões. Nele, acompanhamos o ponto de vista das duas mulheres que iniciaram o que mais tarde seria um dos motivos, segundo Daenerys Targaryen, para a queda da dinastia valiriana. Esse autor que instiga mulheres fortes é o mesmo que coloca o nome de Chiswyck na lista de Arya por vangloriar-se do estupro de uma moça diante do pai, além de possibilitar que ele seja um dos primeiros a serem riscados dessa lista.
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“O Caos é uma escada”: A visão de estupro na Westeros de David Benioff e D.B. Weiss

Agora, vamos nos ater a como a adaptação audiovisual trata a questão. Quero mais uma vez enfatizar a importância que o repertório e a percepção de mundo tem no processo de adaptação. E que estamos expondo acontecimentos da série, possibilitando que cada um tenha a interpretação que melhor lhe vier.

No primeiro episódio de “Game of Thrones” já somos expostos a uma cena de violência sexual: as núpcias de Daenerys e Khal Drogo. A Targaryen chora, enquanto Drogo a despe e a posiciona de quatro repetindo a palavra “não”. Lembro-me de ter assistido a cena com um grande desconforto. Os momentos que se passaram entre o casal até as orientações de uma das aias de Daenerys foram tomados de violência contra a khaleesi.

Outro momento de desconforto foi durante o velório de Joffrey Baratheon em que Cersei Lannister foi violentada por seu irmão e amante. Apesar de dizer que não queria ter relações com ele diante do corpo do filho morto e ressaltar ser um momento de dor (para ambos), Jaime a ignorou e fez o que desejava. Na temporada seguinte, vimos Sansa Stark, que resistiu a Porto Real, aos Lannisters, ao Vale e Lysa Arryn surtada, ser entregue aos Bolton em Winterfell, casar-se e ser violentada em suas núpcias pelo esposo (sim, estupro acontece no matrimônio, também).

Talvez você deva estar se perguntando a razão de não citar esses três acontecimentos enquanto falava dos livros, principalmente, por tratar-se de personagens-chaves e com ponto de vista. Por um motivo simples: essas cenas só existem na série e ambas funcionam para impulsionar a trajetória das personagens. Em um paralelo livre de um dos diálogos de Mindinho com Varys, o estupro utilizado na produção de David Benioff e D.B. Weiss funciona como uma escada necessária para justificar a relação de poder que circunda essas três mulheres, nem que seus degraus sejam feitos de caos e violência gratuita.

Daenerys cita em conversa, na última temporada com Jon Snow, na lista de percalços que passou e a tornaram a merecedora legitima do Trono de Ferro, a violência sexual. O mesmo discurso era empregado com frequência em Meeren. O episódio com Jaime foi necessário para distanciar os irmãos-amantes e levar Cersei ao espiral de escolhas erradas que resultaram na explosão do Septo de Baelor e a coroação da Lannister.

Quanto a Sansa Stark, há uma reviravolta na construção da personagem que acompanhávamos. A Stark que lutou por sua sobrevivência na corte usando a cortesia, (me atendo apenas a Sansa da adaptação), que entendeu o funcionamento da política do Vale e tentou jogar o Jogo dos Tronos enquanto esteve por lá, foi esquecida gargalho abaixo (perdoem-me o trocadilho). Primeiro, a lutadora polida pediu pra ser morta, depois uma fome de vingança se apoderou dela, enquanto reencontrava Jon Snow e o criticava sutilmente por seus hábitos e escolhas. Mas o ápice do “empoderamento” dado a Sansa, depois da violência sofrida, foi a morte de Ramsay. Completando o eterno ciclo da violência.

A série moldou Sansa Stark e desconstruiu a caracterização da personagem, que herdou os traços de honradez e justiça que todas as crianças Stark alimentam no decorrer de suas jornadas. Lembrando que quem casa com Ramsay nos livros é Jeyne Poole e que é Daenerys quem toma a iniciativa para a consumação do casamento com Drogo, que diz “sim” durante às preliminares. Enquanto a relação dos Lannisters ocorre sob o contexto de sexo consensual e que reverbera o distanciamento que há entre eles.

character thrones GIFValar Morghulis: Violência, empoderamento e recurso narrativo

E tudo isso me leva a pensar que esse empoderamento dado às três mulheres após a violência sofrida resulta na máxima de que violência e poder são elos da mesma corrente. As três são atualmente as personagens mais poderosas de Westeros, mas sob qual recurso narrativo?!

Tudo bem que adaptar segue a máxima de se fazer um novo produto, mas sem partir do zero. A adaptação reverbera o produto anterior, e não consigo encontrar nas obras de George R.R. Martin vestígios de violência sofrida por mulheres andar ao lado de poder, pelo contrário. Há uma complexidade nas personagens femininas no universo de As Crônicas de Gelo e Fogo que são empoderadas pelos recursos que lhes são dados como a cortesia de Sansa, a maternidade de Catelyn, a fidelidade de Meera Reed, sem a necessidade de recursos narrativos que só alimentam a cultura do estupro.

Adaptação é como uma gota que cai no oceano e cria pequenas ondulações que refletem o movimento, mas não são como ele, apenas semelhantes, que seguem com seu repertório e percepção. Assim, há semelhanças e disparidades entre o pensamento de George R.R. Martin e David Benioff e D.B. Weiss, que acabam sendo refletidos em suas obras e expostos na sociedade. Só é preciso tomar cuidado em quais deles te incomodam e quais te levam a refletir.

mothers day drinking GIF by Game of Thrones

Enquanto isso seguimos a espera da última temporada de Game of Thrones em 2019 e com a esperança de segurar em mãos Ventos do Inverno até lá.

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