É curioso que o filme Mulheres ao Ataque se venda como uma celebração da força feminina e da capacidade de superação delas, quando na verdade essa comédia só se alimenta de estereótipos e reforça preconceitos há muito arraigados nas mentes de mulheres e homens. Na superfície, é um filme sobre mulheres dando a volta por cima; na realidade, é sobre um bando de mulheres incapazes de fazer qualquer coisa que não seja falar e pensar num homem.

O homem em questão é Mark King (interpretado por Nikolaj Coster-Waldau, o Jaime Lannister de Game of Thrones). No início do filme o vemos em clima de romance com Carly (Cameron Diaz), uma advogada de um grande escritório em Manhattan. Então, depois de alguns minutos, e no único lance criativo concebido pelo diretor Nick Cassavetes e seu montador em todo o filme, ocorre um corte súbito e vemos Mark ao lado de outra mulher. Desta vez, a sua verdadeira esposa, Kate (Leslie Mann).

Com o tempo, a vida dupla do safado gera desconfianças em Carly, e ela e Kate acabam se conhecendo de forma embaraçosa. Porém, surpreendentemente, as duas se tornam amigas – “as amigas mais estranhas de todos os tempos”, segundo Carly. E ao investigarem um pouco mais as escapadas de Mark, descobrem que ele tem ainda outra amante, uma loiraça escultural chamada Amber (Kate Upton). É então que as três decidem se unir e planejar uma vingança contra Mark.

Trata-se de mais um projeto cômico da estrela Cameron Diaz que, ultimamente, demonstra interesse cada vez maior no gênero – apesar dela ter até feito alguns trabalhos interessantes como atriz dramática. Pena que o roteiro pedestre – de autoria de uma mulher, Melissa Stack, o que é deprimente – e a direção apagada de Nick Cassavetes afundem o projeto. O cineasta, aliás, é filho do lendário John Cassavetes, o pai do cinema independente americano e realizador de alguns dos melhores filmes produzidos nos anos 1960 e 1970 nos Estados Unidos. Já seu filho Nick ganha a vida alternando comédias tolas como essa com dramas açucarados, provando que talento não é hereditário.

Cameron Diaz pode ser a estrela, mas é ofuscada em todas as cenas pelo verdadeiro motor do filme, a atriz e comediante Leslie Mann. Ela é responsável pelas (poucas) risadas que o filme provoca, e a atriz também é ajudada pelo o fato de Kate ser a única personagem mais ou menos aprofundada do roteiro. Percebe-se que a intenção da roteirista era de caracterizar Carly e Kate como dois estereótipos femininos: a primeira é a mulher bem sucedida e moderna, enquanto a segunda é a dona-de-casa meio maluquinha e que não se cuida (e sem filhos, vale observar, pois a presença deles complicaria a trama). É esta última quem dirige a narrativa, e o filme visa mostrar a sua transformação. Para a terceira personagem, Amber, sobrou outro estereótipo, o da loira burra. Aliás, a modelo Kate Upton, como atriz, é uma ótima… “corredora em câmera-lenta na praia”.

A princípio a vingança delas contra Mark é bem infantil, rendendo as tradicionais piadas com desarranjos intestinais e funções corporais – Coster-Waldau paga o maior mico da sua carreira até agora, sofrendo no vaso sanitário, e sua atuação nas cenas finais é constrangedora. Depois, as mulheres partem para atacar Mark onde realmente dói: nos seus negócios. E aí reside a verdadeira armadilha do roteiro. Nenhuma personagem feminina do filme faz outra coisa além de perseguir ou falar de homens. A personagem de Diaz aparentemente nem trabalha de verdade, já que em dois momentos da trama ela parece largar tudo (!) para viajar até Miami ou às Bahamas acompanhando suas amigas na espionagem a Mark.

Ao fazer das suas personagens figuras tão limitadas que vivem em função do homem, Mulheres ao Ataque reduz a condição feminina às suas mais rasas caricaturas. E ao arranjar para a personagem de Cameron Diaz um interesse amoroso na forma de um galã inexpressivo, o roteiro deixa claro que o realmente importante para ela é arrumar “um homem para chamar de seu”.

O que sobra é um filme de ritmo até meio arrastado, que só se acelera em alguns momentos, e no qual só algumas piadas funcionam. Esse é outro pecado da produção: com o velho tema da guerra dos sexos, era possível fazer um filme realmente ácido e divertido, ao invés de uma comédia insípida que se contenta em reciclar situações e piadas. Em certo momento perto do final, as três mulheres até cogitam parar com a vingança. Talvez se as personagens de Mulheres ao Ataque realmente tivessem ódio no olhar, a experiência, embora não menos caricata, pudesse ser mais divertida.

Nota: 2,5

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