Quando se assiste a muitos filmes do gênero western, percebemos que eles se dividem em dois tipos: o tradicionalista e o revisionista. O tradicionalista estabelece os temas, os arquétipos e os clichês; já o revisionista os questiona, os subverte. No Tempo das Diligências (1939) é tradicionalista, Rastros de Ódio (1956) é revisionista. Dos westerns dos anos 1990, Tombstone (1993) era tradicionalista; Os Imperdoáveis (1992), revisionista. Um dos maiores westerns revisionistas dos últimos tempos veio da TV, a magnifica série Deadwood (2004-2006), da HBO. E quando a Netflix anunciou Godless, a sua nova minissérie ambientada numa cidade do Velho Oeste habitada quase que exclusivamente por mulheres, cheguei a pensar que poderia ser o Deadwood deles. Bem, Godless nem arranha a sola do sapato da série da HBO, mas é interessante e possui qualidades suficientes para merecer a assistida.

Ah, e Godless não é revisionista. É tradicionalista até o osso, até os pregos das ferraduras dos seus cavalos.

Criada pelo roteirista Scott Frank – autor do jovem clássico Irresistível Paixão (1998) e, mais recentemente, co-roteirista de Logan – e produzida por Frank e pelo cineasta Steven Soderbergh – diretor de Irresistível Paixão – a série apresenta um grupo de personagens envolvidos num conflito que vai culminar na cidade de La Belle, um lugarejo no qual quase todos os homens morreram num acidente na mina de prata que sustentava o local. Roy (vivido por Jack O’Connell) é um fugitivo sendo perseguido pela gangue do implacável fora-da-lei Frank Griffin (Jeff Daniels). Alice Fletcher (Michelle Dockery) é uma viúva que luta para cuidar da sua fazenda e acaba dando abrigo a Roy. E os agentes da lei Bill McNue (Scoot McNairy) e John Cook (Sam Waterston) tentam capturar Griffin e impedi-lo de cometer chacinas, como a que aconteceu numa cidadezinha não muito longe de La Belle…

Scott Frank roteiriza e dirige todos os sete episódios da minissérie e o seu maior mérito é o de trazer o maior número de “tons de cinza” para a história. Em Godless, nem o herói é tão mocinho – O’Connell dá vida a um personagem misterioso ao qual só vamos conhecer com o tempo – e nem o vilão tão maligno – há alguns momentos em que vemos outra faceta de Frank, uma mais humana, e o personagem é até um ex-pastor. Um ex-pastor que diz numa determinada cena, a um homem que está prestes a matar, que “Deus fez a nós e também à cascavel? Isso não faz sentido!”. Daniels é formidável no papel, um ator que geralmente não vemos fazendo papel de vilão, mas que aqui aproveita para criar um retrato bastante tridimensional do seu personagem.

Porém, apesar da importância do cenário e da temática envolvendo mulheres fortes, elas acabam ficando em segundo plano em relação ao conflito entre Roy e Frank. Por mais fortes que sejam, elas quase sempre apenas reagem às ações dos homens, embora Alma e Maggie (Merritt Wever) sejam até mais interessantes, como personagens, do que eles. Dockery, mais conhecida por Downton Abbey, tem um desempenho muito forte e, apesar de inglesa, convence 100% como americana rústica – aliás, é curioso como Scott Frank escalou seu épico tão americano colocando os ingleses Dockery e O’Connell nos papeis principais. Já Wever, antes lembrada por uma breve, mas carismática, participação em The Walking Dead, se revela uma atriz de presença e força, e possui um arco narrativo interessante, explorando a sua sexualidade – Maggie é lésbica. A respeito disso, Frank também se lembra de incluir um pouco de diversidade na história, abordando ainda uma comunidade negra vizinha à cidade. Enfim, Wever e Dockery acabam tendo os melhores desempenhos da série – Daniels incluído – e é uma pena que elas às vezes não recebam mais destaque.

Outro problema da série é aquele velho entrave de outras produções Netflix: Parece muito tempo para história de menos, o que acaba ocasionando problemas de ritmo. Em entrevistas, Frank revelou que a princípio concebeu Godless como um filme, mas como os estúdios de Hollywood não fazem mais esse tipo de produção – um faroeste de orçamento médio voltado para um público adulto – ele o transformou em minissérie da Netflix apenas adicionando elementos e subtramas. Sete episódios não parecem muito, porém sente-se em diversos momentos que um pouco de economia narrativa poderia melhorar a experiência. A maioria dos episódios ultrapassa uma hora de duração, o que também contribui para um cansaço lá pelo meio da minissérie.

Godless tem valores de produção de cinema, como o elenco e a cinematografia expressiva: No episódio 3, há um momento belíssimo no qual o bando de Frank Griffin aparece num ambiente que se ilumina quando uma lamparina é acesa. É até filmada no formato Widescreen, de tela ampla, e o tiroteio do episódio final é um momento cinematográfico absolutamente emocionante. Há até a obrigatória homenagem visual a Rastros de Ódio de John Ford, com a porta emoldurando um personagem olhando para o exterior. Mas é também uma típica experiência da nova Era de Ouro da TV, com uma narrativa estilo quebra-cabeças – os flashbacks nos fornecem novas informações sobre os personagens – e que toma seu tempo para examinar seus personagens.

Talvez pudesse ter rendido mais como um filme: o clima reverente e as situações entre mocinho e vilão são mais adequadas para um longa, e a “expansão do universo”, com a cidade e as mulheres, não rende tanto quanto poderia. Mesmo assim, é uma produção que vale a assistida, e fãs do western com certeza não ficarão decepcionados. Para usar a gíria da nossa época, Scott Frank fez um western “de raiz”, com belas paisagens, personagens fortes e até um duelo climático. Já que a tradição não tem mais tanto lugar no cinema, vai para a Netflix mesmo.

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