O texto abaixo contém spoilers

Inserida de forma silenciosa no catálogo da Netflix, La Casa de Papel logo se tornou uma das séries mais populares no Brasil neste início de ano. A produção espanhola é composta apenas por uma temporada (dividida em duas partes pela Neflix), apresentando oito assaltantes obstinados a roubar a casa da moeda na Espanha com sucesso.

Assim, a série acompanha em seus episódios a saga dos anti-heróis tentando ganhar tempo para que a polícia não invada o prédio antes que estes possam fugir. Além da trama principal, o Professor (Álvaro Morte), responsável por planejar toda execução do plano, acompanha as ações do grupo fora do cenário central, encobrindo os rastros deixados ao idealizar a tão ousada façanha.

Em seus primeiros minutos, o espectador conhece uma das protagonistas e seu recrutamento para a equipe. Basicamente, os oito assaltantes são foragidos da polícia que não têm nada a perder com o possível fracasso do plano. Os personagens não se conhecem, e em suas primeiras interações são instruídos a adotar codinomes, sem revelar sua antiga identidade.

Tóquio, Denver, Rio, Moscou, Nairóbi, Helsinque, Oslo e Berlim. Ao escolherem cidades tão diferentes, o panorama de sucesso esperado parecia improvável. O Professor se encarrega então, de unificar a equipe e explicá-los todas variáveis possíveis nos dias de “trabalho”, momentos introduzidos como flashbacks ao longo da série. Assim, o treinamento se mostra realmente efetivo, exceto em uma característica: as relações humanas.

Seja entre si ou em contato com os reféns, nem todas relações estabelecidas podem ser resolvidas com um tiroteio ou ameaças. Cada personagem, em determinado momento, se encontra no escuro ao lidar com situações fora do previsto e o grande roubo à casa da moeda se torna apenas um cenário desfavorável para isto.

Tóquio (Úrsula Corberó) e Rio (Miguel Herrán) presenciam o primeiro romance na série, assumindo durante o assalto uma relação proibida que ninguém, nem mesmo a própria Tóquio, defende. Utilizado também para aprofundar os dois personagens, este relacionamento não vai muito além de justificar os primeiros erros no assalto, o que volta a se repetir quando a narrativa precisa de uma falha ou duas.

Moscou (Paco Tous) e Denver (Jaime Lorente) além de companheiros de crime também são pai e filho, sustentando ambos vínculos em uma linha tênue até o último capítulo. Com o grande apelo do tema familiar, a interação entre os dois brilha com suas respectivas interpretações e diálogos, o que não acontece com os irmãos Oslo e Helsinque, esquecidos em grande parte da história.

Assim, resta a Berlim (Pedro Alonso) e Nairóbi (Alba Flores) se apresentarem de forma independente, dialogando com os outros personagens por meio de suas respectivas caminhadas até ali. Felizmente, ambos são responsáveis pela organização do assalto em diferentes setores, o que possibilita seus diálogos com alguns dos 60 reféns.

O personagem que atrai maior destaque fica por conta do Professor,  inicialmente ele se apresenta como grande estrategista até descobrirmos que na verdade se trata de um verdadeiro idealista. Além de mostrar estas nuances, fazer acordo com a polícia e direcionar o restante da equipe, essa figura também protagoniza um romance com a policial Raquel Murillo (Itziar Ituño), a qual, reforçando o clichê, se torna o ponto fraco do protagonista.

Ao apontar falhas tão relacionáveis, a série direciona seu espectador a torcer pelo sucesso dos assaltantes, um dos pontos mais positivos na trama. Para isto, a violência é minimizada e os oito se tornam apenas os reféns que estão em posse das armas. Reforçando esta ideia em seus capítulos finais, o Professor assume um discurso político em momentos precisos, permeando reflexão acerca de seu país.

Além do pensamento político, La Casa de Papel também aborda questionamentos sociais importantes com naturalidade. A presença feminina, bullying nas escolas, integridade policial e até mesmo a história do país se tornam pautas entre os episódios, esta última inclusive, inserida de forma inteligente com a canção “bella ciao”, símbolo de resistência ao fascismo na Europa durante o século XX.

Outras causas, entretanto, são retratadas de forma superficial, entre elas, destaco especialmente as doenças de alguns personagens. No romance entre Denver e a refém Mónica Gaztambide (Esther Acebo) surge uma discussão acerca da síndrome de Estocolmo, a qual a vítima nutre sentimentos de afeição por seu intimidador, após estabelecer essa possibilidade como um obstáculo entre o casal, os dois voltam a se acertar e ignoram o discurso anteriormente utilizado.

E não para por aí, doenças degenerativas também são usadas como forma de artifício no roteiro e acabam se tornando, na verdade, grandes falhas. Berlim sofre de uma doença terminal que ocasiona o tremor nas mãos caso não tome seu remédio, este sintoma entretanto, apenas é mostrado quando feito close nas mãos, intercalado com plano americano onde suas mãos não se mexem nem um pouco.

No núcleo familiar da policial Raquel, sua mãe possui mal de Alzheimer, o que primeiramente é introduzido de forma sutil. Porém com a necessidade de apresentar soluções fáceis, a doença da matriarca é esquecida durante a trama, surgindo no último segundo para salvar o Professor e sua equipe. Esta interação entre futura sogra e genro protagoniza uma das piores e mais absurdas cenas de toda a série, todo suspense criado é ignorado para que o nonsense tome lugar.

Infelizmente estes exemplos são apenas a ponta do iceberg. Ao apresentar personagens estrategistas e manipuladores, é esperado que estes mostrem expertise em suas ações relacionadas ao roubo, acontecendo exatamente o contrário. Logo nos primeiros episódio o Professor apresenta todas soluções lógicas para os obstáculos já esperados, porém à medida que esta fórmula fica saturada, saídas fáceis são colocadas em seu lugar.

Todos estes defeitos somados à edição problemática da série, a qual além de utilizar os flashbacks faz uma reapresentação destes várias vezes, apontam inconstância nos roteiros da temporada. De forma geral, a série alcança um patamar que não consegue manter, utilizando uma boa proposta com personagens intrigantes para reduzi-los à qualidade de carismáticos.

A segunda parte chega à Netflix no dia 6 de abril, então, caro leitor, acompanhe um desfecho com momentos interessantes e cenas visualmente atrativas, que infelizmente não conseguem fechar todas pontas soltas da temporada.

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