“Não devore meu coração” estabelece em seus primeiros minutos, que a Guerra do Paraguai apenas teve fim nos livros, pois ainda está com sobrevida na fronteira. O filme nos insere em um mundo de feridas abertas e que por ainda não cicatrizarem alimentam ressentimento e ódio, e por fim uma dor que é possível acompanhar principalmente nos corpos que descem todos os dias o rio Apa (rio que separa os dois países). Ali, todos estão presos a um rancor que acaba por alimentar um ciclo de matança e vingança constante.

Dentro desse contexto acompanhamos duas tramas, a de Joca (Eduardo Macedo) e de seu irmão mais velho Fernando (Cauã Reymond). No primeiro temos uma trama de amor proibido com elementos de misticismo, Joca é apaixonado por Basano (Adeli Gonzales, um achado), uma jovem índia paraguaia e uma espécie de futura líder de sua comunidade. Já no segundo acompanhamos Fernando, um dos principais motoqueiros de sua gangue, além de ser um grande vencedor de corridas clandestinas, Fernando tem um segredo que o atormenta.

A construção e a relações dos personagens é o que dá força ao filme. A começar pela dos irmãos, mesmo trocando apelidos carinhosos, Joca não sabe ao certo quem é o irmão. Ao espiá-lo namorando ou a distância, ele tenta decifrar Fernando, chegando a focar uma lanterna no rapaz que está no escuro na cozinha. Mas fica claro mesmo que a referência de sua vida é o jovem motoqueiro, quando nos deparamos com o menino tomando cerveja no jantar.

Fernando que além de irmão mais velho é uma espécie de figura paterna pra Joca, também é um rapaz claramente atormentado, e que disfarça sua insegurança através de sorrisos forçados ou com rompantes de fúria sobre Joca e a própria mãe relapsa. Note seu desconforto e descontentamento quando é lembrado que tem um “coração de pedra” (basta observar sua mudança repentina de humor e o semblante no rosto), Cauã Reymond não faz feio, e evidencia uma evolução constante como ator.

Do outro lado da fronteira temos Basano, cercada por certa mística, a moça é chamada de “A Tatuada” e “Rainha do Apa” por ter o corpo tatuado e levar sempre consigo um discurso que esclarece sua posição diante dos colegas e de sua comunidade. Ao se autoproclamar rainha do rio fronteiriço, com seus pequenos gestos é possível observar sua coragem, liderança e uma estranha lucidez ao saber o que ocorre a sua volta, o que sempre determina suas ações futuras. Além disso, a personagem faz questão de reforçar sempre seu apreço e paixão por sua cultura, seu discurso, o orgulho de seu sangue e o que sua nação representa pra ela. Ao negar ter alguma relação com Joca, isso não representa apenas rejeição ao afeto, mas simboliza também a resistência do avanço do homem branco e sua cultura. Essa questão é até reforçada em certo momento quando ela questiona o menino e suas intenções.

O grande problema de “Não devore meu coração” e do trabalho do diretor Felipe Bragança é tropeçar em meio a suas ambições. Se por um lado o filme é competente em sua fotografia e trabalho do elenco principal, no outro se perde em sua identidade que o deixa confuso de certa maneira. Se a relação de Basano com Joca tem ares de fantasia e aventura, a de Fernando tem um ar meio western, o que não casa muito bem no fim das contas e acaba por se sabotarem. Os corpos no rio não chocam, pois são pouco explorados (circunstâncias e como chegam ali), o conflito na fronteira, entre fazendeiros e os índios paraguaios fica apenas nas entrelinhas, e a fantasia apenas encanta pelo visual, a cena dos vagalumes no rio é linda, mas a cena da espada e armadura causam estranheza pela forma absurda que elas ocorrem.

Outro ponto que prejudica, é deixar diversos elementos mal aproveitados. Basta observar a forma com que os personagens que cercam os protagonistas são utilizados, coadjuvantes que poderiam contribuir mais com a história e deixa-la mais impactante e até mesmo enriquecida. Quando ocorre algo com eles não sentimos a emoção, falta peso, um exemplo: o momento em que um dos membros da gangue de Fernando é alvejado, a cena pode até ser graficamente forte, mas não tem qualquer apelo, o personagem ali não tem relevância. E o que falar do grupo de amigos de Joca? Um desperdício de elenco mirim que tem clara referência a filmes dos anos 80, como Goonies e ET (Joca até usa moletom vermelho em certo momento), mas que são personagens que o filme não dá a mínima importância, apenas fazem vezes de acompanhante. E a ponta de Ney Matogrosso? Se fosse cortada, não faria a mínima diferença, só chama a atenção pelo cantor ali.

Entretanto ressalto a fotografia do filme que é algo que chama a atenção com seus belos planos gerais, abertos e conjuntos. O trabalho de Glauco Firpo é de se admirar. Sempre procurando mostrar os personagens e o espaço que eles se encontram, enquadrando plantações, estradas e o rio.

Ambicioso, com diversos simbolismos e referências mitológicas como o de Ilíada de Homero (O corpo sendo arrastado após uma execução), o filme, infelizmente, falha ao tentar se comunicar com quem assiste. Entretanto precisa ser reconhecido por suas boas intenções e pela força dos protagonistas.

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