Em 1994, Jim Carrey alcançou fama internacional ao estrelar três dos maiores sucessos de bilheteria daquele ano. O ano e os filmes mudariam totalmente a carreira do ator canadense. Você com certeza deve se lembrar do ator pela sua caricatura humorística em O Máscara, Debi & Lóide e Ace Ventura. O rosto de Carrey ficou mundialmente conhecido por essas interpretações, é tanto que quando o desenho animado de Ace Ventura foi lançado posteriormente, o personagem carregava toda a identificação facial de Carrey. As oportunidades desse ano o oportunizaram dar de presente a si mesmo um cheque de 10 milhões de dólares, que no decorrer do documentário descobrimos ter enterrado com seu pai.

Entretanto, a carreira de Carrey não se resvalou apenas a comédias. O ator mostrou ser versátil e entregar personagens complexos em filmes aclamados pela crítica como em O Show de Truman e Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças. O interessante é que ao assistir Jim & Andy, Carrey levanta a memória dessas duas interpretações como momentos isolados de sua vida que encaixaram-se perfeitamente na batalha travada por seus personagens, um sob os holofotes midiáticos e o outro com coração partido, reverberando o estado do ator no momento da produção. Esta é apenas uma das facetas do ator canadense de 55 anos que acompanhamos no documentário da Netflix Jim & Andy: The Great Beyond Featuring a Very Special, Contractually Obligated Mention of Tony Clifton.

Dirigido por Chris Smith, o documentário mescla imagens realizadas durante a produção do filme “O Mundo de Andy” por Lynne Margulies e Bob Zmuda – namorada e parceiro criativo de Andy Kaufman, respectivamente – em que os dois mostram o dia-a-dia do processo de realização do filme de Millos Forman intercaladas com um Jim Carrey atual que põe em perspectiva o processo criativo em “O Mundo de Andy”, sua admiração pelo humorista americano e filosofias de vida que remontam uma reflexão sobre o significado da interpretação de Kaufman na vida do ator. Smith utilizou centenas de horas de cenas de bastidores para mostrar como Carrey imergiu nos papéis de Andy Kaufman e Tony Clifton – um cantor de boate grosseiro, alter-ego de Kaufman.

O trabalho realizado por Margulies e Zmuda levou 20 anos para vir a público, muito em decorrência do temor que havia de que seu conteúdo pudesse prejudicar a divulgação do filme e fosse um contraponto a interpretação de Jim Carrey. É notável como a espera contribuiu para o enriquecimento de Jim & Andy e auxiliar a redescoberta de Kaufman e expandir a concepção do método utilizado por Carrey. Em dado momento do documentário, o ator comenta sobre o desafio do improviso, o que em parte está conectado a sua escolha de vivenciar Andy e Tony durante todos os momentos em que esteve no set. É interessante quando nas imagens da produção seu motorista é indagado sobre quando o ator sai do personagem e assume sua identidade real e a resposta que ouvem é que Andy/Tony chegam na casa de Jim e são os dois que saem na manhã seguinte.

O uso do corpo do ator de Carrey em “O Mundo de Andy” vai muito além do que uma boa imitação, acertar trejeitos e tiques verbais. O ator consegue despertar no público a inquietação de estar diante do próprio Kaufman renascido sob o corpo do canadense. Observando por essa óptica, não causa tanto espanto o método do ator de ser Andy 24h por dia. O que gerava incômodo por parte do diretor Milos Forman que era obrigado a mandar recados por Andy caso quisesse ter contato com seu ator principal, algo que 20 anos depois reverbera a frustração do diretor. Isto remonta a reflexão de Carrey sobre ter ouvido que o diretor não estava satisfeito com sua escolha para o papel, opinião esta que seria refutada com o resultado da produção.

Outro elemento interessante utilizado na construção narrativa do documentário é explorar as características humorísticas de Kaufman com as de Carrey e esboçar o quanto o intérprete se espelhava em seu objeto de interpretação, aspectos que podem ser evidenciados na entrevista que Carrey deu para Arsênio Hall em que fingiu estar bêbado durante toda projeção – a cena foi incluída no documentário – e até mesmo no humor empregado por ele em Debi & Loide, entre outros filmes, no qual a base humorística não é o típico stand-up comedy, mas algo pautado no humor do desconforto, técnica impregnada por Kaufman. Nela, o humor é provocado pela situação encontrar-se fora do comportamento socialmente esperado, suscitando algo mais próximo ao incômodo do que do riso. Este aspecto também contribui para que possamos afirmar que Carrey nasceu para interpretar Kaufman.

Não é de admirar-se que “O Mundo de Andy” foi a oportunidade do ator refletir sobre sua própria identidade e o impacto que o comediante teve sob si como indivíduo. O que ocasionou um conflito de identidade em quem era Jim pós Andy. É interessante ouvir isso vindo do próprio ator que sem qualquer traço de narcisismo, explora sua experiência no set que parece ter decorrido não apenas por sua dedicação, mas principalmente pelo fascínio que Kaufman lhe despertava.  Neste ponto, ouvir Carrey relembrando os questionamentos despertados pelo temor de sua interpretação, narrando os encontros com a família do comediante falecido e as impressões que as pessoas próximas a ele deixavam sob o ator muda a perspectiva tanto em relação a Jim Carrey quanto a “O Mundo de Andy”.

Essa mudança de perspectiva oferece uma compreensão melhor sobre a trajetória de Carrey como ator e ser humano, especialmente ao Smith contrapor as imagens do jovem ator às do que Carrey representa atualmente. Há um contraste explicito entre o jovem que sabia das dificuldades que enfrentaria e as driblou e o homem com barba grisalha, marcas de expressão e voz tranquila, serena que o Jim Carrey contemporâneo esboça. É interessante observar como Andy marca a vida do ator e como a experiência o ajudou a se encontrar.

Às vezes relembrar é inevitável e vital para que consigamos entender o ponto em que nossa vida virou e nos moldou ao que nos tornamos. Andy Kaufman foi o ponto de virada na vida de Jim Carrey, pelo menos é isso que Smith nos faz acreditar durante a projeção de Jim & Andy. Isso seria algo que agradaria Kaufman.

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