Morando atualmente no Rio de Janeiro, o manauara Henrique Amud é roteirista do documentário Como Você Me Vê, produzido pela Bond’s Filmes e co-produzido pelo Canal Brasil e Asteróide. Ganhador dos prêmios de Melhor Documentário no festival FICA.VC e de Melhor Roteiro no 7º FestiCine Maracanaú, o filme explora a profissão do ator no Brasil, separando-os do glamour, a que são associados, e formando um mosaico diversificado e compreensivo de um país com tantas contradições. O Cine SET conversou com Amud sobre a produção do documentário, o ofício da atuação no país e como foi passar por essa experiência.

Cine SET – Como surgiu a ideia para Como você me Vê?

Henrique Amud – O Felipe Bond, diretor do documentário, também é ator. Ele deixou a sua cidade de Curitiba na cara e na coragem para ser ator no Rio de Janeiro, um caminho que muita gente percorre no país todo. Desde que começamos a trabalhar juntos, eu comecei a perceber a realidade da grande maioria dos atores, entre um trabalho e outro, entre cada teste de elenco, e também certa falta de regulamentação da carreira. Antes de vir para o Rio de Janeiro eu tinha zero contato com atores e atrizes, então acompanhar aquela realidade de perto era fascinante e reveladora, por que existe uma imensidão de atores no Brasil que ganham a vida de diferentes formas, em diferentes ramos da atuação, mas a gente costuma ter contato apenas com uns poucos que aparecem na grande mídia, o que deturpa a percepção sobre a profissão, muitas vezes projetando nela um glamour que, quando existe, é num grau muito pequeno. O ponto de partida foi esse e a ideia original era fazer um curta-metragem, mas a coisa toda foi evoluindo organicamente para o filme que temos hoje.

Cine SET – Por que falar sobre arte e o ofício da atuação?

Henrique Amud – É fascinante ter a oportunidade e os meios para se investigar um assunto do qual você pouco sabe e de repente começa a ter um contato mais profundo. O filme nasceu de pura curiosidade de entender por que tanta gente ama essa profissão e, muitas vezes, larga tudo para se jogar numa carreira incerta. Poderia ter sido sobre artes plásticas, sobre pescadores, sobre médicos, mas calhou de no momento certo, com a ajuda das pessoas certas, uma ideia se apresentou e foi angariando o interesse de gente o suficiente para começar a tomar corpo.

Cine SET – Como esses dois temas, a arte e o ofício de atuação, são correlatos e controversos?

Henrique Amud – No documentário nós tentamos não mostrar nada que parecesse “a resposta absoluta” sobre os temas do ofício e da arte, então temos respostas de profissionais diferentes que as vezes se contradizem, mas também se complementam e fomentam debate, que é o mais importante e necessário. O questionamento sobre a arte de atuar e o ofício de atuar é muito pertinente e tem muitos desdobramentos, os quais eu prefiro deixar que os atores respondam, mas o meu entendimento, depois de passar pelo processo de fazer o filme, é que os artistas são artesãos. Você não se torna ator simplesmente por se auto-intitular ator. É preciso muito treino e estudo, como em qualquer arte e também em qualquer ofício. Viver de fazer arte, seja lá qual arte, exige muita disciplina, compreensão e autoconhecimento dos seus limites, do seu corpo, dos limites dos outros. E essa disciplina ensina a encarar essa arte, independente do quão experimental ou comercial, como um ofício, um emprego como qualquer outro.

Cine SET – Como foi a experiência de desnudar esses artistas?

Henrique Amud – Ainda fico incerto se desnudar seria a palavra certa, pois talvez o termo tenha uma conotação mais catártica do que a realidade do nosso documentário. O que nós fizemos foi tentar apresentar os atores como eles são no dia-a-dia e trazer à tona questionamentos sobre a profissão que eles enfrentam no dia-a-dia, mas que muitas vezes a própria mídia prefere não mostrar. Não era uma questão de mostrar que eles “são gente como a gente”, por que no fim todos são, mas sim de deixar eles nos mostrarem o lado humano dessa profissão, desde as maiores felicidades que ela pode trazer até as grandes frustrações. E todo mundo deu entrevistas de coração aberto e com um grande sorriso no rosto, falando sobre aquilo que eles entendem tão bem.

Cine SET – Como foram selecionados os atores que participaram da produção?

Henrique Amud – Como no início da produção a ideia era fazer um curta metragem rápido e “no amor”, os primeiros entrevistados todos eram amigos e colegas de profissão do nosso diretor Felipe Bond. Quando começamos a enxergar o filme como algo maior, começamos (eu, Felipe e nosso produtor Lucas H. Rossi) a conversar mais sobre quem teria depoimentos interessantes para incrementar os que já tínhamos filmado, mas a palavra final era sempre do diretor. Desde sempre procuramos ter um elenco diverso, de diferentes backgrounds, diferentes estados e diferentes estágios da carreira, para tentar apresentar um mosaico compreensivo do que é ser ator no Brasil. Mas claro que com as nossas limitações financeiras, não tínhamos como rodar o país atrás dessas histórias, então tivemos que focar no Rio de Janeiro, nossa base de produção, e dar a sorte de bater a nossa agenda de produção com a agenda profissional deles. Nós temos 28 atores no filme, o que já é um número bem grande e tivemos que impedir o Felipe de continuar gravando, por que se dependesse dele teríamos filmado mais 20 e com certeza teríamos um filme completamente diferente, mas já era a hora de finalizarmos esse projeto e, com a entrada do Canal Brasil como coprodutor na metade do processo, pela primeira vez tínhamos um deadline para entregar o documentário pronto. Mas ao todo acho que entramos em contato com cerca de 60 profissionais e todos estavam interessados, mas acabou se tornando impossível conciliar as agendas de todo mundo.

Cine SET – Qual o maior desafio da produção?

Henrique Amud – Dinheiro, basicamente. O que talvez seja a resposta básica para qualquer produção independente brasileira. O nosso filme é de baixíssimo orçamento e filmamos basicamente 60% dele sem qualquer orçamento. Nossa equipe fez malabarismos pra ele acontecer e sair do papel.

Cine SET – O que mudou na sua visão sobre o ofício de atuar após a produção?

Henrique Amud – Quando eu morava em Manaus, minha percepção sobre artes cênicas era aquilo que os canais de televisão mostravam. Fazer o filme me abriu os olhos e mudou completamente aquela percepção provinciana de que ator só deu certo se está na televisão ou de que ator só quer saber de libertinagem.

Cine SET – Pensa em produzir algo em/ sobre o Amazonas?

Henrique Amud – Eu nunca pensei em criar algo especialmente para Manaus, de fato, mas eu tenho um argumento para um longa de ficção que só poderia ser filmado no Amazonas, mas é uma história que precisa ser melhor desenvolvida e está na minha lista de espera de projetos a escrever.

Ainda em 2018, Como Você Me Vê estará disponível na programação do Canal Brasil e na Globosat play.

 

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