Agarrada pelos braços, uma garota grita pela mãe pedindo que não seja levada embora. Ela sabe que será estuprada. Poucos metros dali, vemos sujeitos disputando um prato de comida. Sem reação, Noé observa tudo e enxerga um mundo tomado pela barbárie. Olhando para a tela, o que difere aquela situação da atual sociedade? Esse é o maior mérito do diretor Darren Aronofsky na transposição da famosa história da Bíblia. Responsável por obras como “Cisne Negro” e “O Lutador”, o cineasta utiliza a simbologia da história para fazer sutis críticas ao mundo moderno.

Por vezes, o filme cai em um discurso ecológico batido ao mostrar poluição dos rios, destruição das florestas, morte de animais. Faltava apenas James Cameron e o Greenpeace. Entretanto, ao colocar a questão da desintegração de uma sociedade pela violência como justificativa para o castigo divino a partir de ideias do Criacionismo, Aronofsky liga aqueles homens comandados por Tubalcain ao mundo em que vivemos. A banalização do crime e discursos extremistas motivados para causar separação e o ódio entre as pessoas vistas na tela pouco diferem das quais convivemos diariamente seja nas ruas ou nas redes sociais.

Esse desencanto pelos rumos da sociedade sela a união entre Noé e Deus: a luta pela extinção da humanidade. Isso motiva o protagonista até mesmo a se tornar um fundamentalista nessa missão, o que inclui não salvar uma jovem garota da morte e matar a própria família. Por mais radical que seja a atitude de extermínio de toda uma população e até mesmo dialogue com quem se combata, não chega a ser estranho o sentimento com o nosso rumo na Terra.

Quantas vezes deixamos de nos indignar pelo fato de já ter se tornado comum a violência, injustiça social, corrupção e pobreza no cotidiano de todos? Ou não temos mais esperança no nosso futuro pelo grau de intolerância alcançado pela humanidade? Dentro desse contexto, Aronofsky busca remeter ao mínimo de consciência do espectador para que tenha noção dos rumos que o ser humano ocupa no planeta como ser pensante e, em situação especial, dentro de um Universo inteiro. Tanto que a presença de Deus (ou Criador, como Noé chama) praticamente some logo depois do Dilúvio, sobrando ao protagonista as decisões pelas ações.

Se as questões do filme provocam interessantes reflexões, “Noé” falha com uma trama pouco movimentada. Momentos como a construção da arca e o pós-dilúvio deixam claro a ausência de história, o que faz bons atores como Anthony Hopkins e Jennifer Connely terem funções reduzidas. Já Logan Lerman e Emma Watson aproveitam bem os pequenos trechos de seus personagens.  Com uma atuação contida, Russell Crowe carrega o longa por trazer um Noé sempre tenso pelo peso da responsabilidade que carrega, além de se mostrar dividido entre a temência a Deus e a proteção dos familiares.

Que a Bíblia e Hollywood são dois símbolos de histórias da eterna luta do bem contra o mal, não há novidade alguma. Porém, Aronofsky exagera no tom adotado no filme. Desde os gramados verdes onde Noé (Russell Crowe) pisa contra a terra queimada em que passa Tubal-Cain (Ray Winstone), passando pela construção do jeito de falar e agir dos antagonistas tudo busca a contraposição entre esses dois mundos. Isso para não falar da onipresente e didática trilha sonora de Clint Mansell, além do óbvio final feliz. Esses elementos, todos em excesso, na medida em que deixam de ser novidades, cansam o público nos longos 137 minutos de duração da obra.

Contando ainda com efeitos visuais questionáveis (os Guardiões não lembram os Transformers só que mal feitos?), “Noé” pode não ser brilhante na execução, mas não impede de causar reflexões sobre os rumos da sociedade atual. Seja você religioso ou não.

NOTA:6,0

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