A assustadora assombração Samara e seu vídeo amaldiçoado retornam neste O Chamado 3, mas a coisa mais aterrorizante a respeito deste filme é o fato de ele simplesmente existir. Por que ele existe? Ora, porque Hollywood é assombrada. Primeiro, pelos contadores: alguém no estúdio Paramount Pictures jogou uns números numa fórmula, fez uns cálculos e percebeu que a companhia tinha mais chances de ganhar dinheiro do que perder com um novo capítulo da franquia. Depois do esquecível e inacreditavelmente medíocre O Chamado 2 (2004), ninguém estava clamando por mais uma continuação e muito tempo já se passou. Porém, a marca O Chamado e sua vilã são muito fortes, e na Hollywood atual reconhecimento de marca é tudo.

A franquia também é assombrada pelo seu próprio conceito. Quando o cineasta Hideo Nakata criou o original Ringu: O Chamado (1998), ele introduziu na sua história de assombração o subtexto do medo da tecnologia, próprio de vários títulos do horror japonês. Naquela época, a maioria do público ainda consumia filmes em casa via fitas de vídeo, e era através dela que Samara (ou Sadako, no caso) atacava. Esse contexto se manteve na versão americana, o primeiro O Chamado (2002) dirigido por Gore Verbinski – em minha opinião, até um pouco melhor que o original japonês. Um novo filme tem que inevitavelmente atualizar a tecnologia, fazendo com que o vídeo amaldiçoado seja visto em smartphones, computadores e on-line.

Isso não é realmente um problema, mas a forma como o roteiro de O Chamado 3 faz isso é até engraçada, de forma não intencional – nos créditos de roteiro do filme aparece o nome de um dos maiores picaretas de Hollywood, o cidadão chamado Akiva Goldsman, mais uma assombração envolvida com esta produção. Ora, o roteiro começa com um sujeito encontrando um velho videocassete com a fita maldita dentro, e como ele aprecia coisas “vintage”, não tarda a reiniciar a maldição. E por algum motivo inescrutável do destino, ele é interpretado por Johnny Galecki, da série cômica The Big Bang Theory. Então podemos botar a culpa da volta da maldição de Samara na conta dos hipsters, dos nerds e dos nostálgicos, e neste caso uma só pessoa representa todos os grupos.

E o mais curioso é que esse nem é o começo real do filme. O Chamado 3 se inicia com aquela cena vista nos trailers, a bordo de um avião, com o filme de Samara passando nas telas e entre os passageiros, mais de uma pessoa prestes a morrer depois dos “sete dias”. Será que a Samara assistiu ao começo de Relatos Selvagens (2014) e se inspirou? Será que ela ficou com preguiça de visitar suas vítimas em locais diferentes e resolveu reunir várias num lugar só, em nome da praticidade? Deve ser cansativa a vida de assombração… Ah, a propósito, essa cena não tem nada a ver com o resto da história que veremos a seguir.

Bem, voltando ao personagem de Galecki: ele é um biólogo, mas um tipo interessante de cientista, um que fala muito em “alma” e também começa a estudar o fenômeno do vídeo. Então entram em cena os heróis do filme, o casal Julia (Matilda Lutz) e Holt (Alex Roe), ambos possuídos pelo espectro da inexpressividade. São eles que conduzem a história por mais uma investigação sobre o passado de Samara, e não se engane, mesmo depois de dois filmes ainda há muito que se descobrir sobre ela. Roteiristas dos próximos capítulos devem inventar que sua colega de escola foi a Regan de O Exorcista ou que sua mãe teve um caso com um jovem Freddy Krueger… Ei, hoje em dia tudo é possível.

A investigação também os levará à porta de um personagem cego vivido por Vincent D’Onofrio, mas nem com este grande ator em cena o filme deixa de ser um tédio. Lá pela sua metade, O Chamado 3 começa a parecer o irmão chato de um capítulo qualquer de Premonição. Ali, pelo menos as coisas são mais divertidas.

E para completar, o diretor F. Javier Gutiérrez é em si um fantasma e parece não ter a mínima noção de suspense, se limitando a jump scares, ou seja, dar sustos no público com acordes altos na trilha ou pessoas gritando do nada. E Gutiérrez não foge do óbvio em nenhum momento. Ao apresentar seu casal principal, investe numa fotografia estilo “comercial de margarina” para mostrar como eles se amam. O ataque da Samara é uma repetição da cena do primeiro O Chamado – embora tenha um visual icônico, ela é um monstro meio limitado. E por um breve momento o roteiro transforma a vilã em vítima, numa “quase heroína” que serve para criar um deus ex machina no final, uma solução arbitrária para resolver a trama. E, claro, deixando a porta aberta para continuar a franquia, mesmo que isso não faça o menor sentido.

O Chamado 3 é um filme assombrado desde a sua concepção, motivada não porque os envolvidos queriam contar uma história, mas sim porque um estúdio queria retomar uma franquia adormecida, porém ainda com potencial nas bilheterias. E de quebra, os profissionais por trás dele incluem na assombração a geração do milênio e todo mundo que hoje compartilha qualquer coisa on-line, inclusive lendas urbanas e coisas malucas. O final de O Chamado 3 transforma Samara e sua maldição numa daquelas correntes de Whatsapp que enchem o saco prometendo  riquezas a quem compartilhar, e má sorte a quem não compartilhar. De vez em quando uma grande maldição é lançada sobre o cinema e seus espectadores: O Chamado 3 é a mais nova tentativa de Hollywood de levar o maior número possível de espectadores para o inferno. É realmente possível se sentir amaldiçoado depois de vê-lo.

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