Pior tipo de filme ruim é a comédia ruim. Tudo soa constrangedor: ver aquelas pessoas tentando fazer graça com vozes pensadas para ser engraçadas, piadas sem graça, uma história elaborada com o intuito de gerar gargalhadas, toda uma equipe buscando acertar (pelo menos, há uma tentativa). O silêncio da plateia do cinema gera um desconforto ainda maior por ver aquilo desmoronar na hora por não causar o efeito esperado.

“Mortdecai – A Arte da Trapaça” traz tudo isso com um agravante: Johnny Depp. Nunca antes, em toda sua carreira, o eterno Jack Sparrow esteve tão mal, patético e vergonhoso. É tão vexatório que será difícil achar algum fã do ator que não concorde com a afirmação após ver esse desastre.

A adaptação do livro escrito por Kyril Bonfiglioli para as telas traz o personagem-título como um misto de Austin Powers, Inspetor Closeau e James Bond envolvido em uma trama sobre o roubo de uma pintura com um misterioso segredo escondido nela. No meio de tudo isso, Mortdecai terá que convencer a esposa a voltar a ficar com ele após decidir ter um bigode.

Percebe-se a vontade de fazer um projeto bem caricatural desde os segundos iniciais. O risco de se errar o tom é imenso nesse tipo de projeto devido a tênue linha entre o acerto do tom e o exagerado, sendo esta última a marca de “Mortdecai”. Todas as insistentes piadas sobre o bigode do protagonista se esgotam com 15 minutos de filme, Jock (Paul Bettany) virar o saco de pancadas parece saída do “Chaves” e, claro, piadas escatológicas não poderiam ficar de fora. As atuações complementam esse cenário desastroso sendo um desperdício ver atores de qualidade como Gwyneth Paltrow e Ewan McGregor nesta bomba.

Johnny Depp, entretanto, é um caso à parte. Se o sonambulismo de “O Turista” era a pior atuação da carreira do astro, ao, mais uma vez, estar de cara limpa, o ator se supera e mostra a saturação do estilo de atuação dele. Se antes conseguia construir personagens excêntricos com ótima desenvoltura e personalidade, agora, reside a acomodação de se auto-imitar. Isso torna Mortdecai um sujeito insuportável, pois apenas soa como um babaca, nem um pouco digno de valer a pena acompanhá-lo por todos os excessos da forma afetada como o astro compõe o personagem. Ver as cenas nas quais corre e conversa sozinho em fuga de um vilão ou assistir o depoimento dele à polícia em que pergunta sobre uma tradicional saudação americana são tão ruins que chegam a ser inacreditáveis terem perdido tempo gravando.

Nem mesmo todo o cuidado de figurino e direção de arte consegue fazer “Mortdecai – A Arte da Trapaça” ter algum valor. É um filme constrangedor, digno de ser forte candidato a pior do ano e para envergonhar de vez Johnny Depp, um ator brilhante jogando a carreira pelo ralo.

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