Há certos filmes que apostam na delicadeza na abordagem de temas de muita comoção, e que por conta disso acabam, infelizmente, sendo menos valorizados por boa parcela do público por não provocarem uma experiência mais direcionada para a catarse, e sim para uma situação propositalmente mais próxima do que é a vida “comum”, afastando-se da espetacularização que acompanhamos em tantos filmes.

É realmente uma pena que um filme como Loving tenha inevitavelmente pouca plateia e atenção, pois trata-se de um trabalho delicado, com admirável sensibilidade do seu diretor, Jeff Nichols, além de ter nada menos que duas excepcionais atuações de Edgerton e Negga. Ao tratar sobre o caso que contribuiu para a alteração da Constituição dos Estados Unidos ao permitir o casamento entre pessoas de diferentes raças, Loving é uma das experiências cinematográficas mais humanas e tocantes de 2017.

O filme fala sobre a história do casal Richard (Joel Edgerton) e Mildred Loving (Ruth Negga), ele branco, e ela negra, que casaram-se na Virgínia em 1958, sendo processados pelo Estado por infringirem as leis contra a miscigenação, e condenados a deixarem o lugar onde moram por 25 anos. Os dois acabam encontrando exílio na casa de amigos, em Washington, e vivem as suas vidas tendo este empecilho de não poderem voltar a sua casa juntos, encarando a desconfiança da sociedade que os julgavam por serem de cor de pele diferentes.

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O trabalho de direção de Jeff Nichols explora através da simplicidade a situação do casal Loving, e é exatamente por isso que o filme ganha enorme força. A condição dos dois é tão inacreditável que Nichols entende que contar essa história de maneira sutil e delicada, longe do melodrama mais fácil, é a forma que mais explicitará o quanto tudo aquilo é desumano.

Como exemplo, temos a situação em que, quando presos, no início do filme, Richard permanece o tempo inteiro perplexo com aquela situação, procurando entender, sem conseguir, qual o problema que existe no fato dele viver com a mulher que ama, de que maneira aquilo poderia ser encarado como um crime ou uma ofensa? Aliás, praticamente todas as situações que envolvem o casal fora de casa parecem ir pra esse caminho da situação comum e banal surge como uma grave contravenção. Como o ato de levar Mildred a uma parteira, que se transforma numa verdadeira operação de guerra cheia de estratégias.

Enquanto muitos diretores poderiam optar pela busca pelo choro, ou por situações direcionadas para frases de efeito e lições de moral, afinal tratam-se de personagens vivendo uma injustiça extrema, Nichols opta pelo silêncio, pela contemplação, pela valorização dos olhares, da relação que é forte e que se basta pela simples presença do outro compartilhando a mesma emoção. Todos os choros são orgânicos, surgem através das emoções da cena e não o contrário, e são sempre vistos como reações naturais de seres humanos simples que só querem ter o direito de viverem juntos, como qualquer casal.

Mas ainda mais importantes para o sucesso do filme do que o trabalho do diretor é o desempenho do casal de protagonistas, num tipo de composição que deveria ser estudada por aspirantes a atuação, pois são performances extraordinárias pela compreensão dos seus intérpretes de que a maior força da sua composição está nos detalhes discretos, que são difíceis de serem enxergados por olhos imediatistas.

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Negga constrói uma figura a princípio passiva e leniente, mas que vai se tornando cada vez mais presente, decidida, posicionando-se sobre o que acredita, mas sempre com muita doçura, usando sempre um tom de voz brando, que não se abala mesmo enfrentando tanta intolerância. A sua fala é discreta, mas sempre potente, com força para modificar o rumo da sua trajetória, numa bela construção da atriz.

Na melhor atuação de sua carreira, Edgerton cria um homem bruto, que possui uma figura aparentemente explosiva, com o olhar sempre pra baixo, os dentes mal cuidados, mas que no fundo é um homem gentil, amoroso, e que ama a sua mulher acima de tudo. A sua natureza evidentemente pacífica surge sempre de maneira surpreendente contrastada pela sua aparência, mostrando um homem que só ter uma vida simples, viver em paz com a sua família, participar de corridas de carro, e de vez em quando beber com os amigos. A composição de Edgerton é atenta aos detalhes, compreendendo bem essa dualidade, criando ricas camadas que contradizem esse homem sensível na pele de um brutamontes. A ausência do ator nas listas de melhores atuações em premiações é (ou pelo menos deveria ser) inexplicável.

A relação dos dois é muito bem explorada, afastando-os da ideia de homem e mulher perfeitos, tendo características semelhantes a de qualquer casal que se desentende e reconcilia. É preciso ressaltar a maneira louvável a que o filme mostra como Richard respeita a opinião de Mildred, como na cena em que ele, contrariado pela presença de repórteres na sua casa, questiona a mulher sobre aquilo, e ela diz que quer a presença deles, tendo a sua opinião respeitada e acatada por Richard. Parece uma coisa simples, mas que tem um grande significado vermos, em um filme que se passa nos anos 1950, um homem branco respeitando uma mulher negra.

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Nichols sabe exatamente em que lado quer ficar dessa história, dando um exemplo a realizadores, e também a uma boa parte da plateia, que são desatentos a essas questões, e que deveriam se dar conta de que essa história aconteceu há pouco tempo, e que ainda temos muito o que evoluir.

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