Lançado pelo Ministério da Cultura no último dia 7 de fevereiro, o conjunto de 11 editais do programa #AudiovisualGeraFuturo pretende financiar mais de R$ 80 milhões para o setor somente em 2018. O Cine Set buscou a opinião de dois importantes realizadores do audiovisual amazonense, Keila Serruya (“Assim”, “Sardinhas em Lata”) e Sérgio Andrade (“A Floresta de Jonathas” e “Antes o Tempo Não Acabava”), para que repercutissem sobre o anúncio feito nesta semana e o impacto que pode ter na produção amazonense.

Os 11 editais trazem a política de cotas com grande ênfase ao estabelecer medidas de estímulo para a maior participação de negros e indígenas. O Ministério da Cultura justificou essa escolha devido ao alarmante estudo feito pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) de que nenhum filme lançado pelo cinema brasileiro em 2016 foi dirigido, produzido ou escrito por uma mulher negra.

Keila Serruya afirma que “a política de reparação é uma obrigação da federação” e salientou que a produção audiovisual negra ganha força no Brasil desde o início desta década, mas, com muitas questões a serem definidas, especialmente, nas áreas de oportunidade, formação e recursos.

“Quais os questionamentos e que vozes devem ser ouvidas? Quais os processos burocráticos? Quem são os financiados e por qual motivo? Quais são as narrativas propostas? Narrativa tem que ter modelo ou ela é diversa? Qual nossa identidade cultural? Audiovisual o que é? Está na hora de debate!  Ou começamos a refletir ou o audiovisual continuará um espaço branco, masculino, hétero e burguês”, declarou.

Uma preocupação levantada tanto por Keila quanto Sérgio é sobre as áreas temáticas definidas pelo MinC nos 11 editais. Confira abaixo quais são:

  • 5 Longas de Animação (R$ 17,5 milhões)
  • Narrativas Audiovisuais para a Infância: Curta-Metragem (R$ 2,1 milhões)
  • Narrativas Audiovisuais para a Infância: Série (R$ 3 milhões)
  • Narrativas Audiovisuais para a Infância: Curta + Game (R$ 3,5 milhões)
  • Narrativas Audiovisuais para a Infância: Série + Game (R$ 10 milhões)
  • Jogos Digitais (R$ 2,5 milhões)
  • Documentários sobre a Temática de Infância e Juventude (R$ 5 milhões)
  • Documentários sobre Temas Afro-Brasileiros e Indígenas (R$ 5 milhões)
  • Desenvolvimento de Projetos sobre os 200 Anos da Independência do Brasil (R$ 6 milhões)
  • Desenvolvimento de Projetos sobre a Infância (R$ 4,4 milhões)
  • Festivais, Mostras e Eventos de Mercado do Setor do Audiovisual (R$ 16 milhões)

Sérgio Andrade mostra preocupação com a falta de editais com linhas sem temáticas específicas livres. Acima de tudo, o diretor de “Antes o Tempo Não Acabava” analisa que as propostas oferecidas pelo Ministério da Cultura podem indicar uma ideia de tentar mostrar um Brasil sem estar totalmente conectado com a realidade.

“Os temas e assuntos propostos querem mostrar um Brasil, uma realidade de um país pulsante que avançou muito. Mas, a nossa realidade não é essa: há massacres da população indígena e negra. Isso se coroa com a linha de 200 anos da Independência. Claro que cabem muitas coisas, mas, as regras destes editais, podem restringir muitas coisas também. Por isso, ressinto da algo de mais livre. Isso intimida e complica para quem quer fazer um tema bem forte, contundente como questões do aborto, da mulher, e sente que não vai passar nestes editais, pois, parecem querer uma realidade pulsante do Brasil”, declarou.

Keila também demonstrou preocupação sobre esta distribuição dos valores ligados às áreas temáticas. “São R$ 80 milhões com diversos tipos de cota. Mas qual motivo de quase a metade do investimento ser para conteúdo infantil? Por qual motivo inacreditável haver 6 milhões para falar sobre a independência do Brasil?”.

O AMAZONAS NOS EDITAIS

Nos últimos anos, a política de regionalização adotada pela Ancine com cotas para o estímulo da produção nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste levou o Amazonas a conseguir investimentos poucas vezes visto antes no audiovisual do Estado. Dentro do Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Audiovisual Brasileiro (Prodav), 14 séries locais foram feitas, enquanto dois longas (“A Floresta de Jonathas” e “Antes o Tempo Não Acabava”) chegaram às telas do Brasil inteiro.

 Keila Serruya destacou a produção de “Boto”, da Artrupe Produções, e “Transviar”, da Eparrêi Filmes, que chegaram a contar com mais de 13 semanas de produção, algo raro para o audiovisual amazonense. Considerando este processo apenas um começo, a integrante da Picolé da Massa avalia que a profissionalização é fundamental para tornar este cenário permanente.

“Só oficinas curtas não resolverão nosso problema: nossa questão é informação, mas isso não parte de indivíduo, mas de grupo. Hoje acontece o Fórum do Audiovisual do Amazonas que vem realizando proposta em relação ao setor, espero que possamos avançar muito em 2018. Um outro ponto de certa complexidade de resolução é a questão de atrair profissionais da administração e contabilidade para o audiovisual. Somos um negócio e precisamos entender os processos burocráticos. O terceiro e último ponto é que a prefeitura de Manaus poderia colaborar com isso, diminuindo os processos longos e cansativos para regularidade empresarial, além de entender minimamente um pouco mais do setor. Isso nos faria caminhar mais rápido”, declara Keila.

Já Sérgio Andrade considera que as produtoras locais precisam de maior independência dos governos federal e estadual mesmo com a verba vindo deles. “Temos agora este edital para mostras e festivais. Durante anos, tivemos aqui o Amazonas Film Festival bancado pelo governo sem a abertura para uma instituição privada fazê-lo. Não temos essa independência ainda. A Ancine também precisa modificar os procedimentos para que a gente tivesse acesso a uma maior pontuação. Produtoras de estados menos tradicionais não conseguem pontuar da mesma forma com as produtoras do Sudeste”, concluiu.

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