Depois de “Mulher-Maravilha”, DC/Warner resolve esquecer antigas ambições como o tal “tom sombrio e realista” e abraçar de vez o que começou no filme da guerreira Amazona. Um filme mais leve e divertido.

Isso já fica perceptível, logo no início de “Liga da Justiça”. Um Superman de bom humor (algo nunca visto nessa nova fase) conversando com crianças. Mas não só isso chama a atenção, mas o brilho no uniforme, antes explorado com uma paleta escura, aqui o mesmo está brilhando. O amarelo do escudo está vivo, tudo como se fosse um resgate de um personagem abordado de maneira tão equivocada antes. E esse já é um ponto positivo.

E o bom humor é algo que acompanha a aventura de maneira constante em suas duas horas de duração. Isso não seria ruim, mas como no filme anterior alguns dos personagens já tinham suas personalidades e motivações definidas, muda-las de repente poderia vir a causar uma certa estranheza. Observe o Batman, antes um cara atormentado por seus vinte anos de combate ao crime, aqui nesse filme um cara mais leve e que é capaz de soltar piadas. Poderia ser um fator que prejudicaria o filme, mas como no fim das contas funciona, o certo é ignorar e se deixar levar.

Essa mudança de comportamento com certeza teve a ver com a introdução de diálogos e direção feitas por Joss Whedon (aqui creditado apenas como roteirista) para substituir Zack Snyder, que teve que deixar a produção por problemas pessoais.

Mas voltando a história, a Terra está passando por um período de recuperação pós a queda do seu maior herói, a insegurança e o medo tomam conta em uma escala global. Então uma raça alienígena conhecida como os Parademônios liderados por Lobo da Estepe, resolve aproveitar o momento, unir artefatos antigos conhecidos como Caixas Maternas e invadir o planeta. Bruce Wayne/Batman (Ben Affleck) ao perceber o que está acontecendo, começa a tomar providências e com o auxílio de Diana/Mulher-Maravilha (Gal Gadot), formam a iniciativa (zoeira), quer dizer, iniciam o recrutamento da Liga da Justiça.

Com o Batman e Mulher-Maravilha já estabelecidos anteriormente, o filme apresenta seus novos personagens. Então entram em cena Barry Allen/Flash (Ezra Miller), Victor Stone/Ciborgue (Ray Fischer) e Arthur Curry/Aquaman (Jason Momoa). Apresentados de maneira eficiente, o trio não demora muito a se juntar ao time (dado as já esperadas relutâncias de sempre, exceto a de Flash).

Sobre a caracterização dos personagens, se Flash é o alivio cômico e a figura mais insegura do grupo, o Ciborgue carrega também um tipo de insegurança, mas com um arco dramático maior. Vítima de um acidente que destruiu seu corpo, Victor teve seu corpo reconstruído a partir da experiência do seu pai com uma caixa materna (os artefatos que movem a trama). Ambos os personagens vivem se escondendo, se o velocista ainda consegue lidar com seus dons de maneira bem humorada, o mesmo não acontece com o segundo, já que se considera uma aberração, sempre com o moletom cobrindo o rosto e se escondendo nas sombras.

Já o Aquaman de Jason Momoa é tratado praticamente como um rockstar, como um homem que aparentemente não está nem aí para as coisas que ocorrem ao seu redor. Com o corpo coberto de tatuagens e entornando garrafas de whisky, seu porte ainda fica maior quando encarado em contra-plongée, faltando apenas fazer um “air guitar” com seu tridente.

Só resta a Mulher-Maravilha somar e esbanjar o carisma de sempre, Gal Gadot, é de longe a mais confiante e confortável no papel, não esmorecendo e colocando sua opinião sempre que possível nos próximos passos da equipe, a personagem não é uma mera cota feminina. O símbolo que ela vem sustentando e a representatividade da mesma nessa nova fase é mais uma vez reforçado. Aliás não é à toa que um dos melhores momentos da película seja também a protagonizada por suas irmãs Amazonas.

Mas o que beneficia com certeza o filme é essa interação dos personagens, com os diálogos orgânicos e sem enrolação para mover a trama, fazem a engrenagem girar. Mais daí começam surgir os problemas, como a falta de emoção em momentos que seriam cruciais. Um deles é a volta do Superman, se quando volta a usar o uniforme causa certa comoção, o seu retorno do mundo dos mortos não tem o mesmo efeito. Feita de uma maneira que acaba por quebrar o ritmo da trama, a cena só não é um completo desastre por conta do fator positivo da interação de Miller, Cavill e Affleck, que aqui toma a famosa “volta do anzol”. O desespero do Flash ao notar que o Superman consegue acompanhar seus movimentos é hilário.

Falando agora da trilha sonora do filme como um todo, a mesma soa apenas genérica, feita por Danny Elfman, talvez seja um dos seus trabalhos menos inspirados, mas não chega a comprometer. Um exemplo disso é ao pegar a trilha da Mulher-Maravilha e apenas deixá-la mais rápida pra criar um tom de urgência. Pior fica pra famosa trilha de John Williams, o tema do Superman é jogado no ar de maneira quase herege e se você não escutar, eu não te culpo, ela foi colocada de maneira tímida mesmo.

Mas o principal ponto negativo do filme é mesmo o vilão, o Lobo da Estepe, interpretado em CGI por Ciarán Hinds. O antagonista é apenas um dos instrumentos para mover a trama, com a motivação de unir as caixas maternas e destruir o planeta, o desenvolvimento de qualquer nuance é deixada de lado. Esse poderia até ser seu único ponto negativo, mas até mesmo sua concepção visual apresenta problemas. Chega a incomodar o descaso da produção com o CGI, fora que se for parar pra pensar, a escala de destruição promovida pelo vilão não chega a ser tão impactante, a impressão que se dá é que o Superman sozinho daria conta do vilão no fim das contas, mesmo com um flashback mostrando todo o poder do mesmo.

Outro elemento negativo, são algumas das cenas de ação, não empolgam como deveriam, como citei antes, a falta de emoção, ocasionado principalmente por falta de timing (Talvez pela falta de consonância da nova montagem/direção). Observe o momento em que Flash corre e toca a ponta da espada da Mulher-Maravilha remetendo claramente a pintura de Michelangelo na capela Sistina, um desperdício de cena, sabotada pela maneira como é jogada na tela. Escuras demais em alguns momentos, o 3D não ajuda e chega a causar até certa confusão no momento do confronto com os vilões no terceiro ato. Se ocasionalmente temos esse problema em torno do filme, em contrapartida não tem como não se arrepiar com o Aquaman surfando no ar usando os vilões como prancha, o Superman sem o peso do mundo nas costas socando o Lobo da Estepe e com os heróis lado a lado remetendo claramente a uma ilustração de Alex Ross.

Divertido, escapista, episódico, porém com problemas pontuais, a Liga da Justiça ainda consegue ser um bom filme, mas pra quem espera uma obra-prima sugiro cautela.

O filme contém duas cenas pós-créditos, inclusive a segunda cena é muito boa, fiquem até o final.

PS: Um recado aos cinemas, se o filme possui cenas pós-créditos, por favor mantenham a sala escura, não atrapalhe a experiência dos espectadores por conta da pressa em querer expulsá-los da sala. Esse aviso fica ao Playarte do Manauara Shopping. Obrigado.

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