“Mamma Mia!” abraça o camp com vontade, e isso ninguém pode negar. Não dá para levar a sério um filme que faz Meryl Streep se contorcer, deitada, sobre uma porta de madeira, enquanto canta “por que, por que eu te deixei ir?”, ou que a coloca em um navio na melhor pose de “rainha do mundo” ao som de “Money, Money, Money”. Ao mesmo tempo, são esses (nem tão) pequenos momentos protagonizados pela estrela os grandes responsáveis pelo filme funcionar tão bem para quem tem tanto apreço pelas músicas que embalam essa história.

Dirigido por Phyllida Lloyd (que depois deu o esperado terceiro Oscar de Streep com o – esse sim, totalmente duvidoso – ‘A Dama de Ferro’), “Mamma Mia!” é a adaptação de um espetáculo da Broadway que usa as canções do grupo sueco Abba para contar a surreal história da garota que, sem saber quem é seu pai, resolve convidar três ex-affairs, por assim dizer, de sua mãe ao seu casamento.

Tudo isso serve apenas como pretexto para transformar as salas de teatro, e, no caso desta produção aqui, de cinema em um grande karaokê. A fotografia é exageradamente colorida em uma Grécia que, não fossem as paisagens e a menção a Afrodite (além de um certo estereótipo para com os figurantes), não teria muita razão de ser na trama, assim como muitos outros aspectos técnicos. O que enriquece, mesmo, a experiência é a trilha sonora, recheada de petardos do grupo sueco, da meiga “Honey, Honey” à dramática “S.O.S.”.

Os atores parecem saber disso e, aqui, surgem mais relaxados. Se Amanda Seyfried se vale do carisma e da bela voz para vender Sophie como uma jovem “sem noção, mas gente boa”, os veteranos não tentam dar tanta profundidade a seus personagens: Julie Walters e Christine Baranski estão deliciosamente caricatas e divertem em seus números musicais, enquanto Colin Firth turbina a pose sisuda do Mark Darcy que defendeu nos filmes da trilogia “Bridget Jones”; Stellan Skarsgard tem pouco a fazer, mas tem bons momentos graças à química com Julie Walters, e Pierce Brosnan quase consegue disfarçar sua cantoria desafinada com o charme que já lhe é característico.

Mas, não dá para negar que o filme pertence a Meryl Streep. Em 2008, a atriz estava vivendo uma nova fase da carreira, finalmente reconhecida como “estrela de cinema” após o sucesso estrondoso de “O Diabo Veste Prada”, dois anos antes. Aqui, com números de bilheteria ainda maiores, Meryl se diverte e mostra, mais uma vez, que um de seus grandes talentos é rir de si mesma. E, quando o filme exige mais dela, como é o caso da sequência de “The Winner Takes it All”, o resultado é um deleite para qualquer fã, a despeito do mise-en-scène inexplicável da cena.

Para quem não é fã de Abba, “Mamma Mia!” provavelmente é das torturas mais cruéis. Agora, se músicas como “Dancing Queen” e “Take a Chance On Me” fazem parte das “mais mais” do seu repertório, é certo que a energia que elas imprimem vão fazer os inúmeros defeitos narrativos e estéticos do filme de Phyllida Lloyd parecerem, simplesmente, uma forma de assumir e vestir a camisa do trash por natureza.

 

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