Muitas pessoas têm problemas com finais. Tanto na vida como no entretenimento que consumimos, é difícil encontrar um bom encerramento para as nossas experiências, um que traga um satisfatório e poderoso sentido de conclusão. No tocante ao cinema, não é só o público que tem esse problema: roteiristas, diretores e atores muitas vezes não sabem a hora de sair de cena e se mostram incapazes de dizer adeus a um projeto marcante do passado.

No entanto, no cinema um filme conseguiu realizar um encerramento exemplar em anos recentes: foi O Ultimato Bourne (2007), terceiro capítulo da franquia do assassino desmemoriado da CIA vivido por Matt Damon. Em Ultimato, o protagonista recuperava a sua memória e descobria porque havia se transformado numa mera ferramenta a serviço da agência. E mais importante, decidia não ser mais aquela pessoa e escapava de forma icônica, desparecendo em meio à agua na qual foi visto pela primeira vez, estabelecendo uma bela rima visual com o início do primeiro filme da saga, A Identidade Bourne (2002). Ao som de uma empolgante canção do Moby, poucos finais recentes para a trajetória de um personagem foram tão bons, tão perfeitos, quanto esse.

Damon e o diretor Paul Greengrass, que comandou o segundo e terceiro Bournes depois do pontapé inicial de Doug Liman, sentiram o peso da própria realização. Tanto que, por muitos anos, recusaram voltar ao universo tecnológico e de espionagem da franquia. Porém, o estúdio Universal, dono da franquia, nunca deixou de querer mais Bourne, e até fizeram um sem Greengrass e Damon, O Legado Bourne (2012) com Jeremy Renner como o “agente 008” daquele universo. Mas o público deu o veredito: eles queriam o herói original de volta.

Pressão do estúdio, dinheiro a ser ganho e relutância dos seus criadores em abandonar um personagem e universo queridos: esses fatores ajudam a explicar porque este Jason Bourne chegou às telas. Novamente reunindo Damon e Greengrass, este novo capítulo é completamente fiel à estética e ao estilo da trilogia original, e isso representa ao mesmo tempo a maior qualidade da produção e a sua maior fraqueza.

O filme abre com uma recapitulação de “melhores momentos” e logo voltamos a reencontrar o bom e velho Jason. Um Damon mais envelhecido dá vida ao personagem envolvido em lutas clandestinas na Grécia, nas quais ele nocauteia caras maiores que ele com um único soco – afinal, como já mostrava o começo de Rambo 3 (1988), o único jeito de velhos heróis de ação relaxarem quando não estão na ativa é participar de uns clubes da luta. Mas não tarda muito e Bourne estará de volta à ação, quando sua velha associada Nikki (Julia Stiles) o contata após obter alguns arquivos confidenciais da CIA que continuam a lançar luz sobre o passado do protagonista – agora essas revelações envolvem seu pai. E Bourne passa a ser novamente caçado pelo pessoal da CIA, incluindo o diretor Robert Dewey (Tommy Lee Jones) e a ambiciosa Heather Lee (Alicia Vikander).

De acordo com o espírito daqueles primeiros minutos, essa trama também permite a Greengrass – pela primeira vez na franquia também autor do roteiro, junto com seu montador Christopher Rouse – fazer um replay dos grandes momentos da trilogia. De novo temos uma grande cena no início com uma manifestação na Grécia – nesta cena Greengrass volta a exercer a sua maior habilidade, a de encenar um momento caótico de forma realista e inserir seus personagens nele. Como em A Supremacia Bourne (2004), a cena se conclui, de forma previsível, com um momento sombrio para o herói.

Depois temos mais cenas de pessoas no centro de operações da CIA, olhando monitores e falando jargão tecnológico. De novo Bourne fala pouco. De novo, as cenas de ação são captadas no momento, pela câmera sempre nervosa e trêmula de Greengrass – o que pode ser, de acordo com o gosto do freguês, um grande diferencial da franquia ou fonte de aborrecimento com ela; de minha parte prefiro ser capaz de ver minhas lutas e perseguições. De novo, Bourne confrontará o seu inimigo superior da CIA, e de novo este será um homem velho – o personagem de Jones. E de novo, tudo acaba com uma grande perseguição automobilística com muita destruição. Greengrass e Rouse buscam aqui emular o estilo dos roteiristas dos anteriores, nomes como Tony Gilroy e George Nolfi, mas algumas das suas ideias cheiram a clichê, como tudo envolvendo o pai do herói, e não deixa de ser decepcionante o fato de o protagonista, que ao final de Ultimato dizia lembrar-se de tudo, ainda ser atormentado por flashbacks e lembranças remotas – num próximo filme, será que veremos Jason se lembrando do garoto que lhe batia na escola e roubava seu Toddyinho?

Apesar dessa sensação de rotina nunca se dissipar, é preciso dizer que o elenco realmente demonstra energia e vigor. Damon volta ao seu papel mais famoso com facilidade e um ar mais grave, Jones deixa o espectador inquieto e desconfiado mesmo fazendo pouco, e Vikander interpreta com força a personagem mais interessante da história.

Mas, no fim das contas, o que este Jason Bourne traz de diferente é a disposição para abordar tópicos – e temores – do mundo moderno. Edward Snowden e seus vazamentos são mencionados; há um personagem meio Zuckerberg, meio Jobs envolvido junto com a CIA numa tecnologia com potencial de espionar o mundo inteiro; e as capacidades da agência americana não possuem limites – numa cena, eles conseguem desligar a energia de uma área, em outra a personagem de Vikander usa um celular para apagar os dados de um computador nas proximidades. Greengrass, sempre um cineasta engajado, nem acredita mais na possibilidade de privacidade e mantém seu herói como um eterno opositor desse processo, uma força sempre em ação para preservar sua “identidade”, por assim dizer.

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Os filmes Bourne – bem, Legado à parte – sempre foram sobre a força da individualidade, sobre a resistência do indivíduo frente à instituição que deseja que ele se comporte de determinada maneira, ou seja, como um instrumento desumano. A evolução de Jason Bourne como pessoa se completou naquele terceiro filme, e além do marcante desenvolvimento do personagem, os filmes também representaram evoluções dentro do gênero de ação. Identidade sacudiu a poeira e trouxe uma ênfase mais realista, Supremacia representou um assombroso passo além e Ultimato, um refinamento ainda mais potente do anterior. Este Jason Bourne, por sua vez, é apenas mais do mesmo: um eficiente mais do mesmo, pois Greengrass e Damon parecem ser incapazes de fazer algo ruim dentro da franquia. Mas não tem a urgência e os sensos de novidade e de imprevisibilidade que a trilogia original possuía. Ainda assim, deve satisfazer a parcela do público (e o estúdio) que queria ver o personagem de volta a todo o custo. Afinal, para muita gente até um final praticamente perfeito não basta.

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