O cinema de Gus Van Sant é um cinema de personagens confusos e perdidos, sempre à procura de seu lugar no mundo, sejam eles os adolescentes do trágico Elefante (2003) ou o próprio Harvey Milk em Milk: A Voz da Igualdade (2008). Nesse sentido, Mike, o protagonista de Garotos de Programa (1991), talvez seja aquele que melhor encarna essa caminhada por uma estrada sem fim e sem rumo, num filme que reúne tanto as qualidades quanto os defeitos da obra de Van Sant.

Como a cena de abertura já esclarece ao mostrar um close-up de um verbete no dicionário, Mike, vivido pelo fenômeno River Phoenix, sofre de narcolepsia: ao passar por situações de estresse, acaba tendo ataques que o levam a dormir. Mas, considerando a vida que Mike leva, estresse é bem difícil de ser evitado: além de circular pelas ruas de Seattle, Portland e Idaho se prostituindo com clientes com fetiches nada comuns, o jovem ainda é assombrado constantemente pelas lembranças da mãe que o abandonou. No caminho, ele encontra Scott (Keanu Reeves), o amigo que o acompanhará na sua jornada em busca da mãe perdida.

A estrada de Mike, já vista em uma tomada geral e aberta logo no começo do filme, é apenas uma das muitas metáforas que Van Sant usará para descrever, a partir do ponto de vista do personagem, a sua tentativa sempre fracassada de encontrar seu lugar no mundo. Afinal, como o próprio Mike afirma a certa altura do filme, a estrada não acaba; planos com tempestades e nuvens carregadas vêm e vão sempre em sua vida, e, com o uso de elementos como esses, a cinematografia de Eric Edwards se torna essencial ao dar uma percepção de tempo alterada à jornada de Mike – afinal, ele está sempre dormindo e sendo carregado por aí.

Cena da estrada na abertura de Garotos de Programa

Mike e a grande atuação de River Phoenix, que encarna em si a confusão interna do jovem, sua fragilidade e os efeitos físicos de sua narcolepsia, são de longe a melhor coisa de Garotos de Programa. Apesar do que o título em português pode sugerir, a prostituição é um tema pequeno frente à trajetória do protagonista, e surge mais claramente nos depoimentos de coadjuvantes (reais ou não) que falam sobre suas experiências sexuais. No caso de Mike, a prostituição é simplesmente um ato de sobrevivência – e, ao mostrar os clientes do rapaz como verdadeiras caricaturas e simbolizar um aparente gozo como uma casa que despenca e se despedaça, Van Sant deixa claro como não há prazer envolvido.

Se Mike busca um rumo, Scott, por outro lado, já tem em mente seu destino traçado. O personagem de Keanu Reeves não precisa se prostituir, roubar ou usar drogas: ele é filho do prefeito de Portland, e aguarda uma grande quantia de herança. Seus atos têm o propósito de puro desprazer pelas regras, mas mesmo isso tem prazo de validade, como ele mesmo faz questão de afirmar. Se a história de Scott parece familiar a quem assiste, é porque se trata de uma espécie de adaptação moderna de Henrique IV, de William Shakespeare. Scott é o príncipe Hal, que abandona a nobreza para se envolver com o submundo, sob os cuidados do seu “mentor” Falstaff – no filme, Bob Pigeon, um tipo de rei das ruas interpretado por William Richert.

É nesse ponto que o filme de Van Sant parece se perder. Se os ataques narcolépticos de Mike dão origem a transições surreais que colaboram para a ideia de inconstância na vida do rapaz, toda a trama “solo” de Scott nunca parece se encaixar direito no filme. A dinâmica entre Scott e Bob nas ruas de Portland é feita através de versos recitados, em referência direta à origem teatral shakespeariana da trama, mas não funciona. Parece ser mais um momento daqueles na filmografia de Van Sant em que a vontade de soar um cineasta autoral parece mais importante do que o próprio filme que se tem em mãos.

'I really want to kiss you, man' - Cena da fogueira em Garotos de Programa, com River Phoenix

No fim das contas, Garotos de Programa é muito melhor quando se concentra em Mike e sua relação com Scott, sem precisar da subtrama com Bob. O auge dessa dinâmica entre os dois amigos está na sempre falada cena na fogueira, improvisada pelo próprio River Phoenix, quando seu personagem declara seu amor ao outro. É interessante perceber a ideia de uma sexualidade fluida ali: se Mike, por um lado, se descobre gay, Scott faz questão de dizer que só faz sexo com homens por dinheiro, expondo mais uma vez todas as oposições dos dois personagens. É um momento melancólico e sensível – é o melhor lado do cinema de Van Sant em ação.

Ao mesmo tempo em que Garotos de Programa nos ganha com a jornada de Mike e seu andamento quase surreal, sofre de momentos que poderiam ativar no seu público o mesmo mal narcoléptico sofrido por seu protagonista. Mesmo assim, representa um dos ápices de Van Sant e, principal e merecidamente, da curta carreira de River Phoenix. Se um filme cult é caracterizado pela subversão e audácia, pela origem obscura e pelos seguidores que ganha, então temos aqui um filme cult por excelência.

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