Perturbador e bizarro.

Essas são as duas descrições que consigo sintetizar do filme de John Cameron Mitchell.

Ficção científica com toques de comédia ou comédia com toques de ficção científica?

Inspirado no conto homônimo de Neil Gaiman, “How To Talk To Girls At Parties” é regado de imediatismos pueris misturados a toda loucura e megalomania que envolve o universo punk.

A narrativa acompanha o romance de Enn (Alex Sharpe), adolescente londrino que tem o punk como filosofia de vida, e Zan (Elle Fanning), uma alienígena cuja espécie está na Terra para cumprir um ritual. Os dois se conhecem na noite em que Enn sai com os amigos para curtir um show e flertar com garotas. Os três acabam em uma mansão com diversos grupos representativos, entre eles, o que Zan faz parte.

Conforme a narrativa avança, percebe-se que cada grupo da “Mansão de Stella” tem origem em planetas diferentes. Mas, ao observar as características dos membros pertencentes a “Colônia” – como os alienígenas chamam o local – e o momento em que o filme se passa, associa-se livremente aos movimentos revolucionários entre as décadas de 1960 e 1990, que se tornaram estilo de vida influenciando gerações percorrendo a linha do tempo até os nossos dias. As Colônias não interagem entre si, não se misturam, mas cada uma aplica de formas diferentes conceitos de liberdade, consumo, sexualidade e procriação. Todos debatidos sutilmente.

Dentro desses debates sutis, é interessante observar as expressões de desconhecimento de Elle Fanning. A atriz parece ser a queridinha dos diretores de elenco para incorporar o novo modelo masculino de heroína idealizada. Nada contra a irmã de Dakota Fanning, mas seus personagens constantemente forçam uma ideia de inocência e de falta de assimilação correta do que acontece ao redor. Com Zan, não é diferente, entretanto, há algo interessante em sua construção: Zan busca experiências únicas, a qual seu grupo não lhe permite – apesar de pregarem a individualidade, seu modo de subsistência é completamente generalizado. Na sociedade intergaláctica, há o conceito de que você nasce de uma forma e está destinada a viver e morrer do mesmo jeito. Algo semelhante às filosofias divulgadas no final do século XIX e início do XX.

“How To Talk To Girls At Parties”, porém, não busca se aprofundar em nenhum conceito filosófico, nem mesmo no universo punk que lhe serve como âncora. Os punks são estereotipados, enfadonhos e com visuais repetitivos. Nem mesmo as figuras alienígenas salvam. São caricatos quanto à vida humana e esteticamente psicodélicos. Neste sentido. o filme é um tanto conformista quanto aos seus personagens e o destino deles: mesmo quando se acredita que algo mudará é apenas uma ilusão da real intencionalidade da trama.

Esteticamente há um estranhamento positivo. Há cenas em que parecemos estar diante de um videoclipe, com toda a leveza, desconstrução e ritmo que esse produto audiovisual impõe. A trilha sonora também contribui para criar esse ambiente, bem colocada e escolhida de uma playlist punk, ela se torna interessante. Outro fator técnico que contribui para essa imergir nesse universo é a fotografia, com cores frias, ambientes escuros, planos e enquadramentos que procuram criar essa atmosfera desregular e perturbadora visualmente.

Cameron Mitchell consegue criar uma atmosfera visual digna de representar Gaiman. É uma pena que nesse enlace psicodélico de videoclipe, ele se perca um pouco nas mensagens fortes que pode transmitir. Mas nada que um pouco de bizarrice e perturbação não consiga nos prender a tela.

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