Não raro, quem gosta de cinema acaba fazendo mais que simplesmente ver muitos filmes. O aprofundamento da cinefilia adentra o campo da discussão sobre eles, e a necessidade natural de embasamento nos leva à literatura sobre o tema. É dessa maneira que descobrimos que, como em qualquer outra área, há leituras essenciais sobre essa tal de Sétima Arte, e “O cinema e a invenção da vida moderna” se enquadra nessa categoria.

Organizado por Leo Charney e Vanessa R. Schwarz, o livro reúne diversos autores que, a cada capítulo, abordam a relação entre o nascimento e consolidação do cinema e o contexto histórico e social no qual se deu esse fenômeno. Dessa maneira, cobre o período de 1848 até a década de 1920, relacionando pintura, literatura, fotografia, museu e entretenimento às vivências da sociedade e à construção de novas formas de subjetividade, reforçando o papel do cinema como meio de expressão do espírito de uma época na qual florescia o que hoje se conhece como modernidade.

O foco em atividades diversas ao longo dos capítulos pode confundir o leitor à primeira vista; afinal de contas, o que publicidade, museus ou comércio têm a ver com cinema? Porém, Charney, Schwarz e os demais autores constroem um verdadeiro mosaico de experiências que, quando reunidas, compõem um quadro maior no qual elas se inter-relacionam, direta ou indiretamente, ao cinema; este, por sua vez, também se mostra ligado a um algo para além de si mesmo: o conceito de modernidade. Sendo assim, termos como cultura de massa, conhecimento e produção técnica, consumo, trabalho e lazer são expostos como facetas alinhadas a um contexto no qual o cinema é uma das peças do quebra cabeça.

Esse é o fio condutor dos 13 artigos presentes em “O cinema e a invenção da vida moderna”. Num primeiro momento, os textos abordam a questão do surgimento de novas experiências sensórias na modernidade, tratando do assunto a partir da fotografia e da pintura. Posteriormente, transformações na esfera do consumo são o foco da segunda parte, enquanto que a terceira e a quarta partes falam sobre as particularidades da percepção do efêmero e a visão do que é o espetáculo, respectivamente.

A edição nacional de “O cinema e a invenção da vida moderna” pode não ter um preço dos mais acessíveis (fica em torno de R$55,00 a R$85,00), mas a importância da obra vale o investimento. O prefácio assinado por Ismail Xavier, um dos nomes mais importantes da pesquisa sobre cinema no país, confirma o fato com propriedade. Longe de ter caráter de manual, a obra traz uma interessante reflexão sobre o cinema quando pensado em seu papel social. Trata-se de uma perspectiva instigante, que abre espaço para um pensar que vai além do conhecimento na parte técnica da produção fílmica para destrinchar as funções da chamada Sétima Arte na cultura humana, e é por isso que o livro merece ser conferido por cinéfilos que desejam ampliar seus conhecimentos.

Livro: O cinema e a invenção da vida moderna

Autores: Leo Charney e Vanessa R. Schwarz (Organizadores)

Editora: Cosac & Naify

Número de páginas: 458

Preço: entre R$55,00 a R$85,00

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