Em alguns momentos de Jogos Mortais: Jigsaw, me senti como se estivesse vendo um desenho animado. É apropriado: afinal, o Jigsaw, vilão da franquia com complexo de deus e que vem torturando suas vítimas desde o despretensioso e interessante filme inicial de 2004, é o Willy Coiote do cinema de terror. As armadilhas complicadas e implausíveis que ele cria estão no mesmo nível daquelas que o Coiote usava para tentar pegar o Papa-Léguas. Talvez elas sejam a chave para o surpreendente sucesso da franquia, e quanto mais continuações foram feitas, mais elas começaram a parecer coisa de desenho.

Por exemplo, neste novo filme, há um momento no qual dois personagens estão presos num silo, prestes a serem soterrados por toneladas de grãos, e como se isso não fosse o bastante, de repente começam a chover lâminas, serras e pregos sobre eles. O efeito é meio cômico, ao invés de assustador, e cheguei a pensar que faltou cair a bigorna! Aquela que geralmente quase esmagava o Papa-Léguas…

Você pode me perguntar, leitor: ei, a franquia não tinha se encerrado em 2010 com Jogos Mortais: O Final? Bem, em Hollywood em geral, e no terror especificamente, nunca se pode confiar de verdade na palavra “Final” no título de um filme. E ver Jogos Mortais como uma comédia de humor negro não é tão despropositado: como ocorre em quase todas as franquias de terror que se estendem por anos e anos, um pouco de comédia involuntária começa a se inserir nos filmes. Afinal, em Jigsaw o novo grupo de desconhecidos prestes a participar do jogo da vez aparece inicialmente com baldes na cabeça…

Mesmo apesar do humor que vez ou outra se infiltra, este Jigsaw se propõe a ser um recomeço, um reboot leve da série. Numa das linhas narrativas, acompanhamos o grupo de lascados tentando sobreviver às armadilhas de John Kramer, o assassino Jigsaw (a voz e presença espectral de Tobin Bell, retornando ao papel que o tornou ícone do terror, quase um Vincent Price moderno); na outra vemos um grupo de policiais e médicos legistas investigando o novo jogo e às voltas com evidências fortes de que Kramer talvez possa não ter realmente morrido no Jogos Mortais 3 (2006), lá atrás – o fato de que a franquia sobreviveu por vários filmes mesmo após a morte do seu vilão principal é outra coisa surpreendente a respeito dela.

Plausibilidade nunca foi o forte dos filmes Jogos Mortais desde o primeiro, dirigido por James Wan. Mas Jigsaw abusa da inverossimilhança: a trama depende tanto de coincidências e pessoas no lugar certo na hora certa, que só ouvindo um monte de diálogo expositivo no final para tentar amarrar tudo. Mesmo assim, toda a falação é sem sucesso. Até a única boa ideia do roteiro, uma brincadeira temporal que a princípio parece interessante, é logo soterrada pela avalanche de impossibilidades e performances sem graça do elenco. Bem, pelo menos dessa vez aquela montagem maluca e frenética, com efeitos de aceleração videoclipeiros que enchiam o saco nos filmes antigos, não deu as caras neste. Talvez eles fossem considerados “muito anos 2000” para as plateias de hoje…

Há elementos para os fãs de longa data da franquia  apreciarem: o boneco do Jigsaw, a máscara de porco, até as inverossimilhanças… Porém, não se percebe em Jigsaw um forte motivo para exumar a série, vê-se apenas mais do mesmo, com uma surpresa final maluca para tentar prosseguir em outros filmes, e mesmo isso parece requentado. Até o “gore”, a sanguinolência explícita que virou marca registrada dos filmes Jogos Mortais, se mostra tímido neste novo capítulo. Muitos dos momentos nojentos são criados por computador, de novo acrescentando ao clima de irrealidade, de versão “para maiores” das torturas que o Pernalonga ou o Pica-Pau infligiam sobre suas vítimas nos velhos desenhos – só os efeitos práticos dos cadáveres nas autópsias impressionam pelo realismo.

Porém, o aspecto mais decepcionante de Jogos Mortais: Jigsaw é que ele temporariamente leva para o inferno as carreiras de dois jovens e promissores cineastas: ele é dirigido e roteirizado pelos irmãos Spierig (Peter e Michael), malucos australianos que dirigiram o mediano, mas criativo, filme de vampiro 2019: O Ano da Extinção (2009), e a sensacional ficção-científica O Predestinado (2014). Sério, se você nunca viu O Predestinado, vá ver O Predestinado. Este também era um filme com roteiro maluco, mas quanto mais se pensava nele, mais impressionante ele parecia. Já em Jigsaw, quanto mais se pensa durante a sessão, menos sentido ele faz, mais bizarro o filme fica. Essa ressurreição da franquia mais sanguinolenta do século XXI demonstra que para alguns diretores, às vezes, não vale tanto a pena embarcar num “jogo” para conseguir abrir as portas de Hollywood. No fim das contas, parece que a bigorna caiu mesmo na cabeça dos irmãos Spierig.