Baseado no livro de Anthony Burgess, Laranja Mecânica é um filme audacioso.  A história parecia ser impossível de ser filmada no cinema, mas Kubrick escreveu um roteiro inteligente e o realizou brilhantemente.

O personagem principal, Alex De Large (Malcolm McDowell), é um rapaz que estuda e tem família, entretanto, é um criminoso; ele sente prazer em praticar a “ultraviolência” com seu bando, os “droogs”.

Eles são bem diferentes, numa Londres do futuro, vestem-se com macacões brancos e chapéus pretos, comunicam-se com uma linguagem própria (uma mistura de russo e inglês), e praticam atos violentos contra idosos e mulheres, de forma gratuita.

As sequências no filme chocam porque não é comum ver esse tipo de crueldade mostrado com humor negro em muitos momentos, e principalmente, com música clássica ao fundo.

E ainda: imagine como é ouvir Alex cantar e dançar “Singing in the Rain” enquanto comete barbaridades? Realmente marcante porque até aqui a música nos lembrava de um lindo musical de Hollywood.

É, mas a trilha sonora de Laranja Mecânica é um espetáculo à parte: além da música clássica e do sucesso hollywoodiano, há o toque futurista de Wendy Carlos, que criou a memorável e forte música do filme, que talvez você não lembre exatamente como é, mas quando ouvir saberá de onde vem.

O tema é diferenciado assim como tudo no longa também é. Vários tipos de arte são ressaltados no filme: os ambientes muito elegantes seguindo as influências da pop art; as danças e músicas (Alex comete as maiores atrocidades, mas adora ouvir Beethoven, e a música clássica toca durante boa parte do filme), as sequências em câmera lenta, (como no momento em que Alex joga seus amigos no rio) e o roteiro que detalha bastante o caminho do personagem (como quando ele vai fazer o novo tratamento e vários papéis são assinados um a um).

Os primeiros 45 minutos do filme são para mostrar as crueldades atentadas por Alex e os droogs. Algumas histórias de ultraviolência são contadas e naquele momento parecem que se encerram por ali, sendo soltas da história, mas depois o espectador percebe que não é bem assim.

Após sermos apresentados ao mundo da ultraviolência praticada por Alex e seus amigos, ele é traído por sua gangue e acaba preso. Para livrar-se mais rápido da cadeia, Alex decide participar da técnica Ludwig, que promete curar delinquentes, os deixando prontos para voltar à sociedade em pouco tempo.

Alex é levado para o Centro Médico. O tratamento consistia na visualização de imagens que mostravam a violência de todas as formas, passadas em um grande telão em cores e sons.

O paciente era obrigado a olhar as cenas, pois seus olhos estavam impedidos de se fecharem. Alex começa a passar mal ao assistir às tais cenas, e pedia que o deixassem vomitar.

Essa era a intenção do tratamento: fazer com que o paciente tivesse a sensação de terror e desamparo, pois aí “fará as associações mais proveitosas entre o catastrófico ambiente da experiência e a violência que presencia”, de acordo com o Dr. Brodsky, que o “tratou”, no filme.

O “tratamento” de Alex o deixa indefeso; assim ele se vê sozinho e sem saber para onde seguir. Seus amigos por ironia tornaram-se policiais e se voltam contra ele.

Alex não consegue mais praticar a violência, mas o mundo sim. Aqui entra o que considero mais interessante no filme: a crítica à sociedade doente e hipócrita em que vivemos.

Kubrick retratou o futuro de forma bem interessante, muito do que mostrou já foi moda e já aconteceu. Mas se o filme era forte e queria mostrar uma violência absurda que só aconteceria num mundo surreal, ele errou.

Hoje, os limites da violência são outros, e possivelmente haja muitas pessoas que nem se impressionem ao ver Alex estuprar, espancar e matar pessoas, porque atualmente isso, infelizmente, está diariamente nos jornais.

Mas o chocante e contemporâneo do filme está no fato de os crimes serem cometidos por jovens bobos e sem motivo nenhum pra isso, que se divertem cometendo atos de crueldade.

Kubrick já tinha vários filmes consagrados na carreira quando escreveu e filmou Laranja Mecânica: entre eles Spartacus, Dr. Fantástico e 2001. Depois ainda fez alguns filmes importantes como Nascido Para Matar, O Iluminado e De Olhos Bem Fechados.

Até então, conhecido apenas por séries de televisão, Malcolm McDowell conseguiu este grande papel em Laranja Mecânica e brilhou. Foi sórdido e inocente nesse filme.

Um garoto que conseguiu despertar no público o ódio e a pena, em seguida. Mas foi injustiçado ao não ser lembrado no Oscar, recebendo apenas indicação no Globo de Ouro, pela sua atuação no filme. Depois de Laranja Mecânica, Malcolm não fez nenhum filme tão marcante quanto, mas não parou de atuar nunca, e já tem mais de 200 filmes na carreira.

Laranja Mecânica sempre será atual e nos faz refletir como nossos direitos são esquecidos quando não vão ao encontro dos interesses dos grandes poderes.

Um filme para nunca mais esquecer.