As questões de gênero tomaram espaço na mídia nos últimos tempos, levantando diversos tipos de debate e apresentando várias personalidades que assumiram as identidades retraídas e ergueram sua bandeira em prol da causa. Mesmo assim, não é de espantar-se que os comentários contrários a esta discussão também ganhem um crescimento exponencial, principalmente ao modo como alguns espaços midiáticos resolvem abordá-lo e apresentá-lo a um público com menos acesso ao tema, o que torna o espaço de discussão ainda pouco difuso entre as massas.

Assim como trouxe a voga debates sobre suicídio, política, porte de armas e a segmentação racial; não é de admirar-se que a Netflix tenha escolhido, para o primeiro documentário brasileiro original do streaming, abordar a questão de gênero, sendo exposta por uma figura tão representativa e icônica quanto a cartunista Laerte Coutinho, que em 2009 assumiu sua identidade transgênero.

No decorrer da trama, para mim, houve um paralelo freqüente na forma como as diretoras Lygia Barbosa da Silva e Eliane Brum optaram por apresentar a figura central do documentário e o seriado I’m Cait, que narra a vida do socialite Caitlyn Jenner. Ambas assumiram sua identificação como mulher transgênero após uma trajetória de mais de 40 anos como profissionais, pais de família, com filhos e netos. Entretanto o período em que os dois produtos se passam e a visão que apresentam sobre a questão de gênero, perpassam por caminhos diletos que não chegam a tangenciar-se.

 O documentário foi gravado em dois momentos distintos de acordo com a disponibilidade de Laerte, que demonstra uma singeleza e delicadezas únicas que acompanham a sua alma de artista. E isso se aproxima do expectador a cada cena em que se desmistifica a visão que se tem da cartunista e sobre o seu modo de vida. Laerte parece tímida, mas simultaneamente muito a vontade em receber a equipe de produção e abrir sua casa, que nada mais é que uma representatividade de sua alma de artista e mulher. Em constante mudança, sem saber aonde chegar e quanto tempo levará para chegar, enquanto sabe exatamente os pontos que precisam de retoque, de arrumação, de atenção.

É interessante notar o quanto a recusa inicial de recebê-los em sua casa, tem a ver com sua própria recusa em compreender a aceitação de sua arte. Embora esta seja o principal grito de libertação de Laerte. Provocativa, irônica, libertadora. Essas poderiam ser facilmente a descrição dos cartoons dela nos seus 40 anos de carreira, se não tivesse muito ainda a ser apreciado. Amedrontada pelo medo de “cagar regra”ou de perceberem a real intenção de seus desenhos, Laerte transpor sua vida para o personagem Hugo/Muriel que aos poucos foi assumindo o seu papel como mulher. Mesclando arte e vida, que se pintam e se preenchem. Hugo tornou-se Muriel definitivamente e Laerte continuou sendo Laerte, no nome, em homenagem a esposa de um prefeito, que também possui a mesma nomenclatura.

Laerte vive em uma constante busca pela mulher que ela pode ser. Uma constante aceitação de seu corpo, que só possui seios por meio dos sutiãs de bojo da cartunista. Embora esta seja uma luta interna acalorada entre o dever e o poder/querer ser mulher.  A cartunista e sua personagem não vêem o corpo resumido a um corpo, mas a consciência do que seja e de como as vestimentas ressignificam o corpo, suas expressões. E dando a expectativa de uma feminilidade de alcance possível.

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A obra carrega na construção narrativa, os trabalhos de quadrinhos e pinturas assinadas pela artista que geram uma quebra na linearidade ou ilustra a ideia que vem sendo discutida.  As suas artes, assim como a protagonista do documentário, não vêm seguidas de pontos finais ou cortes secos. O silêncio, as pausas enigmáticas e demoradas, o olhar que busca as palavras certas e sinceras a serem ditas no momento em que é questionada, leva a ideia de transição e fluxo presentes na vida e arte de Laerte. O filme acompanha um percurso que anda no mesmo ritmo da vida da cartunista. Às vezes só, ou cercada de gatos, com a família, às vezes vestido ou nu, às vezes quadrinho, às vezes São Paulo.

Laerte-se poderia transformar-se em Curta-se, Liberte-se, Ame-se. Laerte-se traz um convite para algo que mais do que nunca precisamos nesta era carente de tolerância. Traz o convite para o diálogo, para a revisão de papéis e conceitos formais, por meio de provocações ou reflexões de Laerte, mas que é a extensão de nossas próprias indagações retraídas ou ocultas pelo preenchimento da sociedade pós-moderna.

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