Clint Eastwood é um dos diretores mais importantes da atualidade. Afinal de contas, o cidadão que possui clássicos na carreira como “Os Imperdoáveis” e “As Pontes de Madison”, além de ser nada mais do que Dirty Harry, merece respeito a cada lançamento.

Posto isso, é com pesar que vejo a irregularidade na qualidade de seus filmes mais recentes, mais precisamente desde 2004 quando lançou o brilhante “Menina de Ouro”.

Mesclando obras ótimas como “A Troca” e “Cartas de Iwo Jima” com fracos como “Além da Vida” e “A Conquista da Honra”, Eastwood lança, quase que obrigatoriamente, um filme por ano desde 2006, mas sem chegar ao nível de seus principais longas.

Dessa vez, com “J. Edgar”, que tem a dura missão de recontar a história do polêmico ex-diretor do FBI por 48 anos J.Edgar Hoover, a pressa voltou a “engolir” Eastwood que desperdiçou a oportunidade de fazer um verdadeiro clássico com o potencial de história que tinha em mãos.

O longa se divide claramente em duas partes que vão se intercalando no decorrer da projeção: uma é baseada no começo da carreira de Hoover (Leonardo DiCaprio) e de como conseguiu levar o FBI a se tornar a organização policial mais respeitada do mundo, enquanto a segunda trata dos últimos anos de vida dele. Paralelo a isso, acompanhamos o relacionamento amoroso confuso dele com o seu aliado Clyde Tolson (o excelente Armie Hammer), a vida familiar ao lado da mãe (Judi Dench), as relações com os principais presidentes norte-americanos e o lado paranóico do personagem.

Como se pode ver, são muitas coisas a serem focadas nessa rica história e o roteiro de Dustin Lance Black (“Milk – A Voz da Igualdade”), infelizmente, opta por priorizar as relações pessoais de Hoover em vez de concentrar sua mira no trabalho brilhante e polêmico do protagonista, além da interessante relação dele com os presidentes dos EUA.

Mesmo com a prioridade no foco familiar, o filme não consegue estabelecer bem a relação entre ele e a mãe, já que não conseguimos ir além da rejeição dela ao homossexualismo colocada na única cena forte de Judi Dench no longa e alguns trechos pouco expressivos que mostram o desejo da mãe de ver o filho trazendo justiça e paz ao país. Já o relacionamento dele com a secretária Helen Grandy quase não tem espaço para ser desenvolvido na trama, tornando Naomi Watts uma mera coadjuvante de luxo.

Em compensação, o caso entre Hoover e Tolson é o que mais chama a atenção nessa parte da história da vida pessoal do protagonista, já que é nítida a tensão sexual dos dois desde o primeiro encontro, explicitado com o desconforto do todo-poderoso do FBI com um homem tão sofisticado, elegante e boa pinta. A crescente admiração dos dois e a necessidade de Hoover de se afastar da tentação em manter um romance homossexual, mesmo sendo de seu desejo, culminam em uma cena forte que acaba em pancadaria entre os dois e que determina o destino melancólico desse casal.

“J. Edgar” realmente cresce, entretanto, quando trata da mente de seu protagonista, pois este se revela um sujeito de fortes convicções, acreditando em organização, estrutura rígida, boa apresentação à sociedade e crença no uso da ciência e tecnologia como formas para se alcançar eficiência em uma estrutura de trabalho, especialmente a policial, como é o caso do FBI.

Isso é mostrado de maneira firme durante toda trama desde o detalhado sistema criado por Hoover para montar a biblioteca do Congresso, passando pela insistência em manter caros setores ligados ao estudo campo científico que poucos davam valor até ao paletó que cada agente usa em campo.

Apesar de toda essa inteligência e de ser um visionário, o lado paranóico  de Hoover o acompanha a todo momento, revelado em discursos que revelam um tom de xenofobia, o medo de ser diminuído por causa de suas fraquezas e falta de coragem em determinados momentos e nas elegantes tomadas que Eastwood faz dos momentos em que o protagonista conta sua história a diversos agentes que datilografam sua autobiografia.

Tal insegurança se reflete nos inúmeros dossiês que ele possui, uma forma de intimidar quem se metesse em seu caminho e o desafiasse ou ameaçasse o sistema que tenta impor e acredita (uma postura, diga-se de passagem, tipicamente americana em certos assuntos).

A brilhante fotografia acinzentada e quase sem cores fortes de Tom Stern realça ainda mais esses elementos de conflito e tensão enfrentados pelo personagem. Destaque também para a boa, mas não brilhante, atuação de Di Caprio que consegue transmitir bem as nuances de um sujeito tão complexo.

Uma pena mesmo é o filme não explorar bem três pontos cruciais na história:

1) o relacionamento conturbado e cheio de intrigas entre Hoover e os presidentes norte-americanos com os quais conviveu durante o período que chefiou o FBI. Um bom exemplo é um ótimo trecho em que temos uma tensa conversa entre o secretário-geral do governo Kennedy e Hoover. Quando pensamos que a história vai explorar um pouco mais o tema após o protagonista receber a notícia do tiro fatal disparado contra o presidente, a trama dá uma passagem temporal aos tempos de criação do FBI e quando volta não toca mais no assunto;

2) a forma como Hoover se envolveu com a indústria do entretenimento, conseguindo transformar a imagem que o público americano enxergava o FBI é mostrada em pouquíssimas cenas, não chegando a ter uma relevância muito forte na história;

3) o caso do sumiço do bebê do aviador Charles Lindbergh que levou o FBI a ganhar o respeito do público nos EUA é apresentado de forma pouco satisfatória, sempre recomeçando de pontos poucos expressivos dentro do contexto da perseguição ao assassino e do julgamento deste, o que faz o espectador perder o foco e o interesse naquela trama.

Clint Eastwood apela ainda para uma dos artifícios mais chatos e, infelizmente, mais comuns utilizados pelos diretores atuais: a necessidade de explicar detalhe por detalhe em uma cena crucial perto do final do filme em um diálogo que tinha tudo para ser forte entre Tolson e Hoover, porém acaba perdendo força pela “necessidade” de se colocar cenas já exibidas para rememorar o espectador.

Nas  questões técnicas, além da fotografia já citada, cito a formidável direção de arte, principalmente do escritório cheio de detalhes de Hoover, e a maquiagem que considero irregular, já que temos um belo trabalho de envelhecimento em Leonardo DiCaprio e um exagero na de Hammer que parece ter sofrido uma queimadura em vez de parecer mais velho.

“J. Edgar” era um filme que tinha tudo para ser um clássico pelo potencial que tinha. Porém, a tentativa de “abraçar o mundo” trouxe falhas gritantes ao longa e é perceptível os erros de organização da trama tanto por parte do roteiro quanto da direção indecisa de Eastwood. Um pouco mais de calma no desenvolvimento do projeto pudesse trazer os ajustes necessários para deixar a história redonda.

Ainda assim, é melhor um filme de um grande diretor como o nosso “Dirty Harry” do que mil porcarias que são lançadas quase todos os fins de semana nos cinemas.

NOTA: 6,5

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