Enigmática. Bonita. Estrela em ascensão. Vítima de uma chacina.

Há várias formas de lembrar-se de Sharon Tate, infelizmente, a que mais se popularizou foi a tragédia que envolveu sua morte. Ela se tornou indissoluvelmente conectada ao crime que a levou, o que deixa em segundo plano a carreira promissora que construíra e, mais do que isso, apaga de alguma maneira quem foi Sharon Tate, resvalando a uma caracterização que não era sua.

Mais do que um símbolo ou um rostinho bonito, Sharon Tate marcou a trajetória da cultura popular norte-americana. Fato tão consistente que sua contribuição e fascínio permanecem influenciando cineastas mesmo após 50 anos de sua morte.

Sharon Tate cresceu em uma família militar no pós-Segunda Guerra Mundial. Seu pai, Paul Tate, era coronel do Exército dos Estados Unidos, o que levava a família a mudanças anuais. De acordo com “Sharon Tate: Recollection” – livro escrito pela irmã da atriz, Debra Tate -, esse estilo de vida tornou a atriz tímida, insegura e com pouca capacidade de fazer novas amizades. Entretanto, na mesma obra, é confirmada a gratidão pela disciplina e a formação rigorosa como fora criada, muito importantes para o estabelecimento de sua carreira.

Em 1959, Sharon ganhou cinco concursos de beleza, incluindo Miss Tri-Cities, Miss Frontier Days, Miss Autorama, Miss Water Follies e Miss Richland no estado de Washington. Nesse último concurso, Tate disse aos juízes que planejava estudar psiquiatria na faculdade. Ela esperava competir pelo título de Miss Washington, mas, antes disso, seu pai foi transferido para a Itália.

Em Vicenza, além de rainha do baile de formatura, a jovem viu se abrirem as portas do mundo do cinema. Sharon Tate e alguns amigos foram escolhidos para fazer figuração no filme “As Aventuras de um Jovem”, do diretor Martin Ritt a partir do livro do mestre Ernest Hemingway.  Nessa ocasião, ela conheceu Richard Beymer, estrela de Hollywood em ascensão após brilhar como Tony no oscarizado “Amor, Sublime Amor”. Os dois engataram um noivado e ele a encorajou a seguir carreira nos cinemas ao apresentá-la ao agente, Harold Gefsky.

Nos primeiros anos como atriz, Sharon Tate foi confinada à televisão. Ela participou do seriado “A Família Buscapé”, como a secretária Janet Trego. Utilizando uma peruca escura – para não ser reconhecida antes de ter uma grande estreia em Hollywood – sua personagem encaixava-se no estereótipo de “bonita, mas tolinha”, o que ofereceu a Tate um timing cômico e leveza na interpretação, características primordiais para o desenvolvimento como atriz e da sua autoconfiança.

Nesse mesmo período, os passos da atriz passaram a ser acompanhados de perto pelo produtor Martin Ransohoff. Aos 20 anos, ela assinou um contrato de sete anos com a MGM e passou a ser literalmente preparada para ser uma estrela. Durante três anos, ela imergiu em aulas de atuação, voz, canto e musculação.

Em uma entrevista em 1968, Sharon Tate revelou que essa fase foi como uma prisão: era proibida de sair à noite, de ir ao cinema, ao teatro, ser fotografada em público, entre outras coisas. Além disso, não tinha controle sobre sua agenda diária ou a direção de sua carreira.

Quem também tentava manter o controle sobre ela eram os diretores com quem trabalhava e os editores de revistas que procuravam encomendar histórias sobre si. Durante boa parte de sua caminhada artística, os homens da indústria cinematográfica tentavam encaixá-la na visão de “símbolo sexual”. Quando questionada sobre isso, Tate reagia com desdém, escondendo um pouco da sua insegurança.

1967 foi o ano em que os Beatles lançaram o clássico “Sargent Peppers Lonely Hearts Club Band” e Che Guevara acabou morto na Bolívia. O ano também representou o começo a jornada ascendente da carreira de Sharon Tate com o sucesso da fábula de terror “O Olho do Diabo”.

No longa dirigido por J. Lee Thompson, ela interpreta uma bruxa misteriosa que vive em um castelo e aterroriza uma família por meio de rituais estranhos. O que mais chama atenção é a beleza fascinante da atriz: seus cabelos e olhos se destacam na fotografia em preto e branco aliada à maquiagem escura e pesada utilizada para enfatizar o poder de sedução de Tate. A atriz se mostra genuinamente hipnotizante e elegante, demonstrando a seriedade de seu trabalho. Apesar de não ter tantas falas quanto seus colegas, o desempenho dela foi crucial para o tom etéreo que a trama assume.

Antes do lançamento de “O Olho do Diabo”, ainda em 1967, Tate participou de “Não Faça Onda”. Uma comédia em que ela deu vida a Malibu, uma salva-vidas que salva Tony Curtis do afogamento e o distrai de Claudia Cardinale. A imagem de “bonita, mas tolinha” permanecia a assombrando, mas a atriz se mantinha determinada em deixá-la para trás.

Ainda em 1967, Sharon Tate estrelou “A Dança dos Vampiros” de Roman Polanski. O filme se tornou um grande sucesso de público e foi crucial para o estrelato de Tate e a união do casal.

Polanski aceitou trabalhar com ela desde que usasse uma peruca vermelha para a personagem. Inicialmente, o diretor não estava convencido de sua potencialidade para o papel, demonstrando pouca paciência com Tate nas filmagens. Entre suas ações mais famosas está a cena em que chegou a rodar 70 vezes até dar-se por satisfeito.

A insegurança e falta de experiência da atriz o incomodavam. Ela, porém, reagiu mostrando que poderia assumir às rédeas e dar o toque de ação e vivacidade em sua interpretação os quais o roteiro exigia.

O próximo passo na carreira cinematográfica de Sharon Tate seria seu começo como atriz de drama. Inspirado no best-seller de Jacqueline Susan, “O Vale das Bonecas” de Mark Robson rendeu a atriz sua primeira e única indicação ao Globo de Ouro como nova estrela do Ano.

No podcast “You Must Remember This”, sobre histórias esquecidas em Hollywood, a escritora Karina Longworth dedicou 12 episódios à vida de Tate e, em um deles, ela destaca a animação da atriz com a identificação e proximidade de sua personagem, Jennifer North. Os paralelos com a própria experiência de Tate devem tê-la atraído ao papel e influenciado na sua performance. Ela mescla novamente o estereótipo de “bonitinha, mas tolinha” a uma vulnerabilidade comovente de quem quer ser valorizado e apreciado.

Na narrativa, North é uma garota bonita do interior que sonha em fazer fama em Hollywood, mas desprovida de talento e nunca levada a sério, acaba recorrendo à pornografia para pagar a estadia de seu marido doente em um sanatório.

“O Vale das Bonecas” recebeu duras críticas, muitas delas carregadas de teor misógino de uma produção crítica que não conseguia acompanhar o enredo de três mulheres que vão se perdendo por conta do estresse da ambição e do vício. Prova disso é que o filme foi um dos maiores sucessos de 1967e tornou-se um cult.

A última produção de Tate foi “12+1”, uma comédia esquecível que também conta com Orson Welles no elenco. Porém, o último filme estrelado por Sharon Tate, lançado enquanto estava viva, foi a paródia de James Bond: “The Wrecking Crew”. Uma das cenas da obra é citada por Quentin Tarantino em “Era uma vez em Hollywood”.

Para este papel, Sharon Tate praticou artes marciais com Bruce Lee e evidenciou seu progresso como atriz de comédia desde “A Família Buscapé”. Mesmo estando em ascensão, sua capacidade na produção é notória: ela rouba o filme para si e é a melhor parte da paródia.

No final de 1968, Sharon descobriu que estava grávida. Ela e Polanski queriam uma casa maior e encontraram uma em 10050 Cielo Drive. Os inquilinos anteriores foram Terry Melcher, filho de Doris Day e Al Jorden. Os Polanskis mudaram-se para lá em fevereiro de 1969, Sharon chamou a casa de “casa do amor”. Como o destino, nessa mesma casa, não muito tempo depois, Charles Manson e sua “família” interromperiam sua trajetória.

Sharon Tate se foi cedo demais para sabermos quais produções Hollywood ainda reservaria a ela. Dona de uma beleza fascinante e de um talento em progresso, resta apreciar seu trabalho e lembrar que para além da tragédia que cerca sua morte, há uma carreira.

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