O Protetor leva um bom tempo para estabelecer seu protagonista como um sujeito metódico, mas simpático. Robert McCall mora em Boston, trabalha numa loja de materiais de construção, regula sua vida pelo relógio e tenta motivar um colega de trabalho a perder peso. Ele também é um cara “zen” e um verdadeiro reservatório de lições de autoajuda. Toda noite McCall vai a um pequeno restaurante próximo da sua casa para tomar chá e ler um livro. Naquele lugar ele também conversa frequentemente com uma jovem chamada Alina. Ela é uma prostituta.

Um dia, Alina é espancada e acaba na UTI de um hospital. Então alguma coisa acontece dentro de McCall. Por um tempo algo parece preocupá-lo. Ele vai até o cafetão russo da jovem e o visita no seu escritório. Numa cena tensa e bem construída, McCall oferece dinheiro para liberar Alina. O russo se recusa. McCall então o mata, junto com quatro comparsas. Ele usa instrumentos que estão à sua disposição: um saca-rolhas, um copo, pesos de papel, e os transforma em armas mortais. Antes disso ele marca no relógio o tempo necessário para matar os homens: 16 segundos. Quando estão todos mortos, ele percebe que errou por pouco na sua estimativa – a luta durou 19 segundos.

O senhor McCall é uma máquina mortífera disfarçada de homem comum. Entramos no cinema sabendo disso por ter visto o trailer e os pôsters do filme, porém essa transformação não é menos impressionante por causa disso, e a força dessa mudança se deve ao intérprete de McCall, o ator Denzel Washington. O filme é baseado num antigo seriado dos anos 1980 estrelado por Edward Woodward. Ao longo da história descobrimos que o protagonista era agente da CIA e por algum motivo não explicado abandonou tudo para viver uma vida comum.

Porém uma vida comum não é para ele. Matar esses homens o faz retomar velhos hábitos: afinal, como ele mesmo diz à Alina, interpretada por Chloë Grace-Moretz, “cada um tem que ser quem é”. Como diz o titulo original do filme e da velha série, ele é o “Equalizador”, alguém que começa a equalizar as injustiças ao seu redor. Por um momento, o filme do diretor Antoine Fuqua até adquire uma estrutura parecida com uma série, com McCall se envolvendo em problemas episódicos com policiais corruptos e pegando um assaltante que atacou a loja onde trabalha.

Nesse trecho o filme fica meio bobo, pois parece que o protagonista é um ímã para criminosos… No entanto, o maior conflito do filme não tarda a surgir: os russos que McCall assassinou são ligados a um poderoso figurão da máfia russa, e este envia Teddy (um ameaçador e eficiente Marton Csokas) para descobrir o culpado pelas mortes.

O roteiro, escrito por Richard Wenk, não tem pressa para desenvolver suas situações – nesse sentido “O Protetor” se aproxima dos filmes de ação mais antigos como os dos anos 1970 e 1980 e seus protagonistas durões. “O Protetor” também lembra o recente veículo de Tom Cruise “Jack Reacher: O Último Tiro” (2012) – os protagonistas dos dois filmes possuem semelhanças – e possui alguns pontos de trama em comum com outro filme de Denzel Washington, “Chamas da Vingança” (2004).

Antoine Fuqua constrói a tensão gradativamente e, muitas vezes, envolve seu protagonista nas sombras da fotografia de Mauro Fiore. Fuqua gosta da escuridão – seu filme anterior, Invasão à Casa Branca (2013) também frequentemente mergulhava no escuro – e outros momentos decisivos de “O Protetor” se passarão nas trevas da mesma forma. O diretor também cria interessantes imagens: um movimento de câmera faz com que Teddy, sem camisa e com o torso repleto de tatuagens, se situe por um momento por cima da cidade, tornando-se uma presença intimidante. Outros momentos, porém, são meio derivativos. As tomadas que mostram McCall antecipando seus movimentos e tudo que vai acontecer na luta lembram cenas iguais presentes no “Sherlock Holmes” (2009) de Guy Ritchie.

Sobre as lutas e a ação, o diretor gosta de violência e às vezes parece ter prazer em mostrá-la – era mesmo necessário mostrar a morte de uma das amigas de Alina? No fundo Washington e Fuqua nos fazem ver a história de um homem fazendo justiça com as próprias mãos (e claro, ele está sempre certo), ao invés da história de um psicopata que mata criminosos, mas não há sutileza nem nuance na realização de ambos. Porém, enquanto Fuqua busca inspiração nos filmes antigos de ação, “O Protetor” acaba se aproximando do espírito de um filme de super-herói ao longo do tempo.

Explica-se: O roteiro de Wenk aos poucos sabota a si mesmo. A insistência do filme em fazer do personagem McCall cada vez mais “bonzão”, capaz de pensar mais rápido e lutar melhor que qualquer um dos seus inimigos, diminui a tensão da história. Sinceramente, o herói de Washington não se mostra realmente vulnerável ou em desvantagem em momento algum. Em essência ele se torna um personagem maior que a vida, praticamente um super-herói. Ao final, dá até pena dos bandidos que tentam matar McCall na loja: eles teriam mais chance se lutassem contra o Predador.

E outra característica em comum com os filmes de herói é a possibilidade de estabelecer uma franquia, e o final de “O Protetor” praticamente deixa isso escancarado. E o que começa como um quase estudo de personagem depois vira uma fantasia beirando o vigilantismo e com um protagonista que é quase um super-herói, capaz de fazer Jack Bauer e Jason Bourne parecerem escoteiros. “O Protetor” não é nada original ou diferenciado, mas é eficiente e funciona por causa de Denzel Washington. Se há um ator capaz de fazer a transição de homem comum para super-agente, é ele.

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