Vários filmes do diretor francês Luc Besson são sobre mulheres. Geralmente elas são bonitas, há uma sensibilidade moderna e pop a respeito delas, mesmo quando uma delas é a Joana D’Arc, e são todas meio loucas, ou pelo menos obcecadas. Depois de anos mostrando várias facetas da figura feminina em seus trabalhos, agora Besson finalmente cria a mulher suprema, aquela que representa um salto na evolução, e dá o papel a uma estrela que, ultimamente, está em estado de graça nas telas, Scarlett Johannson.

Scarlett vive a protagonista de Lucy. Ele é uma moça americana que, aparentemente, leva uma vida de baladas e bebedeiras em Taiwan. Quando o filme começa, ela é forçada por um amigo a entregar uma maleta ao misterioso senhor Jang, vivido por Choy Min-Sik, de Oldboy (2003). Na maleta, há pacotes contendo um estranho pó azul, e Lucy acaba se tornando “mula” para transportar essa nova droga, mesmo contra a vontade. Quando a substância entra na sua corrente sanguínea, ela começa aos poucos a se transformar uma nova mulher. Lucy vira uma assassina melhor que a Nikita, começa a ler a Matrix nos computadores ao seu redor e passa a ter poderes mentais mais fortes que qualquer um dos X-Men.

Pela primeira meia hora do filme, as cenas mostrando o dilema de Lucy se intercalam com a palestra do professor Norman (Morgan Freeman, emprestando sua credibilidade natural a alguns conceitos bem questionáveis cientificamente). O professor fala sobre a evolução da humanidade e aquele velho senso comum de que as pessoas usam apenas 10% da sua capacidade cerebral – um mito sem base científica. Ele postula que acesso a áreas adormecidas do cérebro efetivamente levariam a poderes além da compreensão humana atual.

É precisamente o que está acontecendo com Lucy, que logo descobre o professor em Paris e parte para encontra-lo. Ao mesmo tempo, a quadrilha do senhor Jang começa a persegui-la, porque não seria um filme de Luc Besson sem algumas sequencias de ação. Essa é a especialidade dele, criar um espetáculo pop sustentado pelo movimento, pelo visual e, neste caso, pela sua protagonista. Além disso, as referencias anteriores a obras do cinema popular – Nikita, Matrix, X-Men – são apropriadas, pois não se pode assistir a Lucy sem nos lembrarmos de outros filmes, alguns do próprio Besson. Então, ele se alimenta também do próprio cinema. É a sua versão de um filme de super-herói, ou no caso, de uma heroína.

Porém, no caso de Lucy o cineasta se mostra particularmente energizado e interessado em explorar outras ideias. No início do filme Besson insere imagens da natureza que se contrapõem às ações humanas dos personagens – por exemplo, enquanto Lucy é levada para a suíte do sr. Jang por seus capangas, aparecem também cenas de leões caçando e atacando sua presa. Essas imagens até são meio óbvias, mas acabam trazendo uma energia à narrativa. Logo, fica claro para o espectador que Lucy, o filme, opera dentro de uma lógica bem particular, dentro das suas próprias regras, e não dá opção ao espectador. Ou ele aceita a experiência, ou não.

Besson também parece mais “filosófico”, por assim dizer – e o roteiro também é de sua autoria. De algum modo, é quase como este filme fosse a versão dele para A Árvore da Vida (2011), do diretor Terrence Malick. Os processos mentais de Lucy dão a Besson a oportunidade para inserir, no inicio da narrativa, imagens de células e uma breve volta à pré-história na qual podemos ver a “primeira mulher”, que foi batizada de Lucy quando seus fósseis foram descobertos. São sequencias que, além de belas visualmente, evocam lembranças da viagem pelo universo do filme de Malick. E curiosamente, a viagem de Besson funciona, rendendo momentos visualmente espetaculares, especialmente rumo ao final do filme, quando Lucy começa a investigar os segredos da existência.

E de fato, são as ideias visuais que constituem o aspecto mais incrível de Lucy. Besson pensa em termos visuais e sua imaginação compensa pela trama exagerada e até meio boba. O diretor cria cenas impressionantes e cheias de loucura, como quando Lucy absorve a droga pela primeira vez e começa a subir pelas paredes do cenário, ou o passeio pelas ruas de Paris num carro em alta velocidade controlado pela heroína – nesse momento é difícil distinguir os elementos reais filmados em locação com os efeitos em computação gráfica. Claro, às vezes Besson exagera nos efeitos e no absurdo da situação – o “pendrive” no final arranca algumas risadas – mas até mesmo momentos como esses se situam dentro da proposta. Lucy é tolo em vários momentos, mas nunca deixa de ser divertido e até toca em algumas interessantes noções dentro da sua trama.

Outra coisa que funciona bem é a atuação de Scarlett Johansson. Ela passa por vários estágios: no inicio, é uma “periguete” abobada; depois, por alguns minutos é a heroína durona dos filmes de Besson; e então se torna uma figura única, cada vez mais diferenciada das suas personas anteriores. Mesmo assim, ela mantém a personagem humana e centrada – há uma grande cena na qual Lucy fala com a mãe ao telefone e Besson filma Scarlett em close. Ali, ela demonstra seu crescimento como atriz ao registrar toda uma gama de emoções durante a conversa, sendo a maior delas a consciência de que, apesar de ainda amar a mãe, elas já não têm mais praticamente nada em comum. A distância da personagem do mundo ao seu redor até rende momentos de humor, especialmente quando Scarlett começa a dividir a cena com o ótimo ator Amr Waked, que faz o policial Pierre.

É Scarlett quem ancora o filme e dá vida às loucuras de Luc Besson. Se num filme o diretor é um deus, então aqui ele teve a oportunidade de levar a ideia de criar uma nova mulher, o que parece ter sido sua ambição em outros trabalhos da sua carreira, às ultimas consequências. Se analisado com rigor, seu filme não faz sentido e em alguns momentos provoca riso, mas é uma peça vibrante de cinema repleta de imaginação visual e energia. É um filme curto, louco, imprevisível e que não se encaixa facilmente em nenhuma classificação, o tipo de obra meio difícil de encontrar hoje em dia.

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