Feche seus olhos, ouça as vozes da floresta, sinta a brisa invadir o ambiente, o perfume do orvalho e o farfalhar que as folhas possuem ao tocar-se. Lembre-se que o mundo está em colapso, o seu país é governado por um líder fascista e a sua figura paterna é um dos fiéis desse governo antidemocrático e que você e sua mãe dependem dele pra sobreviver. Este é basicamente o dilema da pequena Ofélia (Ivana Baquero), que é levada por sua mãe Carmem (Ariadne Gil) para viver no moinho onde o capitão Vidal (Sergi Lopez) faz frente contra os rebeldes ao governo de Franco.

Guillermo Del Toro nos presenteia com uma história ambientada em 1944, ano que se aproxima da derrocada de Adolf Hitler e impulsiona os regimes totalitaristas europeus, principalmente na península Ibérica, onde a pequena Ofélia vive suas desventuras. É quase uma verdade universal que o diretor ama o gênero fantasia e todas as experimentações que este pode nos oferecer. “O Labirinto do Fauno” é mais um espetáculo visual que permeia sua carreira.


Mercedes + Carmem = Ofélia

Norteado por mulheres, o roteiro do filme as traz com faixa etária e características diferentes, entretanto todas tem papel fundamental no andamento da película.

De um lado, conhecemos Carmem, grávida de um filho HOMEM do capitão Vidal submete-se as vontades dele em prol da sua família, quer um futuro com condições melhores para filha Ofélia e o bebê que espera. É uma representação da mulher bela, recatada e do lar, porém o retrato do que muitas tinham que fazer para sua sobrevivência e de seus filhos durante a primeira parte da Europa do século XX.

Em contrapartida, o filme também nos oferece uma mulher que está dentro da revolução e faz dela o seu lar: Mercedes (Maribel Verdú), a governanta de Vidal. Determinada e fiel a sua família, na figura do irmão, Pedro (Roger Casamajor), a governanta é uma das três pessoas que nota Ofélia entre todos os personagens da trama e cuida da menina. Tendo a obstinação e esperteza como características fundamentais, ela é quem mais se aproxima da figura feminina que se propõe a representar o século XIX.

Ofélia acaba sendo a fusão das duas personagens. Ávida por leitura, a menina traz a força da revolução que sua imaginação e o amor pela família lhe estimulam a fazer. Embora presa ao universo que compõe a literatura fantástica, a margem que tem da realidade a permite ser o grande encantamento que segura o filme.


Surrealismo

Sem sombra de dúvidas, um dos destaques presentes em “O Labirinto do Fauno” são as simbologias que ele carrega. Desde a primeira cena até a passagem dos créditos, todo o filme está imerso no mundo simbólico.

A quebra de estrutura que norteia o filme, o plano onírico que desenrola a história, o próprio desfecho que permite brechas para variadas interpretações, em cada tomada de “O Labirinto do Fauno”, Del Toro deixa nítido o caráter fantástico permeado por alegorias e metáforas. Além da clara inspiração em Luis Buñuel.

O surrealismo encontra um casamento ideal com a fantasia. Os monstros que Ofélia enfrenta enquanto desafios são construções do inconsciente se atentarmos para o contraste dela com o capitão Vidal. Até as criaturas que lhe são protetores como o fauno e as fadas são esteticamente diferentes das projetadas no cinema de gênero fantasia, mas que não se distanciam da realidade imposta a menina.

A própria fotografia, azulada e em tons escurecidos, remete ao escape de realidade que a obra procura validar, a fuga está presente em formas simples de linguagem e mesmo na fragilidade que ecoa de cada personagem, até naqueles que exalam arrogância e uma visão pretenciosa de poder.


Fantasia

Construído como uma fábula carregada de alegorias e metáforas, há um paralelo muito próximo à literatura fantástica. Há cenas no filme que são nitidamente referenciadas de outras obras do gênero. “Alice no País das Maravilhas”, “O Iluminado”, “As Crônicas de Nárnia” são algumas das obras refletidas em “O Labirinto do Fauno”, até mesmo a Bíblia em sua gênese tem uma pontinha nas referências bibliográficas de Del Toro. Se pensarmos um pouco na desventura de Ofélia, a personagem e sua curiosidade lembram a menina Dorothy em “O Mágico de Oz”.

Novamente, a fotografia influencia presenteando a tela com um sombreado que visualmente mescla a realidade e a fantasia, as quais o diretor faz questão de não delimitar. Fica em nosso encargo definirmos até onde vai a fuga de Ofélia.

Embora tenha o caráter fantasioso e seja protagonizado por uma criança, “O Labirinto do Fauno” está longe de ser um filme voltado para o público infantil. Carregado de simbolismos e arquétipos fascistas, o filme torna-se um passeio entre o cinema de gênero e a literatura fantástica de Lewis e Tolkien, uma característica da Espanha e o realismo fantástico latino.


Política

Entretanto, o fator de maior crítica em O Labirinto do Fauno é a política. Luis Buñuel foi um forte combatente as concepções fascistas, utilizando o cinema para expô-las. Del Toro o acompanha e constrói sua obra como um embate ao regime autoritário. Ele transpõe para figura do Capitão Vidal a truculência, violência, intolerância e sadismo que personalizam o regime fascista de Franco. Se temos três personagens femininas que roubam a cena, seu contraponto é Vidal, que além de tudo, possui um machismo exacerbado que não pode tolerar a ideia que seu filho não seja do sexo masculino.

Vidal representa o mundo real colapsado na Europa de 1944. Por um lado, ele simboliza os que procuraram segurar-se aos regimes totalitários para sobreviver. Dentro de toda violência e frieza representada há um desejo de reafirmação que a personagem transpõe no ar e a fragilidade oculta pela intolerância. Por outro viés, há nele a própria figura do partido autoritarista, a imposição, a generalização de ideias contrapostas, o descrédito nos opositores e as estratégias desumanas de avanço territorial.


Resultado

Mais uma vez, Del Toro utiliza-se de referências para compor sua obra. Os personagens fantasiosos que são enfrentados por Ofélia não estão distantes de sua experiência no Moinho. É impossível não associar que as criaturas possuem ligação com a brutalidade de Vidal. Da mesma forma, que o diretor procura suscitar que homens como capitão são o produto de uma relação abusiva com os pais.

Entretanto, apesar de “O Labirinto do Fauno” ser um filme visualmente lindo, ter um repertório extra tela apuradíssimo, há uma sensação de incompletude ao assisti-lo. A sensação de que algo poderia ser melhor explorado, que as cenas poderiam ser menos aceleradas e a trilha sonora nos mergulharia em um suspense maior que apenas torcer para que Ofélia cumpra suas missões sem ser capturada por Vidal.

Del Toro entrega uma obra de arte simbólica e fotograficamente soberba, mas que longe de completar a barra de carregamento da expectativa, está fadada a ser um não lugar.

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