Dono de um dos gostos mais refinados da cena independente americana, o diretor Wes Anderson aparentemente também nutre uma paixão muito mais popular: cães. Seu novo longa, Ilha dos Cachorros, é uma ode à relação entre homens e seus célebres melhores amigos, bem como uma grande homenagem ao Japão, onde a história se passa.

Claro, em se tratando de Anderson, seu Japão, mais especificamente a fictícia Megasaki, é pura estética, refletindo mais a mente de seu criador do que plenamente seu equivalente no mundo real. Como a Europa de O Grande Hotel Budapeste, a mise-en-scène em Ilha se dá em um lugar inventado, reconstituído das memórias e ideias que Anderson tem do país, muitas delas vindas direto dos épicos do realizador nipônico Akira Kurosawa. Isso gerou um grande furor quando do lançamento do filme em Berlim, com alguns críticos acusando o cineasta de apropriação cultural, com um elenco largamente branco (a exceção sendo uma criminalmente sub-utilizada Yoko Ono) povoando o Japão de Anderson.

Enquanto espectador não-oriental, consigo entender a vontade que Anderson tem de brincar com os arquétipos do país, porém há um quê de exotismo forçado bastante questionável em certas decisões, como a de não legendar os diálogos japoneses. Eles parecem largamente dispensáveis para o entendimento da trama e, em grande parte, são traduzidos pela intérprete dublada pela atriz Frances McDormand, o que os fazem parecer justamente os que os críticos do cineasta mais detestam em sua obra: um maneirismo cool e injustificado.

A despeito disso e da personagem de Greta Gerwig (que atua como “salvadora branca”), a fábula de Anderson funciona graças ao seu humor sardônico e completa realização estética. Girando em torno da busca de Atari Kobayashi por seu cão de guarda Spots, exilado da cidade de Megasaki juntamente com todos os outros cachorros da cidade após uma gripe canina ser usada politicamente para banir os animais da cidade, o filme passa boa parte do seu tempo explorando os dilemas da sobrevivência na ilha-título, enquanto grupos de humanos pró e contra a decisão se digladiam na cidade.

De certa forma, as narrativas propõem dois filmes em um: na ilha, temos uma road trip canina, e na cidade, algo como um thriller político com claros tons anti-totalitaristas. Ainda que claramente feita para adultos, o tom leve da trama principal torna a empreitada bem mais acessível para crianças do que a animação prévia do diretor, “O Fantástico Sr. Raposo”.

Não deixa de ser interessante que, em seu novo projeto não-live action, o realizador volte a usar o mundo animal como inspiração, ainda que os protagonistas caninos sejam claramente reflexos da humanidade falha e cheia de idiossincrasias que caracteriza o universo de Anderson.

Com tantas coisas no filme chamando atenção para si mesmas, o próprio elenco parece sobrepujado e, com exceção de Bryan Cranston como Chefe, não há nenhuma grande revelação em termos de interpretação, mas o ponto não é esse. Ilha dos Cachorros é um filme que pede para ser levado em consideração pelo seu valor visual e pela simplicidade de sua história – e para ser apreciado por espectadores de duas ou quatro patas.

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