“O Conselheiro do Crime é o Selvagens de 2013. Ambos representam investidas de cineastas veteranos – Oliver Stone em Selvagens (2012) e Ridley Scott em Conselheiro – no território dos “filmes sobre o crime”. E ambos também representam pontos baixos na carreira dos seus diretores. Conselheiro, no entanto, consegue ser bem pior.

Na trama do filme, Michael Fassbender vive um advogado sem nome (os créditos e a legenda o identificam como “doutor”, a tradicional denominação brasileira para os profissionais do direito). O advogado é apaixonado por sua noiva, Laura (Penélope Cruz), e para dar a ela todo o conforto material e financeiro possível, ele se envolve num esquema de transporte de drogas do México até os Estados Unidos, com a ajuda de Reiner (Javier Bardem) e Westram (Brad Pitt), dois criminosos mais experientes. Mas todo o esquema é posto a perder por Malkina (Cameron Diaz), a misteriosa namorada de Reiner, e as vidas do advogado e sua noiva se tornam ameaçadas.

Além do nome de Ridley Scott, o pedigree do filme ainda é maior devido ao envolvimento do escritor Cormac McCarthy, neste que é seu primeiro roteiro escrito especialmente para o cinema. McCarthy já teve obras adaptadas para o cinema antes, notadamente Onde os Fracos Não Têm Vez (2007), transformado em filme vencedor do Oscar pelos irmãos Joel e Ethan Coen.

Só esse pedigree explica esse elenco tão ilustre. No entanto os atores se resignam a viver tipos e não personagens. Fassbender e Cruz não têm o que fazer no filme – ele, pelo menos, consegue na cena de abertura, de certa forma, fazer uma espécie de referência ao seu papel de viciado em sexo em Shame (2011), mas o espectador nunca se importa com ele ou com seu dilema. Bardem volta a viver um personagem com tons exagerados e penteado bizarro, mas Reiner é uma figura muito genérica e sem personalidade – e vale lembrar, o ator esteve em Onde os Fracos Não Têm Vez com um papel bem melhor. Já o personagem de Brad Pitt – voltando a trabalhar com Scott, que o revelou em Thelma & Louise (1991) – é prejudicado pelo excesso de frases de efeito presentes no roteiro, que o transformam numa figura praticamente ridícula.

Aliás, quanto aos diálogos, é necessário apontar que McCarthy traz uma “literalidade” a eles, mas essa característica não funciona pelo fato de ser muito utilizada. Quase todos os personagens têm alguns monólogos que acabam transformando os criminosos em potenciais filósofos – pense no Merovíngio de Matrix Reloaded (2003), com suas longas falas, e imagine agora uns 4 ou 5 personagens semelhantes no mesmo filme, e você terá ideia do numero excessivo de diálogos elaborados e/ou empolados do filme. Em outros momentos, porém, a obviedade das falas chega a ser risível: por exemplo, um criminoso que tenta ajudar o advogado pede para “ser tirado do centro” da situação problemática, e este pergunta: “quer dizer, do meio?”.

A única do elenco que se salva, conseguindo criar um personagem ligeiramente interessante, é a atriz Cameron Diaz. Embora seu personagem também seja arquetípico (é basicamente a mesma femme fatale do cinema noir, papel mais velho que andar pra frente), a atriz ainda consegue evocar com sua presença a dissimulação e a maldade de Malkina. Diaz também protagoniza a única cena memorável do filme – a do “sexo com um carro” – mas se este momento se tornar lembrado no futuro, será mais pela bizarrice da situação do que por qualquer outra coisa.

O roteiro, aliás, também não se preocupa em fornecer à vilã um mínimo de motivação psicológica para seus atos, restando ao espectador acompanhar um espetáculo niilista, estrelado por personagens para os quais ele não dá a mínima. Outros cineastas, como Martin Scorsese e os próprios irmãos Coen, conseguem extrair humanidade e significado de narrativas como essa, mas Ridley Scott não é um cineasta como eles. Scott é um artesão, um “operário” que sempre se mostrou mais preocupado em entreter. O diretor não consegue lidar com esse tipo de narrativa sombria, e o resultado é um filme onde o mal é um fim em si mesmo.

De certa forma, a personagem de Cameron Diaz é a perfeita representação do filme: esteticamente bonita, mas sem alma. A certa altura do filme surge o ator Dean Norris, que interpreta o personagem Hank na série Breaking Bad. Essa aparição só lembra ao espectador o quanto a série, trabalhando com muitos dos mesmos elementos de trama, faz um trabalho infinitamente melhor que o filme. Em Breaking Bad há um propósito de examinar o que há por trás do crime, da violência e do mal, e existem pessoas com as quais o publico se importa. Esses elementos fazem muita falta em O Conselheiro do Crime, e apenas os nomes de Cormac McCarthy e Ridley Scott não são suficientes para preencher esse vazio.

Nota: 2,0

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