“Kingsman” já começa indo direto ao assunto, ao nos levar para o Oriente Médio, em 1987, quando Galahad (Colin Firth) comete um erro em uma operação que acarreta na morte do seu companheiro de trabalho. O acontecimento cumpre papel importante, descobrimos depois, pois é o que insere o jovem Eggsy (Taron Egerton) na história. A questão é que tal cena é feita de maneira absolutamente apressada, instantânea, e com isso a tal culpa que Galahad carrega consigo durante o decorrer do filme parece não merecer todo esse peso, pois a informação que nos foi passada diz o contrário, que foi uma morte rapidíssima, que nem tivemos tempo de absorver e já seguimos adiante.

Algumas cenas depois, o Professor Arnold (um irreconhecível Mark Hamill) está sob custódia de sequestradores quando o agente secreto Lancelot (Jack Davenport) burla a segurança, e consegue matar os capangas, sendo surpreendido mais tarde por Gazelle (Sofia Boutella). Depois de presenciar este momento, fica clara a real intenção do filme: ele quer ser uma farsa. Não necessariamente uma paródia de filmes de espionagem, mas um filme que ri do gênero, e aqui e ali utiliza-se de suas características para contar as suas piadas.

Mas o problema é que, na minha opinião, Vaughn não conseguiu deixar isso engraçado. Imagino que mesmo que a ideia do filme esteja estabelecida, e chegue ao espectador, ela não segue até o fim a sua verdadeira intenção, tendo interesse em soar como um filme de ação divertido, mas crível, o que apenas enfraquece seus momentos de comicidade. Alcançar este equilíbrio é uma habilidade que Vaughn ainda não parece ser capaz de desempenhar, e isso leva o filme ladeira abaixo.

Na sequência da trama vemos que Galahad indica o jovem Eggsy, filho do seu companheiro, morto na primeira cena do filme, para ingressar na Kingsman, uma organização secreta que combate o crime pelo mundo. Enquanto isso o bilionário Valentine (Samuel L. Jackson) leva adiante uma ideia megalomaníaca de diminuir a população mundial através de um chip criado por uma de suas corporações, o que faz com que Galahad apareça no seu caminho e tente impedir o excêntrico ricaço de cometer um verdadeiro genocídio.

Ao ver o trailer do trabalho tive o interesse de assistir ao filme também pelo fato de ser dirigido pelo diretor do ótimo “X-Men: Primeira Classe” (2011), mas ao final da sessão me parece que o verdadeiro Vaughn é aquele da hora final de “Kick-Ass” (2010). Não sei até que ponto entra a influência do estúdio no resultado final, mas o que vi em “Kingsman”, e que já estava presente em “Kick-Ass”, foi um filme com soluções de roteiro bastante genéricas, de facílimo apelo, daquelas coisas que já vimos tantas vezes por aí. E quando o filme pretende mostrar que tem estilo, como na já citada cena do resgate, ou na briga no bar quando vemos (em CGI) o dente de um personagem ser arrancado de sua boca, consegue apenas soar como uma cópia de Guy Ritchie.

Contar com Colin Firth como condutor da história é uma decisão acertada, pois o ator, extremamente competente como de hábito, vende muito bem a ideia de um agente secreto sofisticado, com o sotaque e o trabalho de corpo milimetricamente pensados e bem executados. Egerton também aparece muito bem, mostrando-se bastante promissor ao não apresentar Eggsy apenas como um típico garoto rude de periferia, dando-lhe personalidade, nuances, além de contar com uma boa dose de carisma nas cenas de maior potencial cômico. Já o personagem de Jackson é quem parece ter a construção mais problemática dos três. Optando por uma interessante língua presa, que fragiliza na maneira exata o personagem, o ator parece ser prejudicado por uma equivocada construção visual, uma espécie de gansgta rapper, que soa injustificada e não acrescenta nada ao personagem, parecendo uma escolha que foi feita para deixar aquela figura o mais esdrúxula possível como se isso deixasse o personagem com várias caras. Não, apenas empalidece uma face inverossímil e unilateral.

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De vez em quando o filme acerta. A cena em que o personagem de Firth começa a lutar com pessoas dentro da igreja é muito boa, é uma injeção de adrenalina no filme, um momento único, diferenciado dentro da projeção, tem potencial para estar na lista de melhores cenas do ano. No final do filme, a solução que insere uma série de fogos de artifício tem um impacto visual interessante, bem como o desfecho de Galahad, que é o que de melhor o filme propõe, dando esperança de que poderíamos ver um final de filme interessante.

Mas logo depois vemos que não é bem assim, e a onda de previsibilidade volta, e o jogo volta ser jogado apenas na certeza novamente. E isso já foi visto tantas vezes, que nem vale a pena ficar teorizando.

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