Uma frase de Simone de Beauvoir dá conta de que as mulheres devem se manter vigilantes em seus direitos, pois qualquer acontecimento da história vira desculpa para a retirada dos mesmos. É uma ideia que ressoa em minha mente enquanto acompanho a repercussão de movimentos contra o assédio sexual na indústria do cinema como o #MeToo e o Time’s Up, e, especialmente, a repercussão do (esperado) backlash, expresso na carta “pelo direito de importunar” assinada por Catherine Deneuve e outras francesas.

Vi interpretações que considero interessantes, como aquelas que afirmam que o embate entre as campanhas norte-americanas e a carta francesa são expressões de um embate entre gerações diferentes de feminismo. Seguindo essa linha de raciocínio, as feministas da Segunda Onda seriam do time de Deneuve e companhia, colocando em primeiro plano a liberdade sexual como conquista da mulher e, por conseguinte, temendo o controle dos corpos em nome do “politicamente correto” que as vitimou no passado, numa época em que o prazer da mulher no sexo era muito mais tabu que hoje.

Já o time do Time’s Up, notadamente mais jovem, teria um alinhamento maior com a Terceira Onda. Esta seria formada por mulheres que cresceram usufruindo dos benefícios conquistados por gerações anteriores, mas também questionando vários dos posicionamentos da Segunda Onda. Nesse processo, um feminismo mais plural encontrou espaço para entender as experiências das mulheres como muito mais variadas que a visão homogênea vinda dessas gerações anteriores.

É uma interpretação tentadora, embora me pareça incompleta. Grosso modo, a Segunda Onda focou no direito da mulher trabalhar em condições dignas tanto quanto em minar o controle sobre o corpo e sexualidade da mulher – coisa que a carta de Deneuve e companhia tanto frisam, embora de forma capciosa, pois pressupõe uma necessidade ou mesmo obrigatoriedade de a mulher encontrar prazer no assédio.

O BURACO É MAIS EMBAIXO?

O buraco me parece mais embaixo. O que realmente me preocupa é quando a carta das francesas diz temer uma onda puritana por conta de tantas denúncias contra assediadores na indústria, quando revela um temor entre igualar um beijo roubado e um estupro, ou quando reafirma que as meninas devem ser educadas para serem contestadoras, e contestar perpassa apenas uma forma de lidar com o assédio e o abuso sexual – com permissividade uniforme.

Essas colocações parecem ignorar a individualidade de cada mulher, para quem um beijo roubado, dependendo de como foi roubado, pode conter uma carga de violência simbólica inominável. Parecem ignorar também que o contexto de relações desiguais de poder como as que vimos nos relatos contra Harvey Weinstein são igualmente agressivas, uma vez que mulheres se dirigiam a ele em situações estritamente profissionais e eram solicitadas para massagens sem roupa, sexo oral, sexo com múltiplos parceiros ou, no pior dos casos, sexo com penetração não consensual.

Ignoram que homens são colocados em posição de poder com muito mais frequência que mulheres, mesmo nos ambientes “artísticos”. Estes são apenas hipoteticamente “transgressores” enquanto artistas, pois reproduzem estruturas sociais de abuso muito mais tradicionais do que se imagina, principalmente se levarmos em consideração o contexto do cinema norte-americano, no qual criatividade e produção em larga escala andam de mãos dadas. É, grandes poderes trazem grandes responsabilidades… e uma boa dose de falta de noção. Essa equação é um dos fatores que abre as portas para o assédio e o abuso sexual.

ELAS TAMBÉM QUEREM SER LIVRES

Qualquer pessoa que já passou por alguma situação de assédio ou abuso sabe bem que a descarga de ansiedade é uma sombra tremenda: não saber se/quando o outro vai lhe subjugar, não saber se/quando o abuso acabou ou se ele se repetirá, não saber se a culpa é sua. Para além do ato abusivo em si, a ansiedade violenta. É dessa forma que até mesmo a possibilidade de uma cantada pode machucar, ou que uma passada de mão na coxa pode levar uma mulher às lágrimas. Não todas as mulheres, é verdade, mas homens não deveriam se sentir tão confortáveis em jogar esse tipo de roleta-russa a ponto de sequer cogitarem um desconforto no outro.

É um pouco mais fácil pensar onde estão os limites nas interações entre homens e mulheres em ambiente profissional. Mas quando o ambiente profissional é também artístico, as fronteiras são extremamente fluidas; afinal, a criatividade está intimamente ligada à quebra de paradigmas, e nisso entram as condutas sociais (e sexuais) não tradicionais. Esse é um ponto que a carta das francesas toca, e que muito mobiliza seus defensores: a arte é livre, não se prende a regras, e o artista deve ser ousado.

É lindo, mas tente dizer isso a uma operadora de câmera assediada por estar usando uma calça de malhar ou shorts num set porque, enfim, ela trabalha carregando peso o dia inteiro e precisa de uma roupa prática. Sim, esse tipo de coisa acontece. Duvida? Então confere esse resumão trazido pela assistente de câmera e idealizadora do DAFB (Coletivo das Diretoras de Fotografia do Brasil) Luciana Baseggio durante uma mesa-redonda sobre mulheres na cinematografia em 2017. A “liberdade de importunar” não parece tão legal assim…

Esse ponto da carta esquece que o cinema é uma arte dependente de amplo trabalho especializado e em equipe. Esquece também que a criação do filme passa por processos nada “belos”, com pessoas levando equipamento pesado de um lado pro outro, construindo coisas, lidando com dispositivos eletrônicos, revisando roteiros, revendo planilhas de custos ou documentos de logística etc.

Somando-se a isso o fato de que mesmo um filme de baixo orçamento deve obedecer a cronogramas, tanto melhor se todos se sentirem motivados e focados em apenas uma coisa: fazer seu trabalho e trazer a visão artística à tona. E quando se está preocupado se passarão a mão na sua bunda, ou se você será encurralado num cantinho mais deserto por alguém com quem você não quer estar só, fica bem mais difícil manter esse foco. De fato, é comum que a produtividade caia. É também para as profissionais nada glamorosas que passam por isso que um Time’s Up da vida se dirige, e a carta de Deneuve e companhia parece ignora-las.

Mais que isso, ignora que as profissionais mulheres também podem ser forças criativas. Se pararmos para pensar em atrizes, roteiristas, assistentes de direção, diretoras de fotografia e outras atividades mais explicitamente “artísticas”, o assédio sexual tolhe a liberdade delas. O avanço sexual não consentido deixa a vítima acuada, porque é isso que qualquer ser humano que se sente em perigo faz. E não nos iludamos de achar que o assédio é apenas uma cantada mal dada, que vem, não faz efeito e parte; homens em posição de poder tendem a insistir. Muito. Eles podem se sentir livres para criar tanto quanto para assediar, mas as artistas do mesmo meio apenas perdem tempo e espaço para explorarem seus potenciais criativos quando passam por tal situação, isso considerando a “melhor” das hipóteses – afinal, hoje sabemos mais sobre as carreiras que foram totalmente destruídas pelo fato das mulheres não cederem aos seus assediadores e abusadores.

Pensando de maneira ainda mais macro, podemos ponderar também quando um ambiente libertário e transgressor virou sinônimo de alguma forma de exploração sexual. E, se virou, porque será que só vemos denúncias contra homens? Se é “normal” abusar, passar da conta, trilhar o ilegal ou flertar com ele nessa seara, porque isso não se estende a todos os artistas, independente de sexo? Mais que isso, porque essa pretensa liberdade sexual criativa se parece tanto com o tipo de estrutura de abuso de poder tão comum na sociedade atual, em todas as camadas socioeconômicas e em contextos nada artísticos? Essa é, definitivamente, uma desculpa que não cola mais.

BUSCAR REFLEXÃO ONDE SE PODE FLORESCER UMA

Ainda que um pouco de retórica destrua boa parte da carta das francesas contra um #MeToo e iniciativas similares, buscar reflexão onde se pode florescer uma é mandatório. É válido, por exemplo, que a carta tenha trazido alguma preocupação em diferenciar assédio e abuso sexual, dando a eles o devido peso. Assédio, dependendo da legislação – e lembremos que, nos EUA, os Estados podem ter leis diferentes e, no geral, as leis norte-americanas e francesas diferem – é um termo que tende a se referir a avanços sexuais indesejados ou pedidos de favores sexuais.

Já o termo abuso sexual tende a expressar condutas vistas como mais graves, como estupro, tentativa de estupro, carícias físicas indesejadas ou abuso sexual de menores. Por mais que Deneuve e as outras 99 mulheres que assinaram a carta vejam o assédio como algo “normal”, e por mais que a carta ignore que a normalização do assédio é uma porta para o abuso, é especialmente importante que a mídia possa elucidar as diferenças e inter-relações entre um e outro no meio desse buzz.

Outra reflexão trazida pela carta das francesas é especialmente incômoda porque não nos traz respostas definitivas. Diz respeito ao caráter de “tribunal em praça pública” que as denúncias de assédio e abuso podem acabar ganhando. Como bem pontuou Margaret Atwood, isso denota o fracasso da justiça em acolher as vítimas para que elas pudessem ter direito a uma investigação propriamente dita, com juízes aplicando a lei, e não jornalistas e comentadores de redes sociais, que, a bem da verdade, não tem obrigatoriamente formação para isso.

A escritora foi bastante criticada por esse comentário, mas acho que, por um lado, entendo aonde ela quer chegar. Rose McGowan ou Paz de la Huerta não deveriam precisar de retweets ou repercussão de reportagens num The Hollywood Reporter da vida para sentirem que alguma justiça seria feita por conta dos estupros que sofreram – mas lembremos que as investigações contra Weinstein só aqueceram depois de todo o rebuliço na mídia. É uma sinuca de bico, resumindo.

Nesse sentido, a carta francesa escolhe fechar os olhos para o fato de que o Time’s Up buscará incentivar a assistência jurídica especializada para as mulheres. Mas com tanto dinheiro e influência rodando dentro dessa indústria, será possível que a justiça seja feita? Lembremos que boatos sobre Weinstein rondaram Hollywood por décadas, assim como fofocas sobre a exploração de menores por figuras como Bryan Singer e Gary Goddard. Não estamos falando de semanas, e sim décadas, torno a frisar.

A verdade é que, quando tudo isso começou, eu não esperava a derrocada de Weinstein. Também não acreditava que Kevin Spacey, Louis C. K., Brett Ratner e outros  fossem trucidados pela mídia e opinião pública. Achei que grana e fama falariam mais alto, como foi em outras épocas. Mas algo parece estar mudando dentro de uma indústria (ou, se preferir, dentro dessa atividade artística) que se consolidou tendo os abusos de poder como pano de fundo.

Mais que lamentar tudo o que nunca será realizado por esses homens, me pergunto quantas forças criativas poderão surgir por conta dessa mudança; afinal de contas, sempre poderemos rever um filme produzido por Weinstein ou estrelado por Spacey se assim o desejarmos, mas nunca poderíamos ver um filme feito por uma mulher que jamais chegou a dirigi-lo porque foi estuprada no seu primeiro estágio na área e desistiu da carreira, por exemplo. Isso tudo me faz pensar em outra frase de de Beauvoir, uma que fala que querer ser livre é também querer ver livres os outros. Talvez essa chacoalhada torne a todos, homens e mulheres do cinema, mais conscientes de que a liberdade é também uma responsabilidade.

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