Quase 11 anos depois, Gretchen Wieners teve a sua vingança. “Barro”, a “gíria da Inglaterra” que a personagem de Lacey Chabert em Meninas Malvadas (2004) tentava a todo custo fazer pegar, entrou para o léxico popular. Não é a primeira nem será a última coisa que essa comédia altamente satírica fará entrar na consciência coletiva e você não precisa acreditar em mim: digite “Mean Girls” (o título original do filme) no Tumblr e tenha a mínima, mínima noção de como esse filme gerou um culto entre a geração que foi adolescente na década de 2000.

Se foi justificado? Claro. O roteiro extremamente ágil e pontual de Tina Fey (“30 Rock”) pede para ser citado dezenas de vezes. Sua habilidade de colocar uma verve surreal mas totalmente crível em um cenário comum (no caso, uma high school americana) é uma das coisas que ainda leva fãs do mundo inteiro a comemorar o dia 3 de outubro (sem spoilers, façam aquela pesquisa no Tumblr). Com esse filme, Fay consolidou seu talento de tal forma que conseguiu a plataforma para alçar voos fora do “Saturday Night Live”, programa que a consagrou.

“Meninas Malvadas” trata da chegada de uma aluna nova (Lindsay Lohan pré-rehabs) em uma escola dominada por um grupo de garotas populares, apelidadas de “Plásticas”, interpretadas por Chabert, Rachel McAdams antes da fama, e Amanda Seyfried em seu primeiro papel no cinema. Desajustada, a personagem de Lohan se aproxima de dois alunos carismáticos mas impopulares (Lizzy Caplan e Daniel Franzese), que a convencem a entrar para o grupo das “Plásticas” e sabotar sua influência na escola.

O primeiro trunfo do filme é nos dar um ambiente totalmente familiar (a high school) e constantemente desafiar nosso conhecimento sobre ele. Temos a garota nova, o garoto paixonite, o menino sensível, a rainha do baile… Enfim, temos um filme do John Hughes todinho… Que se mostra às avessas quanto mais tempo passamos com esses personagens. Ao tentar mostrar o diverso espectro de pessoas que se juntam em uma escola para crescer e se descobrir, o roteiro de Fey faz provavelmente o melhor uso de estereótipos desde “Clube dos Cinco” (1985), deixando margem para várias interações marcantes.

Todo o elenco é competente e, apoiado na direção não intrusiva de Mark Waters, dá o melhor de si neste filme, que foi o ponto alto da carreira da maioria dos envolvidos. No entanto, Rachel McAdams, antes de ter o nome que tem hoje (afinal, esse longa precede “Diário de uma Paixão”), entrega uma Vilã com V maiúsculo ligada no 220, com altas doses de cinismo e com uma carga de histeria que parece logo abaixo da superfície. Sua Regina George teria tudo para entrar em overdrive e destoar do resto do filme que, situações surreais à parte, é bastante próximo da realidade do jovem; no entanto, McAdams merece pontos por dar-lhe nuances que tornam a sua evolução na trama ainda mais ressonante.

Há quem argumente que a premissa de um grupo dominante de meninas tem um precedente em “Atração Mortal” (1989) – que, no quesito cinismo, faz “Meninas Malvadas” parecer um filme da Disney. No entanto, “Atração Mortal” é muito mais surreal e pende muito para o humor negro. O universo de John Hughes ainda dialoga melhor com a comédia de 2004, principalmente nas entrelinhas.

Por trás de todas as referências pop com tirada de sarro e da acidez dos diálogos, o roteiro ainda está preocupado com questões que nunca deixaram de ser atuais para a juventude, e não só a americana: a busca por ser aceito, o quanto devemos mudar para que sejamos notados e apreciados, o poder que nossas escolhas têm de nos moldar, o quanto a experiência escolar pode ser transformativa, os valores aos quais devemos lealdade… Se um filme consegue nos fazer pensar sobre isso ao mesmo tempo em que nos faz rir, esse filme é muito, mas muito “barro”.

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