Quando você pensa no século XX, o que de mais vivaz vem a sua mente?  Uma verdade concreta é que o século vigente é fruto da composição e explosão de sensações obtidas no decorrer dos 100 últimos anos e ainda se faz necessário recordar. O grande questionamento poderia ser o porquê, mas, além disso, como retratá-lo de uma forma afetuosa, entendível e sucinta?

Bem, o século XX nos abriu portas para muitas coisas até então desconhecidas. O homem foi capaz de sair do planeta Terra e pisar a Lua (ou não), sua ambição também o levou a dividir o mundo e quase destruí-lo com duas grandes guerras e uma bomba nuclear. Conhecemos o estado de Israel, o bebê de proveta, Beatles, a geração beatnik, a libertação sexual dos anos 1960, o movimento hippie, o movimento punk, a AIDS, computador, celular, internet, televisão e tantas outras coisas que sem elas, não saberíamos distinguir como seria nossa existência.

Fazendo um mix das influências da década de 70 na contemporaneidade, Mike Mills fez um drama leve, divertido, calcado sobre a relação entre mãe e filho, e, as mulheres que cercam a convivência de Jamie (Lucas Jade Zumman), abordando discussões sobre o feminismo e como podem ser as mulheres em diferentes fases e ao longo das décadas de existência. A trama se constrói de maneira híbrida, subdividindo o tempo no presente da narrativa e no passado da mesma, o que oferece ao telespectador dinamicidade e um entendimento maior sobre quem são os personagens.

O filme trata de uma autobiografia de Mills, que quis retratar a mãe e figuras femininas que demarcaram a sua infância. O roteiro dinâmico acompanha o crescimento de Jamie e a relação construída entre ele e as mulheres que o cercam, acrescentando o quanto estas influenciaram no seu amadurecimento ideológico. É interessante notar que a obra decorre em um intervalo de tempo linear e que nos contextualiza na década de 70, dessa forma, não é o crescimento físico de Jamie que se acompanha, mas o ideológico. Cercado por mulheres com inúmeros e distintos defeitos, mas que possuem características fortes e regulares, Jamie acaba por absorvê-las e construir sua maneira de enxergar a vida distinguindo os caracteres bons e ruins delas.

Ambientado na Califórnia da década de 70, o hibridismo apresentado ocorre pela contextualização que se expressa na obra. O filme se apropria do cenário político, econômico e cultural do intervalo de tempo que seus personagens estão imersos (1936-2000), a fim de construir um pano de fundo que sirva de apoio para à narrativa. Mills arquiteta sua obra sob histórias.

Descobrimos quem são os personagens, porquê se encontram assim no tempo presente, de onde vieram e qual o contexto em que foram gerados através de flashes, que montam o hibridismo, carregados de filmagens reais do período apresentado, como as cenas do momento de transição da presidência de Jimmy Carter para Ronald Reagan, a queda de Gerald Ford na saída do Air Force One e as fotos do cenário punk da época. Além de nos situar na obra, auxiliam na representatividade do abismo de gerações existente entre Dorothea (Annette Benning) e seu filho Jamie.

Esse abismo preocupa a mãe, que não se sente conectada ao filho e procura em mulheres próximas, que acredita ser confiáveis, a resposta para essa distância. É um período histórico de mudanças, que acaba por ser representado nesta relação, evidenciando uma mãe preocupada com a criação do filho adolescente em meio aos movimentos culturais que incidiram neste período. E aqui é interessante ressaltar que mais do que um filme sobre relação familiar parental, é uma obra que abarca a sororidade.

A mãe não busca uma figura paterna ou masculina para pedir ajuda, embora Jamie afirme que ela sempre busca ter a presença masculina na vida dele, mas nas mulheres que frequentam a sua casa, que moram com eles. Outro ponto interessante, é que estas mulheres são mais novas que ela e possuem um método de vida totalmente diferente, também. Em momento algum, a conversa entre elas é levada para o lado romântico, mas se mantém próximo ao cotidiano.

Os enquadramentos, ao envolver o núcleo adulto, estão sempre mais constituídos por mulheres do que por homens. É observável que mesmo na sala onde Dorothea trabalha, em que há o maior número de personagens masculinos em cena, os homens são apagados diante dela. Um ponto positivo para a direção de arte. O único homem constante é o personagem de Billy Crudup, que mora na mesma casa que Dorothea e Jamie, também. Mesmo assim, seu personagem é subserviente e coadjuvante em todos os núcleos que aparece.

Por falar nisso, as três mulheres que representam o século XX estão ótimas em cena. Annette Bening, que foi esquecida pela Academia (o longa-metragem só foi indicado a melhor roteiro original), consegue cativar e encantar em cada frame, mesmo quando não tem falas, só sua presença e expressão facial conectam ao público a mãe que quer se conectar ao filho. Fanning e Greta Gerwing, também estão ótimas como as outras duas pontas do tripé que norteia Jamie. Fanning dá a adolescente perdida e apagada a dimensão necessária para que se crie um ame ou odeie, ao mesmo passo que entende-se o seu desnorteamento e carência. Ela representa uma porcentagem dos jovens que se entregavam/entregam aos prazeres como rota de fuga a realidade.

Quanto a Gerwig, que realmente é a personagem mais problemática da trama, há uma demora para que se crie empatia e entenda o papel dela na história, e, embora as inserções dela na vida de Jamie aumentem, ela se mantém constante na obra, sem grandes crescimentos. Entretanto, o seu drama particular é um ótimo arco. O contexto em que a personagem se insere é, de certa forma, enriquecedor. E os flashes servem para cria-lo e a compreender quem é Abbie. Ela é exatamente uma jovem que passa pelo movimento punk e vive toda efervescência que o período impôs a faixa etária. Rebelde, decidida, dramática e dona de si. Além de representar o século XX, essas mulheres simbolizam o fator humano em constante mudança. Elas são a voz de um período representativo na história mundial e que influenciou toda a geração presente.

Por fim, a atuação de Zumann é a peça mestra para compreender toda história, o jovem ator constrói um personagem, que assim como Abbie de Gerwig, traduz as inconstâncias e certezas da época. Jamie é responsável por ouvir e ver as três mulheres, de gerações distintas, e tomar suas decisões, enquanto tenta conviver com elas e compreender suas motivações.

20th Century Women

Em “Mulheres do Século XX”, Mills trabalha temáticas que poderiam se restringir aquele século, mas se sustentam no século XXI como se pertencessem a ele. Muitas deixaram o rótulo de tabu, outras enfrentam uma luta constante para serem quebradas como a liberdade sexual feminina. É o tipo de filme que merece ser visto e revisto. A história carrega um autoconhecimento que encontra nas mulheres do século XX a construção das mulheres da atualidade e sua força, mesmo imersos no machismo que perdura até hoje.

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