Crescer não é nada fácil e o cinema possui uma série de exemplares para mostrar os desafios de caminhar com as próprias pernas. “Azul é a Cor Mais Quente”, “Frances Ha” e “Toy Story 3” são obras recentes que tratam sobre o assunto com sucesso. “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” entra nessa lista ao mostrar a luta de um adolescente para sair do cuidado familiar e de amigos para conseguir mais autonomia da vida.

Baseado no curta-metragem de nome quase idêntico realizado em 2010, o filme traz a história de Leonardo (Guilherme Lobo), estudante cego do Ensino Médio de um colégio paulista. Sempre ao lado dele está a melhor amiga Giovana (Tess Amorim). Durante um dia normal no colégio, surge o novo colega de classe vindo do interior, Gabriel (Fábio Audi). Os três se tornam bons amigos, porém, a relação entre os garotos cresce a tal ponto capaz de levar ambos a conhecer um sentimento ainda mais forte.

Enquanto o jovem americano aprende desde cedo a trilhar o próprio caminho e a sair de casa logo cedo, o brasileiro (pelo menos, o da classe média) cresce em um cenário de maior proteção. Seja pela violência urbana ou pela característica mais emotiva da nossa sociedade, a tendência é que o adolescente esteja sempre em um ambiente familiar com o objetivo de solucionar ou minimizar os problemas.

Léo vive dentro desse contexto. Filho único, o rapaz chamado pelos pais de “Leãozinho” possui uma rotina escola-casa da avó-casa instalada. Qualquer traço de mísera alteração soa como um possível risco, o que significa dificuldades em ir a um acampamento com os colegas da colégio ou uma festa. A residência, com sombras e sempre fechada para a entrada da luz, o coloca ainda mais na escuridão já inerente. Até mesmo a melhor amiga, Giovana, está sempre disposta a simplificar tudo para o protagonista desde protegê-lo de alguma piada na sala de aula a abrir o portão.

Claro que a toda essa preocupação carinhosa se justifica pelo fato dele ser cego, mas, essa redoma cria um processo de autoafirmação. Igual a qualquer adolescente, Léo sente a vontade de se arriscar para aprender a viver. Se o desejo de escapar a partir do intercâmbio soa como uma alternativa fácil, o surgimento de Gabriel traz a vazão para esse processo. Gafes como sugerir uma ida ao cinema, andar de bicicleta e dançar fazem o protagonista sair da zona de proteção e se sentir alguém como todos os outros. Como símbolo da transformação, sai a música clássica de Beethoven e entra a musicalidade pop de Belle and Sebastian. A cumplicidade entre a dupla ganha novos contornos à medida em que ambos percebem se tratar de um sentimento além da mera amizade de colegas de classe.

A paixão retrata outro passo de autonomia para Léo, pois, significa aceitar a descoberta de desejos e impulsos. Conhecer o próprio corpo guiado através do cheiro do moletom de Gabriel ou permitir ser conduzido para casa pelo novo amigo abrem caminhos para o reconhecimento de uma identidade por muitas vezes sufocada, percebendo a necessidade de se entregar a esse amor. Por outro lado, Gabriel se mostra reticente e procura se afastar da própria vontade, ao evitar enxergar a paixão óbvia que está surgindo. A construção delicada desse romance culmina em um êxtase do público com um simples entrelaçar de mãos.

Todo esse cenário não se torna uma caricatura típica de “Malhação” pela condução de Daniel Ribeiro. Estreante em longas-metragens, o diretor e roteirista evita clichês de jovens modelos com beleza irretocável, discursos moralistas a cada segundo e gírias espertas. O adolescente de “Hoje eu Quero Voltar Sozinho” pode ser imaturo, mas nunca banal. O público consegue se enxergar nas brincadeiras (quem nunca houve a famosa piada da dupla de três?) e nas conversas sobre garotos e garotas do ambiente escolar. Para isso, o talento de um grupo liderado por Guilherme Lobo (Léo), Fábio Audi (Gabriel) e Tess Amorim (Giovana) traz verossimilhança ao visto na tela.

“Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” vai muito além do filme adolescente sobre homossexualidade: há ali, acima de tudo, um respeito ao mundo do jovem raro de ser visto nas artes ao tratar de um tema pelo qual cada um já passou na vida. Crescer é difícil sim. Mas, obras como essa, ajudam nessa transição.

NOTA: 8,5

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